Desigualdade salarial entre homens e mulheres: quem está certo?

Ontem, durante a sabatina do Jornal Nacional, o candidato Jair Bolsonaro foi questionado pela jornalista Renata Vasconcelos sobre a desigualdade salarial entre homens e mulheres e qual seria a sua proposta para reduzir tal diferença. O questionamento acabou se tornando um mini embate entre os dois, já que a jornalista disse que o Presidente poderia propor um conjunto de medidas para interferir no problema, que "nunca aceitaria ganhar menos que um homem na mesma função" e o candidato disse que já está na lei que homens e mulheres devem ganhar o mesmo, não podendo o Presidente da República intervir além do que estipula a lei. Afinal, quem está certo?
Por  Renata Barreto
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O estudo do IBGE citado ontem por Renata Vasconcelos diz que as mulheres receberam cerca de 77,5% do rendimento pago aos homens em 2017. Infelizmente, quase sempre as estatísticas são usadas para algum tipo de manipulação, dado que é preciso mais a fundo nos números para encontrar a resposta correta.

A pesquisa fala em rendimento MÉDIO, sem comparar homens e mulheres em companhias e cargos diferentes, com tempo de experiência diferentes e valor agregado à companhia diferentes, o que leva muitos a concluir que mulheres ganham menos do que homens por uma questão pura de discriminação.

Será mesmo que a maioria das empresas brasileiras são tão machistas a ponto de preferir contratar homens ganhando mais, em vez de mulheres capazes de realizar o mesmo serviço por um valor reduzido? O próprio estudo diz que “em função da carga de afazeres e cuidados, muitas mulheres se sentem compelidas a buscar ocupações que precisam de uma jornada de trabalho mais flexível”, o que pode explicar parcialmente a diferença salarial entre homens e mulheres.

Em 2012 foi aprovada uma lei que prevê multas para empresas que pagam salários diferentes para homens e mulheres que realizem o mesmo trabalho. Na época, a pesquisa do IBGE apontava que mulheres recebiam 72,3% do salário dos homens. A última pesquisa, citada acima, mostra que houve pouca evolução desde então, mesmo com uma lei mais dura, denunciando que uma interferência estatal pura e simples, não fará com que o mercado de trabalho pague a mesma coisa para homens e mulheres.

Diversos outros fatores que explicam essa diferença estão sendo ignorados. Um estudo feito em Harvard em 2014, por exemplo, identificou que as mulheres têm mais estudo, mas começam a carreira mais tarde, são mais suscetíveis a desistir da carreira mais cedo, têm menores jornadas e se concentram em atividades de menor remuneração.

Um dos pontos cruciais a ser entendido nesse tema é que, em primeiro lugar, o mercado de trabalho não é homogêneo e existem diferenças salariais entre os setores, independentemente do sexo de quem realiza o trabalho. No mundo da moda, por exemplo, é comum que mulheres ganhem muito mais do que homens, pelo simples fato de elas agregarem muito mais valor às marcas, aumentando as vendas substancialmente.

Isso acontece não por uma misandria do mercado da moda, mas pelo comportamento do consumidor desse mercado. Gisele Bündchen, por exemplo, foi responsável pelo esgotamento de peças que usou em um anuncio da C&A em 2002, gerando um aumento de receita de 20% a empresa. Um modelo masculino não tem o mesmo impacto que uma modelo feminina e isso não tem nada de errado. Da mesma maneira, um jogador de futebol ganha muito mais do que uma jogadora, basta comparar os salários de Neymar e Marta. É tentador nos deixar levar pela onda da internet de que a discrepância de seus salários delimita um machismo latente na sociedade, mas a verdade é que o futebol feminino não tem o mesmo número de espectadores e, por esse mesmo motivo, não gera tanta receita em bilheterias e nas campanhas publicitárias.

É bem provável, inclusive, que boa parte das pessoas que reclamam dessa discrepância nunca tenham assistido uma partida de futebol feminino sequer. Outro exemplo, vindo diretamente da Rede Globo, mostra que Faustão ganha o dobro de Fátima Bernardes, que é o salário mais alto da emissora entre as mulheres. Qual a explicação? Faustão tem mais audiência e o horário de seu programa custa mais caro para a publicidade. 20 segundos no meio do “Domingão do Faustão” custam até 20 vezes mais do que durante o programa de Fátima. Em compensação, Fátima ganha mais que o dobro que seu ex-marido, William Bonner.

