O que é Fair Play Financeiro: para começar a conversa no bar

O Fair Play financeiro NÃO é um sistema de equilíbrio forçado. Não é um modelo “socialista”, que quer deixar todos os clubes iguais

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Dinheiro no futebol
(Shutterstock)

Muito se fala sobre Fair Play Financeiro no futebol, mas a verdade é que poucos entendem exatamente seu funcionamento e o objetivo, gerando com isso enormes confusões e debates que acabam geralmente levando o tema para destinos equivocados. Nesta coluna vamos contar a história do Fair Play Financeiro no mundo, e na medida do possível, quais os caminhos a serem adotados no Brasil.

Fair Play Financeiro não é uma ferramenta nova. A ideia de ter um conjunto de regras e medidas de controle financeiro dos clubes nasce em 1962, na Alemanha, quando da criação da Bundesliga, a liga nacional de clubes. No regulamento da liga constava que todos os clubes participantes deveriam apresentar equilíbrio financeiro em sua atividade, monitorado pela liga através da adoção de índices econômico-financeiros.

O objetivo era garantir que os clubes conseguissem manter uma condição financeira que o permitisse manter pagamentos em dia, seja de atletas, impostos ou outros clubes. Quase 20 anos depois foi a vez da Itália lançar um modelo de controle financeiro dos clubes de futebol, que veio através de uma lei em 1981.

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Após ser adotado pela Holanda em 2003, que criou um modelo bastante robusto e que vai além do controle financeiro, podendo chegar inclusive à intervenção na gestão dos clubes, o conceito de Fair Play Financeiro (Jogo Limpo nas Finanças, em tradução livre) chega ao continente europeu, adota pela UEFA em 2009. Como alguns países tinham seus modelos e outros não, a UEFA decidiu criar um modelo para controlar os clubes em âmbito continental, seguindo regras e sanções únicas, independentes dos países de origem, que mantiveram seus modelos de controle.

Posteriormente outros países passaram a aplicar regras de Fair Play Financeiro, como Chile e Peru, e em breve o Brasil adotará seu modelo.

O que é “equilíbrio financeiro”? Os clubes serão igualados? O objetivo é ter mais competitividade? Calma. Vamos explicar isso.

O QUE É O FAIR PLAY FINANCEIROO QUE NÃO É O FAIR PLAY FINANCEIRO
– Conjunto de regras que busca controlar financeiramente os clubes;

 

– O objetivo desse controle é buscar o equilíbrio financeiro do seu fluxo de caixa, o que em outras palavras significa manter suas contas em dia;

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– Mais simples ainda: “Gastar apenas o que se arrecada”;

 

– Mas também evitar que as dívidas sejam maiores que a capacidade de pagamento e que não haja dinheiro de fora do sistema irrigando artificialmente os clubes;

– Sistema de equilíbrio forçado. Não é um modelo “socialista”, que quer deixar todos os clubes iguais;

 

– Modelo de equilíbrio esportivo. O Fair Play Financeiro busca o equilíbrio individual, fora de campo;

O objetivo dos modelos de Fair Play Financeiro é garantir que os clubes estejam equilibrados, pagando suas contas em dia, e com isso, todo o sistema funciona bem. Quando os clubes gastam além do que podem, atrasam salários, pagamentos a outros clubes, impostos, e isso gera desconfiança na indústria e desequilíbrio em campo. Um dos pilares do crescimento mais acelerado do futebol europeu foi o Fair Play Financeiro, junto com a chegada de acionistas de perfil corporativo aos clubes. Falamos mais sobre isso adiante.

Então, os modelos de Fair Play Financeiro tem as seguintes características e objetivos:

– Controle de Gastos: receitas maiores que custos e despesas;

– Controle de Dinheiro de Fora dos Sistema: evitar que haja enxurrada de dinheiro em um ou dois anos, e depois o responsável vai embora deixando custos e dívidas impagáveis;

– Pagamentos em dia e dívidas equacionadas: não é um problema ter dívida, mas sim ter dívidas maiores que a capacidade de pagamento do clube;

Sempre ouço que “agora que meu time é rico vem todo mundo querer equilibrar as coisas”. Não é isso. O Fair Play Financeiro quer garantir que cada clube gaste o que arrecada, e não fazer com que todos gastem a mesma coisa. Ou então, outra frase comum é “agora que o time A ficou rico, querem impedir os outros de competir”. Ora, mas o que é “competir”? Na visão de quem pensa assim, competir é gastar o que pode e o que não pode, para posteriormente atrasar salários, impostos, outros clubes. Competir não é isso, vide tantos clubes brasileiros que adoram essa política que ludibria o torcedor e o faz acreditar que “nesse ano vai”. Vai nada.

Quer ver um exemplo? O River Plate deve R$ 18 milhões ao São Paulo pela aquisição do atleta Lucas Pratto. O São Paulo está com as finanças no limite, e o não pagamento atrapalha seu fluxo de caixa. Mas uma parte desse dinheiro tem que ir para o Atlético Mineiro, que detém direitos sobre o atleta. E o Atlético Mineiro tem contas a pagar que contava com esse recebimento. Logo, um atraso de um clube na Argentina impacta atletas e pessoas em dois estados brasileiros. É justo com seu time?

