Novo Fair Play Financeiro da Uefa: o que está por trás da notícia

O novo modelo está baseado na palavra “sustentabilidade”: bonita e necessária, mas complexa de ser alcançada

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Torcedor é retirado de campo após gol do Arsenal contra o Wolverhampton, no Campeonato Inglês (Shaun Botterill/Getty Images)

Um dos pilares do desenvolvimento do futebol e da busca por maior sustentabilidade da indústria é o sistema de controle financeiro. O chamado Fair Play Financeiro é um mecanismo comum e aplicado de forma organizada há anos em muitos países.

Você já leu em algumas colunas, mas não custa lembrar, que o primeiro sistema de controle financeiro nasceu com a criação da Bundesliga, que desde 1962 trabalha para tentar evitar que seus clubes tenham problemas financeiros.

Depois vieram a Itália, Espanha e Portugal. A Inglaterra foi das últimas a aplicar o conceito na Europa e até na América do Sul passamos a ver controles semelhantes, como na Colômbia, Chile e Argentina. O Brasil, apesar da construção na qual venho trabalhando há quatro anos, ainda não conseguiu aplicá-lo.

Nem todo mundo sabe que os países controlam seus clubes, mas a maioria dos torcedores que ouviu falar sobre o tema conhece o modelo da Uefa. A confederação europeia adota seu sistema de controle externo dos clubes desde 2009 e sua aplicação se dá sobre os clubes que disputam as competições continentais. Ou seja, apenas sobre a elite, que tem aumentado ao longo dos anos.

Importante lembrar que na Europa temos atualmente três competições continentais – Champions League, Europa League e Conference League – o que aumentou a quantidade de clubes controlados pela entidade.

Ainda antes da pandemia, a Uefa pensava em alterações relevantes no seu sistema de Fair Play Financeiro, que já apresentava sinais de fragilidade nos controles, com demora nas avaliações e sanções que demoravam a ser aplicadas.

Com a pandemia, a entidade suspendeu sua aplicação e utilizou esse período para testar alternativas e desenvolver um novo sistema, mais próximo das necessidades de uma indústria que precisa de rédeas curtas para não entrar em colapso.

Não se engane: futebol é igual em qualquer lugar do planeta. Geridos por dirigentes políticos ou donos endinheirados, os clubes sempre terão como meta a conquista, que pode ser de um título, uma posição melhor na tabela ou a permanência da principal divisão do país. Isso se reflete em gastos muitas vezes acima da capacidade de pagamento dos clubes. Logo, eles viram problema e se não houver quem tente evitá-los, temos o caos.

Nesta semana, o jornal The New York Times divulgou algumas informações preliminares sobre o novo sistema de fair play financeiro que a Uefa vai apresentar no dia 7 de abril.

Com alguns contatos, pude conhecer ideias adicionais e as avaliarei para tentarmos entender os impactos no esporte, inclusive no Brasil. Há muitos pontos que precisam ser ligados neste momento.

O novo modelo está baseado na palavra “sustentabilidade”. Bonita, necessária, mas complexa de ser alcançada. Os principais pilares técnicos serão os seguintes:

Solvência: os clubes precisarão estar com seus pagamentos em dia. Salários, agentes, dívidas com outros clubes, fornecedores. Trimestralmente, os clubes precisam reportar seu status de pagamentos, de forma que qualquer atraso precisará ser sanado em até três meses.

Se o clube não regularizar a situação, ele será sancionado no próprio período, uma diferença em relação ao sistema anterior, que fazia avaliação posterior, após a temporada. Agora, se um clube contrata um atleta e não paga, pode ser excluído da competição em andamento.

Estabilidade: esta é a regra de controle de prejuízo. Antes, o clube poderia ter prejuízo de € 30 milhões no acumulado de três anos, que poderia ser coberto por aporte de capital do acionista. Para o cálculo, excluíam-se os gastos com categorias de base, infraestrutura e futebol feminino. Agora, a regra permite prejuízo acumulado de € 60 milhões, mas considerando todas as despesas.

Outra regra é a do Patrimônio Líquido. Se ele for negativo, ele precisa ser coberto na proporção de 10% por ano.

Controle de Custos: esta é a grande mudança. Se, anteriormente, dizia-se “gaste o que arrecada”, agora a lógica é “gaste uma parte do que arrecada”. O controle será feito considerando que os gastos com salários, comissões de agentes e amortizações de contratações não podem ser superiores a 70% das receitas totais.