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Eu trabalho no mercado de capitais há quase 15 anos e, enquanto estava na mesa de operações de uma grande corretora, havia cerca de 5 mulheres e 250 homens. Seria então a empresa machista? Não. As próprias mulheres tendem a não procurar esse tipo de carreira e, novamente, não há nada de errado nisso. Da mesma maneira, as mulheres são maioria nos cursos de nutrição, letras ou enfermagem, que geralmente pagam menos que o mercado financeiro. Cada carreira tem seu próprio mercado.

A empresa americana Korn Ferry criou um índice que compara os salários por gênero em 777 companhias americanas, com 1.3 milhão de empregados no total. A comparação geral mostra que a diferença salarial entre homens e mulheres é de 17,6%, mas quando homens e mulheres são comparados no mesmo nível de emprego em empresas diferentes, a diferença entre é de 7%.

Quando a comparação é feita no mesmo nível de emprego e na mesma empresa, a diferença cai para 2.6% e quando homens e mulheres são comparados estando exatamente na mesma função e na mesma empresa, cai para 0,9%. Isso mostra que, sim, existe uma pequena diferença não explicada por produtividade e agregação de valor entre homens e mulheres, mas não chega nem perto do que é anunciado por aí. Não existe um estudo como esse no Brasil, mas não há nada que me faça acreditar num resultado muito diferente desse.

A atual legislação trabalhista já prevê ilegalidade no pagamento diferenciado entre sexos, se tiverem o mesmo cargo e experiência, então como é que o governo federal poderia interferir ainda mais nessas relações para tentar reduzir o gap salarial? É também importante destacar que cada indivíduo é único e agrega valor a empresa que trabalha de forma diferente, devendo ser recompensado (ou não) livremente pelo seu empregador.

Na minha interpretação de economista liberal, é importante que os contratos de trabalho sejam flexibilizados de várias formas, já que será impossível termos melhora do nível de desemprego e de salários fazendo as mesmas coisas que fazemos há décadas, com uma legislação atrasada e que não tem nenhuma semelhança com os países desenvolvidos.

O problema então, não é o machismo das empresas, mas a menor procura do público feminino por carreiras que pagam mais. Estimular carreiras em ciências, finanças e tecnologia poderia ser um caminho, mas não necessariamente é a falta de estímulo que faz a mulher escolher outro tipo de carreira. Mulheres e homens tem as mesmas capacidades, mas a carreira é uma escolha absolutamente pessoal. Prezo sempre pela supremacia do indivíduo, que deve escolher por si que caminho trilhar pessoal ou profissionalmente.

Mitos existem para serem derrubados e a diferença salarial entre homens e mulheres é fruto de uma histeria coletiva onde não se importam tanto com a verdade, mas com o efeito político que certas ações e discursos promovem. Quero ver cada vez mais mulheres em posições de comando, chefiando grandes empresas e também na política, entretanto, não será através de cotas ou de qualquer intervenção estatal que conseguiremos isso.

Sou mulher, economista e nunca me coloquei em posição inferior. Lutei pelo meu espaço, empreendi num mercado majoritariamente masculino e mostro, todos os dias, que lugar de mulher é sim, onde ela quiser.

Eu te pergunto, Renata Vasconcelos: eu também nunca aceitaria trabalhar numa empresa em que homens ganhassem mais que eu estando na mesma função, com a mesma experiência e, principalmente agregando o mesmo valor à companhia que eu. Se você tem esse livre arbítrio, porque outras não teriam? A mulher que se sentir injustiçada pode e dever entrar na justiça do trabalho. Pode e deve recusar o trabalho. Mais interferência estatal? Não, obrigada.

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Renata Barreto Renata Barreto é economista com especialização em derivativos, atua no mercado de capitais há 15 anos com experiência em trading, advisory e estruturações. Hoje concentra seu trabalho em investimentos e produtos internacionais, além de escrever sobre política e economia.

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