Os avisos não param de chegar, mas tem alguém prestando atenção?

Ontem foi a vez do ex-presidente do FED, o Banco Central Americano, Alan Greenspan, dizer que vê bolhas nos mercados de ações e bonds. Greenspan não é o primeiro a alertar sobre isso. Jeff Gundlach, George Soros, Bill Gross e eu, além de outros, estamos falando disso já há algum tempo. Obviamente, vindo de Greenspan, o rei das bolhas, a relevância é maior.

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Ontem foi a vez do ex-presidente do FED, o Banco Central Americano, Alan Greenspan, dizer que vê bolhas nos mercados de ações e bonds. Greenspan não é o primeiro a alertar sobre isso. Jeff Gundlach, George Soros, Bill Gross e eu, além de outros, estamos falando disso já há algum tempo. Obviamente, vindo de Greenspan, o rei das bolhas, a relevância é maior.

Isso também não quer dizer que o mercado vai começar a cair agora. Da última vez que Greenspan disse haver uma bolha foi no final de 1996, e o mercado ainda subiu por mais 3 anos antes do crash acontecer. Mas, novamente, é melhor sair bem antes do que um minuto depois.

E o mercado de bonds, o mais importante de se acompanhar, emitiu mais um sinal: os yields dos títulos de 10 anos dos EUA já estão a 2,84% e o diferencial entre os papéis de 10 anos e de 30 anos atingiu o menor nível em anos – somente 24 bps. A inclinação da curva de juros está se achatando e o mercado de ações parece não reagir.

E algumas pessoas com as quais conversamos aqui fora ainda dizem que a subida dos juros é muito boa, porque mostra que a economia americana está forte. Ah, descobrirão em breve que a economia só está forte – ou, mais precisamente, não está contraindo – porque a taxa de juros é extremamente baixa. Quando compreenderem esse nexo de causalidade, já será tarde demais.

E os exemplos não param de chegar. Tajiquistão, um dos países mais pobres do mundo (e que poucas pessoas sabem onde fica), onde mais de 20% da população vive com menos de US$1,25 por dia e também um dos países mais corruptos do mundo, de acordo com a Transparência Internacional, vendeu em setembro, pela primeira vez, títulos de dívida no mercado internacional. O país conseguiu levantar US$500 milhões a uma taxa de 7,1% a.a.! O mais interessante é que no prospecto da emissão estava escrito claramente: “corrupção e alegações de corrupção podem ter um impacto negativo na economia”. Nem isso foi capaz de afugentar os afoitos compradores.

E agora não é somente o mercado de bonds. O mercado de criptomoedas, sobre o qual já escrevemos antes, continua a desabar, com o bitcoin, o principal expoente, caindo abaixo de US$9.000 enquanto escrevo. Mas os mercados acionários americanos parecem não notar.

Em janeiro, as Bolsas subiram no mundo inteiro. Não houve nenhuma correção de 3% em nenhum dia de 2017 nos EUA. Já são mais de 420 dias sem uma pequena correção nos mercados. Esse já é o segundo mais longo bull market de todos os tempos. E isso em um período em que o FED está aumentando a taxa de juros e sinalizando redução do seu balanço, i.e., venda de parte dos treasuries que detém.

Muitos investidores, com medo de ficar de fora (FOMO), começam a resgatar suas economias em fundos e outros investimentos menos arriscados e despejam bilhões em investimentos passivos (leia-se ETFs) que não detém posição em caixa. Aliás, dados da Charles Schwab (gráfico abaixo) mostram que a posição em caixa é a menor desde que a série começou. É impossível deixar de notar que as mínimas, ocorridas no anos 2000 e 2008, marcaram o ápice do mercado, antes de um crash.

 

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Mas nada disso parece ter relevância para o mercado. Olhamos os números de várias empresas e várias delas, que têm correspondido, e até superado, as projetações dos analistas, o tem feito através de contabilidade criativa. Por exemplo, a alíquota de imposto pago pela IBM vem caindo trimestre após trimestre. Em 2017, os impostos pagos pela gigante azul foram cerca de 12%. Agora, como uma empresa situada em Nova Iorque, que tem uma das maiores alíquotas de imposto dos EUA, consegue dar lucro expressivo e pagar somente 12% em impostos é uma incógnita para nós.

Continuamos afirmando que agora é hora de ter cautela. Para os investidores que têm conta fora do país, nosso ramo de atuação, recomendamos bonds de empresas de primeira linha com vencimento curto, algumas ações que estão sendo negociadas abaixo do valor que as empresas possuem em caixa (sim, ainda é possível encontrá-las) e muita liquidez para aproveitar as barganhas que certamente virão.

Marcelo López

Marcelo López tem certificação CFA, é gestor de recursos na L2 Capital Partners, com MBA pelo Instituto de Empresa (Madrid, Espanha) e especialização em finanças pela principal escola de negócios da Finlândia (Helsinki School of Economics and Business Administration). Atuou como Gestor de Carteiras e de Fundos em grandes gestoras internacionais, tais como London & Capital e Gartmore Investment Management.

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