Focus é o sintoma, não a causa

Copom deve parar processo de queda da Selic em junho não por causa do Focus, mas porque seus técnicos devem estar vendo a mesma coisa que os analistas que respondem à pesquisa
Por  Caio Megale -
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Nas últimas semanas, a pesquisa Focus do Banco Central do Brasil (BCB), feita com economistas de instituições privadas, ficou em evidência. O aumento da expectativa de inflação para 2025 e 2026 capturada pela sondagem pode levar o Comitê de Política Monetária (Copom) a interromper o ciclo de corte de juros. Segundo algumas análises, isso representaria um movimento orquestrado dos economistas privados, não respaldado na realidade, feito com o intuito de forçar a autoridade monetária a manter as taxas de juros elevadas.

Está análise é desfocada, em minha visão. Entendo que o Copom provavelmente fará uma pausa no processo de redução de juros na reunião de junho não por causa do resultado do Focus, mas porque seus técnicos devem estar vendo a mesma coisa que os analistas que respondem à pesquisa estão: existe uma chance considerável da inflação no ano que vem ficar acima da inflação deste ano que, por sua vez, já está acima da meta de 3,0%.

A pesquisa Focus foi estabelecida pelo BCB junto com a implementação do regime de metas de inflação em 1999, com objetivo de coletar a expectativa dos agentes privados sobre a perspectiva da economia brasileira. Expectativas são um elemento importante no regime de metas. Se o regime tiver credibilidade, as expectativas estarão em torno da meta, o que faz com que a inflação que efetivamente acontecerá também fique próxima à meta – os agentes remarcarão seus preços usando a meta como uma referência. Expectativas ancoradas à meta facilita o trabalho do BC, reduzindo o custo à sociedade.

Desta forma, expectativas acima da meta de fato ensejam uma resposta de política monetária. Mas elas de fato estão subindo sem respaldo na realidade?

Entendo que não. A teoria e prática do ofício de projeções econômicas sugere que a inflação tende a subir quando: i) os custos de produção de bens e serviços se eleva; ii) a demanda interna, turbinada pela expansão de gastos públicos e/ou aquecimento do mercado de trabalho, é forte o suficiente para absorver elevações de preços resultantes da alta de custos e compressão de margens.

Estes fatores parecem estar presentes na conjuntura econômica brasileira.

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Os custos de produção estão se elevando. Em primeiro, os preços internacionais de insumos (commodities) subiram entre 10% e 25% este ano, quando medidos em reais. Esta dinâmica é resultado tanto da alta nos preços em dólares quanto da depreciação do câmbio. Esta tendência já vem sendo capturada pelo índice de preços no atacado da FGV. Em segundo, as medidas de redução de benefícios tributários às empresas, ainda que pertinentes em alguns casos, aumenta o custo final de seus produtos. Em terceiro, os indicadores do mercado de trabalho sugerem que salários engataram uma tendência clara de aceleração a partir do terceiro trimestre no ano passado. Uma boa notícia, mas que também significa custos de produção mais elevados.

Do lado da demanda, os dados do PIB mostram o consumo das famílias em firme ritmo de crescimento. Nossas medidas de renda disponível, que incluem as transferências governamentais e ganhos do mercado de trabalho, sugerem que esta tendência continuará nos próximos trimestres. Terreno fértil para que a alta de custos descrita acima se traduza em alta de preços aos consumidores.

Caio Megale é economista-chefe da XP Inc. (XPBR31)

Caio Megale Economista-chefe da XP Investimentos. Foi secretário de Desenvolvimento da Indústria e Comércio e Diretor de Programas no Ministério da Economia entre 2019 e 2020. Antes, foi Secretário Municipal da Fazenda de São Paulo de janeiro de 2017 a dezembro de 2018. No mesmo período, foi vice-presidente da Associação Brasileira de Secretários de Finanças das Capitais (ABRASF). Entre 2011 e 2016, foi associado do Itaú Unibanco e um dos responsáveis pela equipe de economistas do banco. Anteriormente, foi economista do Lloyds Asset Management, da Máxima Asset Management e da Gávea Investimentos. Em 2005, participou da fundação da Mauá Investimentos, da qual foi sócio e economista chefe até 2010

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