“Intelectuais” a favor de Lula: Mau caratismo ou inocência?

Nesta semana houve a divulgação de um manifesto assinado por mais de 400 pessoas em favor de Lula, pedindo sua imediata candidatura como forma de "garantir ao povo brasileiro a dignidade, o orgulho e autonomia que perderam". Além de ter sido muito mal redigido, com erros grosseiros de português (intelectuais não deveriam saber escrever direito?), os manifestantes parecem se esquecer, convenientemente, que Lula e sua turma são responsáveis pela grave crise que acometeu o Brasil. Vamos relembrar os últimos 14 anos?
Por  Renata Barreto
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Einstein já dizia: “Loucura é fazer a mesma coisa várias e várias vezes esperando resultados diferentes”. Simples e brilhante. Há uma classe de pessoas que figura entre artistas, escritores e membros de movimentos sociais que parecem querer repetir o passado para resolver os problemas que enfrentamos agora, fruto de anos de irresponsabilidades na economia, além de graves escândalos de corrupção que tem Lula como ponto chave. O ex-presidente é réu em cinco processos, alvo da operação Lava-Jato que, por sinal, parece só valer quando aponta para o outro lado. Lula é visto por parte da população e principalmente pelos ditos intelectuais como se fosse um perseguido político ilibado. Se preocupam tanto com a operação quando é para falar que Dilma sofreu um golpe, mas ao mesmo tempo dizem que ela é parcial e midiática. Dizem que a elite brasileira não suporta a ascensão dos pobres gerada no governo Lula, como se, de fato, fosse ele o responsável direto pela melhoria de vida das pessoas, além de não considerarem que independentemente de qualquer ação positiva, a corrupção e seus desdobramentos não podem ser ignorados.

Para enganar alguns incautos, a narrativa de Lula encaixa muito bem. Mas pessoas que se consideram intelectuais e deveriam ter a capacidade de interpretação de fatos históricos e com vasto acesso à informação não deveriam cair no mesmo conto do vigário sem antes checar tudo muito bem. É aí que me pergunto se isso tudo é realmente apenas muita inocência, ou transcende os limites do bom caráter. Muito do que se fala sobre seus dois mandatos e, posteriormente, sobre os mandados de Dilma (que estavam sob sua tutela), sequer passam perto da verdade. “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.

Em 2012 Lula chegou a dizer que foi o responsável por tirar mais de 36 milhões da pobreza. Se formos considerar os dados oficiais do IPEA, a queda foi de 8,4 milhões no período de 2002 a 2012. Expressiva? Com certeza. Mas nem perto dos 36 milhões que Lula e seus correligionários queriam nos fazer acreditar. E qual foi o principal motivo para essa aceleração da retirada de pessoas da miséria? A melhora da economia. E qual é o mérito de Lula nesse caso? Além de ter recebido um país estabilizado e ter surfado a onda do crescimento chinês, manteve as políticas econômicas e fiscais de forma austera, com uma equipe econômica ortodoxa e responsável.

Quem nasceu depois da implantação do plano Real não se lembra como foram difíceis os tempos antes da estabilidade da moeda e da falta de confiança internacional na economia brasileira, com dez moedas e sete planos econômicos diferentes. Em meados dos anos 80, a inflação era de 80% ao mês. Em 1990 a inflação era superior a 1600% no acumulado de 12 meses e em 1993, logo após Impeachment de Collor, a inflação já era de mais de 2.400%. Itamar Franco assumiu a presidência após a saída de Collor. Três trocas de ministro da Fazenda se sucederam até trazer Fernando Henrique Cardoso. Ele constituiu um time de peso com Gustavo Franco, Pedro Malan, André Lara-Resende, Pérsio Arida e Edmar Bacha. Juntos criaram o Plano Real, plano esse que é o mais longevo da história do Brasil e verdadeiro responsável pela melhoria da situação econômica brasileira que, consequentemente, reflete na melhoria de vida da população.

Entender a instabilidade econômica do país pré-plano Real é de fundamental importância para entender os anos de bonança que vieram à frente. O plano ainda passou por crises difíceis como a Asiática, a da Rússia e das “ponto com” nos anos 2000, fazendo ajustes ao longo do caminho para tentar melhorar a estabilidade da moeda e a credibilidade do país. Em 2002, quando Lula foi eleito Presidente do Brasil, a inflação que já tinha ficado abaixo de 6% em 2000, voltou a patamares mais altos, fechando a 12,53%, principalmente puxado pela alta do dólar com o risco institucional que Lula trazia. No fim das contas, ele não fez nada daquilo que dizia na TV, como por exemplo, o não pagamento da dívida.