Importante explicar a amortização: quando se contrata um atleta por 100 com um contrato de 5 anos, o clube precisa amortizar 20% ao ano, ou seja, lançar como uma espécie de despesa o equivalente a 20 da contratação indicada. Se a contratação for de 50, a amortização é de 10, e assim segue.

Vamos fazer um exercício do impacto dessa regra.

No exemplo acima, temos o caso do Arsenal. Usamos os dados de 2020 como referência para calcular os impactos da nova regra.

No “Realizado” temos os dados como publicados, ou seja, Receitas de € 444 milhões, gastos com folha salarial de € 260 milhões e Amortização de € 121 milhões, o que dá Gastos Totais de € 354 milhões, ou 86% das Receitas.

Pois bem, se fizermos um primeiro ajuste levando a Amortização à média dos últimos quatro anos, ainda assim a relação entre gastos e receitas ficaria em 80%. Ou seja, precisa de correção.

Mantendo a amortização e ajustando os salários significa reduzir a folha em € 43 milhões anuais, reduzindo capacidade competitiva. Se mantiver a folha e reduzir a amortização, significa reduzir investimentos em contratações, também impactando capacidade competitiva. Menor amortização significa menos atletas contratados ou valores menores.

Agora faremos o mesmo exercício com a Atalanta.

Mesmos conceitos e a “Dea” atingiu em 2020 a relação de 47% entre gastos e receitas. Ou seja, tem espaço para fazer mais.

No primeiro exercício, ela poderia aumentar em € 60 milhões anuais sua folha, caso mantivesse a média de amortização dos últimos quatro anos. Veja o tamanho do impacto positivo.

Agora, se ela resolvesse contratar mais e aumentasse 47% sua amortização, para € 50 milhões, ainda assim poderia ter uma folha de € 118 milhões, ou € 44 milhões além do que realizou em 2020.

Note, portanto, que a nova regra tende a beneficiar aqueles clubes que operam com salários mais controlados, mas essencialmente aqueles mais eficientes na gestão do elenco, que gastam pouco nas contratações, gerando menor montante de amortizações.

Ao contrário do que alguns poderiam supor, limitar os gastos a 70% das receitas, incluindo a amortização, tende a frear contratações desnecessárias e vai demandar maior rigor dos clubes em relação à condição financeira.

Impactos das novas regras: Fair Play Financeiro e mais

Não é apenas o novo sistema de fair play financeiro da Uefa que vai trazer mudanças no futebol.

Precisamos lembrar que a Fifa alterou as regras de empréstimos de atletas, de forma que os clubes terão um limite máximo de oito atletas emprestados por temporada, em empréstimos de, no mínimo, um ano. Esse limite cai para sete na próxima temporada e finaliza em seis em 2023. O número de empréstimos para um mesmo clube fica também limitado a três jogadores.

Essas regras valem para atletas acima de 21 anos e que não tenham sido revelados nas categorias de base do clube.

Se combinarmos essas duas iniciativas, teremos alguns impactos relevantes na indústria nos próximos anos, reforçando alguns pontos que já temos visto:

– Os clubes tendem a contratar atletas cada vez mais jovens, para que possam emprestá-los na fase final de formação;

– Ao mesmo tempo, dados os limites de amortização, os valores tendem a reduzir à medida em que impactam limites de gastos quando amortizados;

– Gastos com agentes tendem a diminuir, pois também impactam as metas de gastos;

– Haverá cada vez mais o incentivo a formar, mas também maior cuidado nas contratações, o que tende a reduzir o tamanho do mercado de negociações e aumentar a quantidade de casos de atletas que cumprirão seus contratos e sairão “de graça”;

– Aumentará a necessidade de pensar o futebol sob o conceito de Multiclub Ownership, ou seja, a eficiência está em ter mais de um clube para “girar” atletas, buscando alocá-los de forma a suprir necessidades técnicas com custos menores;

Ou seja, estamos efetivamente entrando numa nova fase do futebol enquanto negócio. Não cabe mais uma visão isolada, pois os movimentos são circulares e afetam toda a cadeia.

Para isso, é mandatório que os clubes tenham capacidade de gestão, visão de longo prazo e conhecimento amplo de mercado, fazendo-os entender o negócio além da manchete caça-cliques, seja qual for seu modelo de controle acionário.

Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real. Twitter: @cesargrafietti