Bolso e alma

De que forma você responderia essa intrigante pergunta feita por Sócrates: "Você não tem vergonha de se preocupar tanto com dinheiro, fama e prestígio, quando não se importa com a sabedoria, verdade e evolução da sua alma?" Por incrível que pareça, um estilo de vida baseado em valores humanos reais, como os citados por Sócrates, é fundamental para que se tenha uma vida feliz e, consequentemente, um bolso reforçado.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Tem aumentado o número de estudos a respeito da relação entre dinheiro e felicidade. Alguns estudos tem comprovado o que filósofos falam há mais de 2 milênios. Veja o filósofo grego Sócrates: “Oh Deus, (…) permita que eu seja bonito internamente. Deixe que todas minhas posses externas estejam em harmonia com o que está dentro. Que eu possa considerar o homem sábio rico. Quanto ao ouro, deixe me ter tanto quanto um homem moderado consiga aguentar e carregar consigo.”

Diversos estudos tem apontado que de fato existe relação entre sensação de felicidade e dinheiro. Países com renda média superior tendem a ter cidadãos mais felizes. Mas o economista Richard Easterlin ficou conhecido por apontar um paradoxo: a relação entre dinheiro em felicidade é nítida até certo ponto, enquanto o dinheiro é essencial para necessidades mais básicas. Mas depois desse ponto, essa relação torna-se fraca ou até inexistente. Como explicar esse paradoxo?

A explicação seria que individualmente a sensação de felicidade entre pessoas varia não de acordo com o nível de renda, mas de acordo com o nível de renda individual em relação às outras pessoas. Exemplo: a sensação de felicidade de um cidadão depende também de sua renda em relação às pessoas do seu círculo de convivência (colegas, amigos, vizinhos).

Um grande pensador da psicologia, Albert Bandura, explica bem essa questão: “a realização pessoal é julgada por critérios socialmente mal definidos, de modo que um tem que se basear em outros para saber se está se realizando.” Veja que Bandura é enfático ao dizer que os critérios são “socialmente mal definidos”.

Veja a questão nas próprias palavras de Easterlin: “Cada um de nós tem apenas uma quantia fixa de tempo para vida em família, atividades saudáveis e trabalho. Será que distribuímos nosso tempo da maneira que maximiza a nossa satisfação? A resposta, creio eu, é que não. Nós decidimos como usar nosso tempo baseados em uma ‘ilusão do dinheiro’, a crença de que mais dinheiro nos fará mais felizes, deixando de prever que, em se tratando de condições materiais, a norma interna em que nosso parâmetro de bem-estar se baseia depende não apenas da nossa renda, mas da renda de outros também.  Por causa da ilusão de dinheiro, nós alocamos uma quantidade excessiva de tempo para objetivos monetários, e diminuímos os fins não pecuniários, como vida em família e saúde”.

Por meio da psicologia moderna, hoje se sabe que sentir-se mais rico que outros pode até gerar sensação de felicidade no momento, mas uma vida plena depende de outras questões. Depende, sobretudo, de autoestima baseada em valores internos e relações afetivas verdadeiras, e não baseadas exclusivamente em posses materiais. Ou seja, não é porque a Hipótese de Easterlin existe que você precisa viver sob sua ditadura.

Como diria Sócrates: “Você não tem vergonha de se preocupar tanto com dinheiro, fama e prestígio, quando não se importa com a sabedoria, verdade e evolução da sua alma?”

Quando o assunto é vida, bolso e alma devem andar juntos. Uma alma rica é capaz de não se apegar tanto a bens materiais, na verdade, torna-se até mais produtiva e criativa no trabalho, na maioria das vezes atraindo grandes riquezas mesmo sem tê-las como objetivo final. É o caso de grandes empreendedores como Bill Gates, que ao se concentrarem naquilo que gostam, em sua vocação, acabam construindo grandes fortunas.

Acima de tudo, uma alma rica é capaz de evitar tentações como consumismo e imediatismo, tornando-se capaz de guardar dinheiro, fazer investimentos e tomar decisões financeiras que constroem um futuro próspero e confortável.

Wilson Marchionatti