Análise: 50km/hora, para quem Hadddad governa?

Com medidas de um apelo cool aos olhos do beautiful people politicamente correto e um nível recorde de desaprovação, fica claro que Fernando Haddad não governa para a esmagadora maioria da população de São Paulo, ao contrário, vai colando a imagem do prefeito moderninho para conquistar cada vez mais espaço com o seu eleitorado, a esquerda progressista, pouco expressiva em números, mas capaz de influenciar muitos eleitores no longo prazo. Não seria surpresa se daqui alguns anos Fernando Haddad se lançar a candidato a presidente e a mídia vendê-lo como o político a frente do seu tempo, uma espécie de Barack Obama Tupiniquim.

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Inegavelmente, Fernando Haddad é o rei das medidas polêmicas para cidade de São Paulo. Entre elas, o bolsa crack, o bolsa travesti, as ciclovias e, agora, o limite de velocidade de 50km/hora na marginal. O que essas medidas têm em comum? Elas agradam a um grupo que é minoria na população, mas que tem grande influência como formador de opinião na sociedade: a esquerda progressista, também conhecida como New Left, tão presentes nas universidades, nas redações de jornais e na mídia de um modo geral. 

É comum ouvirmos pessoas criticarem a Dilma, o PT, mas dizerem que se identificam com Fernando Haddad. O prefeito de São Paulo não faz o tipo da velha esquerda sindical, do líder carismático populista, ao contrário, está alinhado com as tendências mais progressistas da New Left ao promover medidas mais pelas boas intenções politicamente corretas do que os resultados concretos a serem produzidos. Vejamos os exemplos.

50km/hora na marginal

Claro que  qualquer medida que seja contra os usuários de automóveis pega bem para o mainstream politicamente correto , afinal, carro é coisa da “zelite” e de pessoas contra o meio ambiente, não é mesmo?  A ideia, de acordo com o prefeito, é reduzir o número de acidentes mesmo que experiências recentes mostrem o contrário: a redução da velocidade não diminuiu o número de acidentes, pelo contrário, aumentam (veja aqui). Mas para New Left e os inocentes  úteis que as seguem isso não importa: preferem medidas “bem intencionadas” a resultados concretos. Sem contar que a arrecadação da prefeitura vai aumentar diante da dificuldade de andar a 50km/hora numa via expressa. Vale ressaltar que criar um excesso de leis e regulações humanamente impossíveis de serem cumpridas, com resultados opostos dos desejados, é a melhor forma de controle e expropriação do indivíduo pelo Estado. 

Ciclovia

A construção de ciclovias, de maneira planejada, em cidades planas, como Paris, NY ou Bogotá é algo muito bem vindo como alternativa de transporte. Mas será que construir ciclovias numa cidade com um relevo extremante complicado, como o de  São Paulo, simplesmente pintando o chão de vermelho (exceção à Avenida Paulista) tem como objetivo melhorar o trânsito da cidade e oferecer alternativa de transporte para a população mais pobre?  Acredito que não, por várias razões. A primeira é que ao contrário das cidades famosas por suas ciclovias, São Paulo não é plana. Infelizmente, o relevo da capital é muito complicado e as distâncias muito longas. Será que os moradores do Grajaú (periferia de São Paulo) vão pedalar 30km para trabalhar no centro da cidade? Até agora, a construção de ciclovias na cidade de São Paulo não trouxe benefícios concretos para a população – a olhos vistos não melhorou o trânsito e nem serviu como alternativa de transporte para a população mais pobre. Mas isso não importa, fazer qualquer medida em pró da “bike”, mesmo que irracional, tem um apelo de marketing fortíssimo para a esquerda progressista.  Afinal de contas, a “bike” é um dos símbolos intocados da cultura politicamente correta, do cool, do descolado, do “inteligentismo”. A pesquisa Datafolha retrata muito bem este fenômeno, na qual 80% da população aprovam as ciclovias, mas apenas 3% utilizam a bike como meio de transporte. A discrepância das respostas confirma que as pessoas no curto prazo são mais influenciadas pelas boas intenções politicamente corretas do que pelos resultados concretos a serem produzidos. Em outras palavras, mesmo que as ciclovias sejam ineficientes para cidade (pouco uso e alto custo), as pessoas aprovaram a ciclovia porque pega mal na ditadura politicamente correta ser contra uma ciclovia. 

Bolsa Travesti e Bolsa Crack

Alguém realmente acredita que dar bolsa para um viciado em crack vai tirá-lo do vício? Ou o usuário vai pegar o dinheiro para comprar mais droga? Mesmo quem tem acesso às melhores clínicas de ponta sabe da dificuldade de se afastar da droga. E dar bolsa para o travesti, será que a pessoa vai deixar de se prostituir? Nada contra travesti se prostituir (isso é uma ESCOLHA dele), mas o dinheiro dado ao travesti e ao viciado em crack, por exemplo, poderia ser destinado a uma bolsa para o faxineiro estudar, ao encanador que quer se aperfeiçoar e por aí vai. Todos têm justificativas para ganhar uma bolsa, não é mesmo?  Sem contar que o efeito pode ser exatamente o contrário: a pessoa passa a ter um incentivo financeiro para continuar no vício ou na prostituição. Mas no paraíso esquerdista sobram recursos e tudo é possível. É um verdadeiro “mundo de Poliana” que tem dinheiro para tudo e para todos. Não entendem um ponto crucial: os recursos são escassos e as necessidades ilimitadas (página 1 de qualquer manual de Economia). De outra forma: para cada escolha existe uma renúncia (“tradeoff”) ou para alguém ganhar sem trabalhar, alguém tem que trabalhar sem ganhar (Margaret Thatcher). Mas não importa, o que interessa são sempre as boas intenções…

Conclusão

Com medidas com um apelo cool aos olhos do beautiful people politicamente correto e um nível recorde de desaprovação, fica claro que Fernando Haddad não governa para a esmagadora maioria da população de São Paulo, ao contrário, vai colando a imagem do prefeito moderninho para conquistar cada vez mais espaço com o seu eleitorado,  a esquerda progressista, pouco expressiva em números, mas capaz de influenciar muitos eleitores no longo prazo. Não seria surpresa se daqui alguns anos Fernando Haddad se lançar a candidato a presidente e a mídia vendê-lo como o político a frente do seu tempo, uma espécie de Barack Obama Tupiniquim. 

Alan Ghani

É economista, mestre e doutor em Finanças pela FEA-USP, com especialização na UTSA (University of Texas at San Antonio). Trabalhou como economista na MCM Consultores e hoje atua como consultor em finanças e economia e também como professor de pós-graduação, MBAs e treinamentos in company.

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