Bandido Estacionário: O Surgimento do Estado em “The Walking Dead”

É comum, especialmente em sistemas democráticos, a crença na boa intenção do estado em prover segurança e proteção à liberdade individual. Ironicamente, esse mesmo estado institucionaliza diversos mecanismos coercitivos que enfraquecem o que dizem defender. Este artigo usará como referência a sétima temporada da série “The Walking Dead“ para ilustrar o surgimento do estado como um bandido estacionário. Um proto-estado, antes destruído pelo apocalipse zumbi, começa a renascer de forma coercitiva pelos “Salvadores“ liderados por Negan. Através da descrição dos métodos, motivações e resultados do domínio de Negan, exemplifica-se algumas mazelas e limitações da centralização estatal e enfatiza-se a necessidade de cada indivíduo de manter-se vigilante.

“O preço da Liberdade é a eterna vigilância”, a frase comumente atribuída a Thomas Jefferson traz três verdades inconvenientes: que manter-se livre tem um custo; que há pessoas que agirão contra sua liberdade; e que a liberdade é frágil a ponto de depender dessa vigilância. Tais compreensões costumam ser utilizadas em argumentos a favor da existência de um “estado garantidor de liberdade individual”. À primeira vista, o estado recorrentemente parece ser o defensor dos indivíduos, uma vez que possui um exército para protegê-los de ameaças externas, uma polícia para protegê-los de ameaças internas e poder para protegê-los de sí próprios. No entanto, após uma análise histórica sobre a criação e surgimento do estado vê-se que o tal “defensor”, em sua originalidade, constitui o próprio “agressor”.

A série americana “The Walking Dead”1 ilustra como seria o surgimento (ou ressurgimento) do estado nos tempos de hoje, caso houvesse desaparecido após um evento cataclísmico, inesperado e espontâneo. O objetivo desde ensaio é analisar as lições e ensinamentos que podem ser tirados pelo telespectador atento. Alerto que a partir deste ponto o texto pode conter spoilers sobre o enredo da série.

Para aqueles que lerão o ensaio mesmo desconhecendo a história da série, explicarei brevemente. Um vírus se espalha pelo mundo, infectando pessoas e as transformando em zumbis após sua morte. Por seu caráter viral e altamente contagioso, os zumbis destroem rapidamente todas as grandes metrópoles deixando apenas pequenos grupos de sobreviventes. O enredo se passa em um Estados Unidos pós-apocalíptico, onde pequenos grupos se sustentam em economias isoladas, nômades e de subsistência, praticando em sua maior parte de pilhagem de recursos abandonados. O governo americano é extinto e a escassez de recursos resulta em frequentes conflitos entre grupos, que é tema central da história das primeiras seis temporadas.

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A sétima temporada introduz um novo grupo antagonista com o qual o grupo de Rick (o protagonista da série) entra em guerra. A temporada se inicia com o personagem Negan – literalmente “a man with a stick”, nesse caso um taco de beisebol com arames farpados – e seu grupo “The Saviors” (Os Salvadores) subjugando o grupo protagonista. Diferente dos passados, esse grupo possuí uma dinâmica muito diferente. Eles não praticavam o extermínio, resolução “eficaz” de conflitos utilizada por grupos inimigos, e sim, a subjugação.

Os auto-intitulados Salvadores dominavam grupos menores sempre seguindo a mesma receita. Primeiro, abordavam em bando e armados os pequenos grupos sedentários que praticavam subsistência. Em seguida, exigiam em troca de proteção dos zumbis (os grandes males externos) uma parcela de sua produção, nesse caso 50%. Como obviamente os grupos já estabelecidos e subsistentes negavam tais demandas absurdas, o grupo armado os subjugava matando um ou mais líderes e tomando toda propriedade, incluindo as pessoas. Ainda, o grupo dominante confiscava todas as armas dos dominados. Tornando ainda mais paradoxal sua presença como “protetores”. Contudo, sob a perspectiva autoritária, os Salvadores estariam supostamente protegendo os dominados deles mesmos.

Negan, o líder do grupo autoritário, rapidamente se estabelecia como definidor do próprio conceito de propriedade, que representava tudo o que era tomado através da força e não por meios pacíficos. Legitimiza-se assim que a ele tudo pertence, e que os outros nada possuem, inclusive a sí mesmos. Afinal, em sua filosofia, ele possui o monopólio jurídico para definir o que (e quem) é propriedade.

De pronto, não ficam claras as motivações daqueles que participavam e corroboravam com essa filosofia ética de propriedade e periodicamente saqueavam outros povos. Após um maior aprofundamento sobre o dia-a-dia de seu bando e da história revelada sobre seus Salvadores, fica claro que o maior motivador de seus subordinados assim como de seus dominados é o medo. Compreende-se com o desenvolvimento da trama que todos os seus subordinados já foram alguma vez parte de seus grupos dominados. Negan sequestrava alguns de seus subjugados que apresentassem um potencial agressivo, e ao mesmo tempo submisso, para transformá-los em seus subordinados e coletores de impostos.

