Transformação da IA no Brasil: profissionais estão otimistas, mas enfrentam gap de habilidades e treinamento

A desconexão entre adoção acelerada e desenvolvimento estratégico de competências representa o maior desafio para o RH

Andréa Ziravello Elias

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Publicidade

O Brasil vive um fenômeno único no cenário global de transformação digital. Enquanto 87% dos profissionais latino-americanos esperam um impacto transformacional da inteligência artificial nos próximos cinco anos – número que no Brasil salta para impressionantes 93% – enfrentamos simultaneamente um dos maiores desafios de capacitação profissional da nossa história: 53% dos profissionais da região identificam gaps críticos de habilidades em suas equipes.

Esta dualidade revela tanto oportunidades extraordinárias quanto riscos iminentes para o futuro do trabalho no país. Os dados do relatório Future of Professionals 2025, da Thomson Reuters, mostram que o Brasil não apenas acompanha a tendência global de adoção de IA, mas a lidera em diversos aspectos. Contudo, essa vanguarda tecnológica contrasta com uma realidade preocupante: apenas 15% das organizações possuem uma estratégia clara de IA.

O Paradoxo da liderança brasileira

O protagonismo brasileiro na adoção de IA é inquestionável. Enquanto 38% dos profissionais globalmente esperam mudanças significativas em suas organizações este ano, no Brasil esse número reflete uma urgência ainda maior. Mais revelador é que 32% dos profissionais brasileiros já são usuários regulares de IA, e a projeção indica que até 2030 essa adoção será universal.

Continua depois da publicidade

Esta aceleração não é coincidência. O Brasil demonstra uma postura proativa extraordinária: organizações brasileiras investiram massivamente em tecnologias de IA no último ano, e os profissionais brasileiros lideram globalmente na experimentação com ferramentas de IA. Somos, literalmente, laboratório global de transformação digital.

Contudo, este protagonismo revela um paradoxo alarmante: apesar da alta adoção, a América Latina lidera mundialmente no indicador de gaps de habilidades, com 53% dos profissionais reportando lacunas críticas em suas equipes. Mais preocupante ainda: 67% das organizações brasileiras estão adotando IA sem estratégia clara, criando um ambiente de experimentação desordenada que pode comprometer resultados sustentáveis.

A urgência de treinamentos e estratégia

A desconexão entre adoção acelerada e desenvolvimento estratégico de competências representa o maior desafio de recursos humanos da nossa era. Não basta simplesmente disponibilizar ferramentas de IA; é fundamental desenvolver uma cultura de aprendizado que combine conhecimento técnico com pensamento estratégico.

Continua depois da publicidade

Os profissionais precisam entender não apenas como usar a IA, mas quando, por que e com que objetivos aplicá-la. Isso exige investimento massivo em programas de treinamento estruturados que vão além da capacitação técnica, englobando desenvolvimento de liderança, pensamento crítico e capacidade de adaptação contínua.

Repensando o desenvolvimento de talentos

 Organizações que investem em capacitação estão vendo resultados concretos, enquanto aquelas que não agem se arriscam a que seus talentos naveguem sem rumo com ferramentas genéricas.

 Treinar “como usar” não basta. Precisamos ensinar “quando, por que e para que” usar. Isso significa alinhar casos de uso a objetivos concretos do negócio (tempo de ciclo, acurácia, custo por transação, satisfação do cliente) e medir impacto com disciplina. Formação eficaz combina três elementos: trilhas estruturadas por função, mentoria prática e ambientes de experimentação controlados. Onde essa combinação existe, os resultados aparecem. Profissionais com bom conhecimento em IA têm 2,8 vezes mais probabilidade de gerar benefícios organizacionais, e quem é incentivado a explorar novas formas de trabalhar quase dobra a chance de capturar valo

Continua depois da publicidade

Novos papéis, novas competências

A transformação que vemos no futuro do trabalho produto da IA é dupla: novos postos emergem enquanto os existentes evoluem. Um contador agora precisa entender automação de processos, assim como um advogado deve saber como a IA pode acelerar pesquisas jurídicas e um profissional de compliance precisa dominar análise preditiva de riscos. As competências atuais evoluem para níveis superiores, enquanto emergem habilidades completamente novas. Mesmo nossas habilidades mais humanas se transformam: a IA se torna o ponto que transforma complexidade em clareza, permitindo que líderes comuniquem com maior impacto.

Os papéis já estão em transformação. Nas áreas financeira e tributária, a IA automatizará reconciliações e sinaliza anomalias; o analista passará a curador de exceções. No jurídico, pesquisa acelera com checagem de fontes e cadeia de custódia; o foco migra para estratégia e negociação. Em compliance, monitoramento preditivo exige explicabilidade de modelos e governança de dados. As habilidades humanas não desaparecem; sobem – e muito- de nível. Comunicação clara, curadoria criteriosa e tomada de decisão informada viram diferenciais.

O futuro depende de escolhas no presente

A IA não vem substituir nossos profissionais, mas sim potencializar seu talento natural e criar novas formas de gerar valor. Os líderes visionários estão transformando suas equipes estrategicamente: combinam experiência tradicional com competências tecnológicas avançadas, criando profissionais capazes de liderar transformações reais em mercados dinâmicos.

Continua depois da publicidade

O Brasil está posicionado para liderar a transformação digital global. Temos a experimentação, temos a adoção, temos o entusiasmo. O que precisamos agora é transformar essa energia em estratégia, essa experimentação em expertise, essa adoção em vantagem competitiva sustentável.

A pergunta não é se a IA transformará nossas profissões, ela já está fazendo isso. Os profissionais já buscam se desenvolver e utilizar a tecnologia ao seu favor. A pergunta é se nossas empresas estão sendo estratégicas em políticas e desenvolvimento de pessoas, não apenas pela competitividade do negócio, mas também pela competitividade dos talentos que definirão o futuro.

Autor avatar
Andréa Ziravello Elias

Head Regional de RH na América Latina e Country Leader para Brasil, baseada em São Paulo