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O custo de “cancelar” a Rússia

As sanções aplicadas à Rússia têm causado danos significativos ao país, levando a um “cancelamento” da Rússia. Mas os custos também devem ser elevados para os “canceladores”

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Último dia de funcionamento da loja da Ikea em Moscou, Rússia
Último dia de funcionamento da loja da Ikea em Moscou, Rússia (Konstantin Zavrazhin/Getty Images)

Em março de 1769, um grupo de colonos na região de Boston decidiu impor um boicote aos comerciantes ingleses de chá. Esse é o primeiro grande boicote de cunho econômico do qual se tem notícia – e marcou o início da Revolução Americana.

Boicotes e restrições comerciais foram, e ainda são, uma arma comum de guerra desde então. Em 1941, por exemplo, os Estados Unidos impuseram um boicote ao Japão, vetando a importação de combustíveis pelo país.

Há quem especule que Henry Dixon White, um membro do alto-escalão do Tesouro americano, além de informante da KGB, tenha pressionado pela adoção da medida, com o intuito de criar um ultimato impossível de ser cumprido pelo Japão.

Fato é que, sob tais condições, o Japão atacou a base naval de Pearl Harbor, no Havaí, criando o cenário para os EUA entrarem na Segunda Guerra Mundial.

Até aquele momento, os EUA apoiavam o Reino Unido com o repasse de armas, mas sem envolvimento direto no conflito. Após o ataque japonês, a questão se inverteu.

Esse paralelo tem sido traçado nos últimos dias graças a uma outra medida, também envolvendo combustíveis.

EUA e União Europeia devem decidir ao longo da semana se irão impor mais uma nova sanção econômica à Rússia, desta vez vetando a importação de petróleo russo.

A medida tem poder de causar uma hecatombe ainda maior na economia russa que, ao contrário do Japão de 1941, é uma grande exportadora de petróleo.

Com um PIB de US$ 1,8 trilhão, os russos exportam ao menos US$ 188 bilhões em petróleo e gás. Trata-se de uma receita considerável que, em boa medida, é direcionada para os cofres do governo, bancando não apenas os gastos militares, como também boa parte dos programas de governo.

Cortar a principal fonte de renda do país seria, portanto, bastante drástico.

Mas os custos da guerra, até o momento, não chegam a ser tão mais leves. A Rússia tem sofrido sanções em graus jamais vistos contra qualquer país, ao menos não nesta escala.

É possível dizer que os russos estão revivendo a música que os Beatles gravaram quando eles finalmente deixaram de ser proibidos na União Soviética, comemorando o feito com a música “Back in the USSR”, ou “de volta à União Soviética”.

Mais de uma centena de marcas, como Microsoft, Amazon, Apple, Ikea, Mitsubishi, Samsung, Paypal e outras, nos mais diversos setores, já restringiram produtos no país.

Atualmente, transacionar com a Rússia “pega mal”, como a Shell pôde comprovar ao ter de se desculpar por comprar petróleo russo abaixo do preço.

Fazer negócios no país se tornou, de certa maneira, uma forma de financiar as ações do governo russo, como a invasão de uma nação soberana.

A guerra, portanto, está custando milhares de empregos e dificultando atividades antes consideradas básicas, como pagar uma conta.

O Sberbank, principal banco da Rússia, viu suas ações caírem de US$ 20 para US$ 0,01. No total, as empresas russas perderam ao menos US$ 570 bilhões em valor de mercado. Os bilionários russos, por sua vez, já perderam ao menos US$ 84 bilhões de patrimônio.

Mas não é a perda de bilhões de dólares (ou a apreensão das grandes coleções de iates de seus oligarcas) que mais deve impactar o país.

Neste momento, a Rússia sofre com a dificuldade em exportar e importar produtos básicos. Seus supermercados estão na iminência de uma escassez. Empresas de transporte marítimo, como a MSC e a Maersk (além de outras que, na soma, respondem por 47% do frete global), já anunciaram que não irão mais transportar produtos russos.

Visa e Mastercard também suspenderam cartões russos, inviabilizando o pagamento de contas.

É uma questão “micro” de um problema “macro”: a retirada da Rússia do SWIFT, um sistema global de confirmações de transações internacionais, que reúne ao menos 11 mil bancos no mundo.

O rublo, por sua vez, já perdeu 30% do valor. Os bancos sofrem com a conhecida “corrida bancária”, um evento no qual, no fim, a população se dá conta de que seu dinheiro não está nos bancos.

Vladimir Putin já restringiu a saída de dólares do país. O Banco Central russo elevou os juros de 9,5% para 20%. Em outra medida recente, o governo avisou que quem possuir valores não declarados no último imposto de renda terá bens confiscados em conta.

Há, claro, de se ter cautela com medidas anunciadas por lá. Afinal, os russos também estão sendo banidos de redes sociais.

O Facebook, por exemplo, saiu do ar após se negar a parar de checar publicações da mídia estatal russa. O Twitter agora informa que tais veículos são ligados ao governo russo (nada que impeça alguns jornalistas brasileiros de dar uma força no engajamento).

Ainda é cedo para estimar o impacto de todas estas medidas na economia russa. Mas já sabemos que não se trata de uma via de mão única.

Rússia e Ucrânia respondem por 29% das exportações globais de trigo, o que leva a uma explosão no preço da commodity na bolsa de Chicago, maior mercado de negociações agrícolas do mundo.

O preço do petróleo também disparou, levando a uma pressão inflacionária ainda maior, além do risco de uma recessão nos EUA e Europa. No caso europeu, a questão é ainda mais significativa no gás, que já beira os US$ 3 mil por mil m³.

Com o risco de recessão por lá, os juros devem demorar a subir, o que, por sua vez, significa deixar o caminho aberto para a inflação seguir elevada.

São questões que, no fundo, devem impactar até quem não possui qualquer ligação com o conflito, mostrando como o cenário de economia globalizada, apesar de gerar enormes benefícios, também torna as coisas mais frágeis em momentos de tensão.

Por aqui, o preço do pão, do café e de alimentos em geral deve competir com a gasolina para saber quem mais tira o sono da população.

Felippe Hermes

Felippe Hermes é jornalista e co-fundador do Spotniks.com