Poderíamos supor que, como esses subjugados eram fisicamente fortes, eles se rebelariam na primeira oportunidade, correto? Supreendentemente, não. O processo de “conversão” de Negan é peculiar em mudar a mentalidade de um indivíduo. Primeiro, há de se entender que o grupo ao qual aquele indivíduo fazia parte foi dominado por um grupo militar e seus líderes foram mortos. Logo, a situação psicológica do prisioneiro já reside na frustração. Mas a questão não pára por aí, Negan faz uma espécie de lavagem cerebral, através de tortura psicológica, para mudar o compasso ético e moral de propriedade do prisioneiro e, consequentemente, aceitar a subjugação. Para piorar, Negan oferece três opções ao prisioneiro: a morte, a vida como um produtor controlado ou a oportunidade de se tornar um Salvador e “viver como um Rei”. Para um compasso moral já fragilizado, a grande maioria dos que recebem essas ofertas aceita sua terceira opção e passa a viver dos espólios e impostos de uma maioria escravizada. Outra característica intrigante é a rejeição da sua individualidade e aceitação do coletivismo. Como parte do ritual, cada um é questionado com a pergunta “quem é você?”, para então responder “eu sou Negan”. Nota-se o surgimento do coletivismo institucionalizado na série.

Não é apenas uma frase dita uma vez e ainda mais sob coerção que faria com que os indivíduos não se rebelassem depois. O processo é contínuo. Conforme esse novo subjugador acompanha e saqueia outros grupos, o conflito pessoal é intensificado. Ele agora se sente cúmplice e co-autor de todos os atos do seu coletivo. Para cada grupo coagido, para cada privilégio desfrutado, esse novo “Negan” se sente não apenas culpado, mas com medo de enfrentar sua consciência e o famoso taco de beisebol de Negan – carinhosamente apelidado de Lucille. Nesse processo gradativo e sempre na margem da ética e moral, seus capangas acabaram assimilando sua vontade individual ao desejo do “coletivo”. Ironicamente, esse coletivo, assim como muitos outros, representava a vontade de poucos indivíduos, nesse caso apenas do próprio Negan.

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Apesar de presenciar de perto o forte conflito pessoal pelo qual seus capangas passavam, o ceticismo e a crença da reversão do processo no caso de derrota do Negan continuou. Porém, supreendentemente se observou que as outras pessoas não só concordavam, mas de fato acreditavam que Negan trazia ordem, justiça e prosperidade. Pois, além de estabelecer um sistema padronizado de leis, Negan também estabeleceu um mercado altamente controlado. Em seu quartel-general (uma fábrica abandonada), Negan manteve os melhores produtores dos mais diversos povos dominados sob seu controle e implantou uma moeda de troca a qual chamou de “Pontos”. Agora, aqueles que viviam em seu quartel-general sentiam uma prosperidade e acesso a bens antes inexistentes em uma economia de subsistência em povos isolados.O terceiro episódio, por exemplo, começa com a longa jornada de um de seus capangas coagindo diversos grupos por condimentos para no fim montar um sanduíche, um bem antes raro e de dificíl acesso.

Os “cidadãos de Negan” passavam a racionalizar Negan como um mal necessário e até mesmo uma força bem intencionada por punir pessoas que roubavam ou entravam em conflito dentro de suas terras. Clamavam pela justiça de Negan quando conflitos e problemas surgiam, afinal já estavam subjugados e não tinham autonomia e muito menos soberania para tomarem as próprias decisões. Em “A Ciência da Política”2, Adriano Gianturco decorre sobre os diversos processos de que caracterizam a construção do estado e de uma nação, todos os quais Negan se enquadra. Dentre eles estão: Monopólio da violência, da legislação, da justiça, da moeda, da arrecadação de impostos, da burocracia, do controle de ideias, espírito de identidade, língua única, simbolismo e nacionalismo.

O que pode causar confusão é o fato de Negan representar o governo e o estado. Mas isso é compreensível à medida em que entende-se o “governo Negan” como o governo criador do estado, governo que está criando base para que outros futuramente surjam. Domesticando o gado para que a fazenda (leia-se, coerção institucionalizada) prospere. Negan representa o primeiro bandido estacionário3 que impõe uma cultura de dominação na qual a coerção floresce e se institucionaliza.

A sétima temporada é carregada de cenas de dominação, subjugação, conflitos pessoais, manipulação de incentivos e diversos outros temas que enriquecem ainda mais a análise do estabelecimento e expansão de um estado, instituição coercitiva com monopólio da força, justiça e legislação sobre uma área e pessoas. É notável ressaltar que o estado que se estabelece sob os nomes de Negan ou Os Salvadores é diferente em complexidade e regras dos estado-nação sob os quais vivemos hoje. Mas é mais notável ainda ressaltar que ambos têm sua origem e embasamento na coerção e no monopólio de poderes. Nota-se que, diferentemente dos Salvadores, os povos sob os estados-nação já estão em situação muito mais conformista e em mistura cultural, ideológica e étnica com os dominadores. A violência cada vez mais se distância do seu dia a dia, fazendo com que fique gradualmente mais fácil aceitar a subjugação e a necessidade de proteção por parte do estado. Identificar e rejeitar uma instituição que estava presente desde seu nascimento e que tem influência em praticamente todos os setores da economia traz um sentimento de desconforto muito grande. É muito fácil aceitar as coisas como elas são, ainda mais se o caminho para uma outra possível solução é tão distante ou, como alguns gostam de chamar, “utópico”.