Os anos que se seguiram foram ótimos do ponto de vista do cenário internacional e da melhora constante das contas públicas e geração de superávit. Houve expressiva alta do preço das commodities e uma intensa demanda, principalmente por parte da China. Éramos e ainda somos grandes exportadores de commodities, tais como soja, minério, carne, leite, alumínio, entre outros. Isso não tem nada de errado, se não fôssemos praticamente exclusivos nessa modalidade. Isso significa que o preço das commodities no mercado internacional é de extrema importância para a economia brasileira, dependendo da exportação de bens primários e, portanto, dependentes dos preços das commodities também.

No primeiro mandato de Lula, o preço das commodities subiu algo em torno de 120% e no segundo, cerca de 50%. A própria crise internacional de 2008, com a quebra do Lehman Brothers e problemas com créditos chamados Subprime, levou o preço das commodities ainda mais para cima, se mantendo em níveis elevados por cinco anos. Com essa receita alta e uma gestão dos gastos públicos bem-feita com metas de superávit e inflação mantidas, tivemos anos de pujança econômica. Em 2008, mesmo com a crise internacional, veio o tão sonhado Investment Grade, ou o “selo de bom pagador” dado pelas agências de risco internacionais. Isso era a coroação de um Brasil mais confiável, embora embaixo dos panos aconteciam as mais espúrias negociatas entre burocratas, políticos e empresários amigos do governo, coisa que veio à tona mais recentemente. Eike Batista, nessa época, era aclamado.

A partir de 2009, já começamos a ver uma mudança na gestão econômica, pois reagindo à crise, o governo passou a estimular a demanda. Abrimos o ano com taxa de juros básica a 13,75% ao ano e, em julho, já era de 8,75%. O acesso ao crédito ficou mais fácil e mais barato, houve redução de impostos principalmente no setor automobilístico e na linha branca, redução da taxa de compulsório e os gastos públicos cresceram assombrosamente sem qualquer responsabilidade ou planejamento. Essa é a famosa política anticíclica, que visa estimular a demanda num período de recessão, que aconteceu rapidamente no Brasil por conta da crise internacional. Entretanto, essa política foi mantida e ampliada nos anos seguintes, elevando o consumo das famílias tanto quanto seu endividamento.

Lula agora avalia que o PT precisa bater mais forte no governo de Michel Temer, governo esse herdado pelo impeachment de Dilma (afastada por crime de responsabilidade), lançando uma espécie de programa nacional de emergência para o país sair da crise. Deputados e senadores petistas como Gleisi Hoffmann e Lindbergh  Farias tem a cara-de-pau de culpar o governo Temer pela crise brasileira que hoje já soma mais de 12 milhões de desempregados (e isso levando em consideração a estatística oficial do IBGE, que como explico nesse artigo aqui, tem problemas de metodologia). Qual será o foco de sua plataforma para 2018? Ampliar o crédito para produção e consumo (exatamente como foi feito e deu no que deu), reajustar o bolsa família em 20% (programa o qual Lula debochava antes de ser presidente e depois passou a usar explicitamente para manipular eleitores), aumento real no salário mínimo (na canetada, não com produtividade, o que pode gerar ainda mais desemprego), entre outras sandices que só fazem sentido para quem não entende o sistema econômico e suas consequências. 

Tudo outra vez. TUDO. E querem um resultado diferente?

Tudo isso ainda sem considerar todos os absurdos feitos durante os governos do PT, os rombos milionários em estatais, os desvios monstruosos, os diversos pagamentos de propinas (só a operação Lava-Jato estima mais de R$10 bilhões), a constatação de um esquema criminoso que tem Lula como principal articulista, rombo nos fundos de pensão, contratos espúrios e uma soberba que cresce a cada denúncia feita.

Querer Lula como candidato em 2018 achando que ele é a solução para o país, seria o mesmo que achar que Hitler deveria ir para Israel para resolver o problema dos judeus no conflito com a Palestina. Simplesmente impossível. É dar as ovelhas para o lobo cuidar. Quem apoia isso ferrenhamente, será que é inocente? Eu duvido muito. É a cumplicidade com o que de pior existe, falando em nome dos mais pobres que dizem defender e, na verdade, prejudicam cada vez mais.

Lula 2018? Não poderia ser um fim mais trágico para o Brasil. 

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Renata Barreto Renata Barreto é economista com especialização em derivativos, atua no mercado de capitais há 15 anos com experiência em trading, advisory e estruturações. Hoje concentra seu trabalho em investimentos e produtos internacionais, além de escrever sobre política e economia.

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