Competir é ter a capacidade de ser eficiente com o dinheiro que se arrecada, e ser mais eficiente ainda buscando aumentar o valor que se arrecada. O Fortaleza arrecada bem menos que Cruzeiro, Vasco, Botafogo, mas neste momento ainda pode conquistar uma vaga na Libertadores. Eficiência na construção do elenco, no gasto, no aumento das receitas.

Voltando ao Fair Play Financeiro, a UEFA tem 7 regras assim definidas e avaliadas anualmente, quando da publicação das demonstrações financeiras pelos clubes:

São regras bastante simples, que tratam de controle de gastos (1), controle de dinheiro de fora do sistema (2), atestados de boa saúde financeira (3 e 4), controle de dívidas (5 e 6) e controle de investimentos (7), que é uma forma de avaliar gestão temerária.

Na Itália, Inglaterra e Espanha adota-se modelo semelhante, na Alemanha um pouco mais complexo e na Holanda o sistema contém 10 índices que forma um rating, pois há maior controle. Até porque, lá os clubes podem sofrer intervenção da federação holandesa.

O resultado dessa política desde sua implantação pode ser visto com os seguintes números:

Controle do dinheiro externo

Como comentei num outro artigo, quando falo de ações recentes da Juventus, no modelo de Fair Play Financeiro não adianta um acionista injetar milhões de euros num clube que não se sustenta através de suas receitas. Um clube que fatura € 50 milhões não pode ter custos de € 100 milhões, mesmo que seu acionista coloque dinheiro do bolso. Foi justamente por isso que muitos clubes quebraram nos anos 2000, pois o dinheiro dos acionistas acabou e sobraram custos e dívidas.

Controlar essa movimentação financeira é fundamental para garantir sustentabilidade ao negócio, e para forçar os clubes a buscarem fontes recorrentes de receitas.

Modelo Educativo, mas que também pune

O objetivo de modelos como o Fair Play Financeiro não é punir e acabar com os clubes, mas sim auxiliá-los a buscar o equilíbrio e a sustentabilidade. O modelo da EUFA levou 3 anos para iniciar as punições mais severas. E o conjunto de sanções buscam ajudar os clubes a se equilibrarem, e não servem de punição dura. Aliás, um erro grave e que costuma levar à frustração é esperar que modelos assim rebaixem clubes ou encerrem atividades daqueles que não cumprem as regras. Este tipo de sanção não contribui para a evolução das entidades, e sim para acelerar seu fim. As sanções costumam estar associadas à restrição de contratações de atletas, de registro de atletas e chegam a proibir a presença de clubes em competições continentais, como a Champions League e a Europa League. Todas as sanções tem como características controlar ainda mais os custos, pois ao proibir contratações e registros, obriga-se naturalmente o clube a vender atletas e se evita que continuem gastando em contratações e salários.

Além disso, o modelo não pune à primeira infração, e segue um ritual de ajuda, propondo e monitorando planos de ação para que haja enquadramento dos índices. As punições mais severas tem início quando nem os planos de ação são cumpridos.

E no Brasil?

Bem, no Brasil o modelo está em processo de debates e implantação, e terá características de robustas, com mais índices sendo combinados num modelo de rating, como de agências que avaliam risco de crédito. Dado a complexidade do país, a volatilidade natural da economia, e a situação bastante complicada dos clubes, é necessário usar um modelo mais robusto que busque fechar todas as portas e garanta maior controle. Assim que for implementado voltamos a falar nisso, explicando-o de maneira detalhada para que o torcedor possa entendê-lo e acompanhar seu clube.

Importância do Fair Play Financeiro

Como falei anteriormente, o crescimento do futebol europeu nos últimos 10 anos foi sustentado em dois pilares: (i) clubes geridos de forma profissional e eficiente e (ii) controlados externamente pelo Fair Play Financeiro.

Se a gestão passou a ser capaz de aumentar receitas e transformar clubes de futebol em marcas mundiais, o controle externo das finanças trouxe ao sistema financeiro e mercado de capitais maior segurança em fazer operações de longo prazo com os clubes, uma vez que além da própria avaliação de cada instituição ainda há um controle  monitorável e que implica em penalidades esportivas que incomodam os clubes.

Esta combinação permite que muitos clubes tomem financiamentos de longo prazo para investimentos e para financiar seu fluxo de caixa, em linhas de 5 anos, com taxas bastante aceitáveis. Além disso, surgiram uma série de oportunidades de operações, com risco agora melhor monitorado, que também ajudaram os clubes a se reforçarem, melhorando a indústria como um todo.

Hoje tanto a imprensa quanto os torcedores europeus já tratam o tema com a mesma naturalidade e importância da escalação do seu time para o próximo clássico. Todas as especulações levam em conta os aspectos financeiros, e o torcedor não se ilude com falsas promessas, ao mesmo tempo em que cobrar controles e gestão dos donos das equipes, para evitar punições como a sofrida pelo Mila agora em 2019, proibido de jogar a Europa League 19/20.

Num momento em que se fala em Clube Empresa como solução para o futebol brasileiro, o Fair Play Financeiro é uma forma eficiente de ajudar as associações a se ajustarem, ao mesmo tempo que permitirá controles próximos da saúde dos clubes que virarem empresa. Inclusive porque os dirigentes terão o argumento justo ao dizer que não podem abrir mão do controle financeiro em troca de contratações e gastos que hoje não revertem em desempenho, e sim em aumento das dificuldades.

Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real

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