Não, a diretora-geral do FMI não desmentiu Henrique Meirelles

Nesta semana está acontecendo o Fórum Econômico Mundial, em Davos na Suíça. A BBC Brasil divulgou a notícia de que Henrique Meirelles teria sido desmentido pela diretora-geral do FMI, Christine Lagarde, após um discurso defendendo as reformas feitas no Brasil. Não é bem assim.
Por  Renata Barreto
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Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Você provavelmente viu a matéria da BBC Brasil ser bastante divulgada por aí. Infelizmente, hoje vivemos num tempo em que é preciso desconfiar de tudo, a manipulação da informação atingiu níveis estratosféricos e a falta de ética jornalística é exemplar. Qual é a realidade, então?

Em Davos, onde acontece o Fórum Econômico Mundial, o ministro da Fazenda Henrique Meirelles defendeu as reformas propostas no Brasil, sendo que a PEC 55 que trata sobre o Teto de Gastos já foi aprovada, dizendo que essas reformas são de fundamental importância para o resgate da credibilidade do Brasil. Quando questionado pela moderadora em relação ao convencimento da população na aprovação dessas reformas, Meirelles explicou que o país tem uma situação diferente da dos países desenvolvidos, além de estarmos num momento delicado de endividamento alto, grade urgência de voltar a crescer e procurar abrir a economia.

Segundo a jornalista que escreveu a matéria, Lagarde teria levantado na sequência e o rebatido, dizendo que é de suma importância reconhecer a concentração de renda e que as políticas econômicas devem ter como prioridade o combate na desigualdade social. Bem, primeiro que isso não foi desmentir o ministro, Lagarde não diz que as reformas não são necessárias e, segundo, que a desigualdade caiu no Brasil em 2015. E por que? Houve recessão e as pessoas ficaram mais pobres. Segundo dados fornecidos pelo IBGE em uma pesquisa divulgada em novembro do ano passado, todos os tipos de renda registraram queda em 2015.

É importante falarmos de desigualdade sim, mas também é importante sabermos que o maior problema a ser combatido é a pobreza. Além disso, a própria Lagarde apoiou as reformas feitas no Brasil quando se reuniu com o ministro em outubro do ano passado. Disse ela: “Eu tive o prazer de ter um encontro com o ministro Meirelles hoje. Nós discutimos os planos de reformas fiscais das autoridades brasileiras, incluindo a emenda que vai limitar os gastos públicos e a reforma da Previdência. Sinto-me encorajada pelo foco e pela direção dessas reformas. Aprová-las num prazo razoável ajudaria a fortalecer credibilidade da política macroeconômica, reforçaria a confiança na economia e proveria uma âncora para o retorno de um crescimento inclusivo e sustentável no Brasil”.

A matéria coloca como justificativa um estudo do FMI feito em 2013 que aponta que políticas de controle de gastos públicos resultam na geração de desemprego no curto prazo, dizendo ainda que a desigualdade social aumenta com esse tipo de política, mais do que quando há aumento de impostos. Na matéria, uma fotografia mostra uma manifestante contra a PEC com a seguinte legenda: “Estudo do FMI mostrou que pacotes de ajustes com os implantados por Temer resultam em desemprego”. Acontece que o FMI fez um relatório específico sobre o Brasil em novembro do ano passado, falando exatamente o contrário. O estudo completo pode ser verificado neste link aqui, mas traduzi dois trechos importantes que comprovam o apoio da instituição:

“Um forte incentivo para implementar as propostas apresentadas para melhorar os desequilíbrios fiscais e rigidez do orçamento através do lado das despesas vai ao encontro da retomada da credibilidade da política econômica e confiança do mercado que tem efeitos positivos diretos em investimento e crescimento do Brasil.”

“Nos anos recentes, as políticas econômicas falharam em conseguir resolver problemas estruturais de longa data e sempre se mostraram contraproducentes. Neste contexto, SAUDAMOS o novo foco do governo em controlar o crescimento das despesas fiscais, IMPONDO UM LIMITE PARA GASTOS em termos reais e a reforma da previdência. A aprovação e implementação bem sucedida deste limite de gastos seria um divisor de águas (game changer) para o Brasil.”

Aconselho a vocês desconfiarem sempre de tudo e ir buscar informações nas mais variadas fontes de informação. Não se deixe ser manipulado com meias-verdades e discursos que visam apoiar ideologias pessoais em detrimento da verdade. 

 

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Renata Barreto Renata Barreto é economista com especialização em derivativos, atua no mercado de capitais há 15 anos com experiência em trading, advisory e estruturações. Hoje concentra seu trabalho em investimentos e produtos internacionais, além de escrever sobre política e economia.

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