Como Frédéric Bastiat diz em sua obra “A Lei”4, frente à espoliação há duas possíveis reações: a de rejeitá-la e combatê-la, ou a de aceitá-la e redirecioná-la para si e seu grupo de interesse. O mesmo conflito se passa na cabeça de todas as pessoas, seja no universo fictício do “The Walking Dead” ou em nossa realidade. Assim como Negan colocava as pessoas como cúmplices de seus espólios e atrocidades para então dificultar a rejeição da moral que impunha, pode-se refletir: Quantas vezes já fomos nós esses cúmplices e utilizamos da espoliação estatal? Seja votando em nossos Negans (Voto democrático), financiando a capacidade de espoliação de Negan em troca de retornos consistentes (Tesouro direto), ou seguindo as regras de Negan e clamando por sua justiça involuntária quando outros subjugados a quebram (Legislação estatal)? Você já aplaudiu alguma vez os capangas de Negan invadindo propriedades alheias para expropriar bens adquiridos que não seguiam as estritas regras de Negan?

Em seu livro “Anarquia, Estado e Utopia”5, Robert Nozick propõe uma história chamada de o Conto do Escravo6. Nesse conto Nozick pede que o leitor se imagine como um escravo em uma plantação. Em nove etapas, Nozick gradualmente alivia as situações iniciais da escravidão, como se seu mestre parasse de te bater, ou te desse dois dias de semana de folga, ou que você pagasse apenas uma porcentagem de sua produção, até finalmente presentear-lhe com o direito ao voto. No nono estágio, Nozick questiona: a partir de que ponto a escravidão deixou de ser escravidão?

Por isso, conseguir associar novamente uma imagem tão vívida como a de Negan, “a man with a stick”, nos ajuda a compreender os valores éticos e morais por trás das mais variadas medidas impostas através da coerção. Nos ajuda a entender as motivações egoístas que regem aqueles que se dedicam à vida pública. Nos ajuda a entender que mesmo tendo menos contato direto com os cobradores de impostos, esses ainda estão presentes e usarão violência sem pensar duas vezes para se apropriar daquilo que, no conceito de propriedade deles, lhes é devido. Nos ajuda a entender que mesmo ainda nos sentindo livres, por sermos obrigados a darmos parte de nossa propriedade para não sermos violentados, somos tão livres quanto galinhas em uma fazenda. Não é à toa que “A Revolução dos Bichos”7 de George Orwell consagrou-se um clássico ao humanizar animais e equiparar políticos a fazendeiros.

O maior questionamento que surge ao fim da temporada é: como prevenir o surgimento e disseminação da coerção institucionalizada?

1- Seja intolerante com quem inicia violência.

Rick e seu grupo reagiam com parcimônio às diversas ameaças e demonstrações de violência por parte dos Salvadores mesmo sabendo e vendo suas claras intenções de subjugação e invasão de propriedade.

2- Não abra mão de sua auto-defesa.

Você representa a última linha de defesa da sua propriedade. É completamente incoerente que qualquer pessoa que diga querer te proteger diminua sua capacidade de auto-proteção.

Encerro com a mesma frase que comecei, lembrando que “o preço da Liberdade é a eterna vigilância”. Mas ninguém disse que você deve vigiar sozinho.

 

Luiz Guilherme Priolli é economista e um dos fundadores do grupo universitário Insper Liber.

 

Referências

1 “The Walking Dead” série americana lançada em 2010 e baseada na série de quadrinhos de Robert Kirkman, Tony Moore e Charlie Adlard. Foi produzida por Frank Darabont e encontra-se na sétima temporada.

2 “A Ciência da Política” obra escrita por Adriano Gianturco e publicada em 2017 pelo Grupo Gen.

3 Bandido Estacionário: termo inaugurado por Mancur Olsen em sua obra “Poder e Prosperidade” (2000) ondemostra que os governos se originaram em bandidos que deixaram de ser nômades e alinharam sua prosperidade à prosperidade de seus dominados. Análise similar a de uma fazenda.

4 “A Lei” obra escrita pelo economista francês Frédéric Bastiat em 1850.

5 “Anarquia, Estado e Utopia” livro escrito pelo americano Robert Nozick e publicado no ano de 1974.

6 Link vídeo no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=jc-NAx7t9zk

7 “A Revolução dos Bichos” livro escrito pelo americano George Orwell e publicado no ano de 1945.

IFL - Instituto de Formação de Líderes

O IFL - Instituto de Formação de Líderes de São Paulo - visa a ser referência nacional na formação de lideranças que impactem a construção de uma sociedade mais livre, que sejam comprometidas com a construção de um Brasil democrático e próspero. Desde 2014 o IFL organiza o Fórum Liberdade e Democracia de São Paulo que tem como propósito alimentar a discussão, engajar a sociedade local e expor alternativas viáveis para mitigar os problemas brasileiros.

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