São Pedro, Alckmin ou Dilma? Para deputado baiano, seca em SP tem outro culpado

Pastor Sargento Isidório, do PSC, atribui a seca em São Paulo ao fato da cidade sediar a maior Parada Gay do mundo; o deputado eleito na Bahia se intitula "ex-homossexual"

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SÃO PAULO – A seca em São Paulo é uma situação que tem afligido milhões de pessoas desde o começo do ano e cada instância do governo atribui a culpa outra, quase que como uma brincadeira de “batata quente”. A União diz que o problema é do governador Geraldo Alckmin (PSDB), enquanto Alckmin culpa a falta de repasses do governo de Dilma Rousseff (PT). De vez em quando, ambos colocam a responsabilidade na conta de “São Pedro”, padroeiro da chuva. Mas se culpar o pobre santo já parecia um tanto fantasioso, um deputado estadual bastante popular da Bahia foi além e achou o verdadeiro “culpado”: a Parada Gay.

O político em questão é Pastor Sargento Isidório, o segundo pastor mais votado da Bahia e do mesmo PSC dos pastores Marco Feliciano e Everaldo. Ele gravou um vídeo de 3 minutos (veja ao final da matéria) no qual faz a defesa de que a Maior Parada Gay da América Latina tem culpa na falta de chuva no estado mais rico do País. Um detalhe importante sobre ele: Isidório se autointitula “ex-homossexual”.

 Depois de dançar freneticamente com um guarda-chuva e cantar o refrão de “Chove chuva” de Jorge Ben Jor,  o deputado conclama os “homens de deus” em todo o país a orar para acabar com a seca por meio da “conversão” dos homossexuais. Ele diz que a falta de água no sistema Cantareira é uma praga de Deus para punir “a praga da homossexualidade”. “O livro de Reis 8, 35 e 36 diz o seguinte: quando os céus se cerrarem, e não houver chuva porque o povo pecaram [sic], aí estou falando da grande Parada Gay que se dá em São Paulo. A maior parada gay do mundo está ali dentro de São Paulo. Mas todo paulista é gay? Claro que não! Então, ali tem homens mulheres de Deus […], que não praticam o mesmo pecado da homossexualidade. Portanto, a Bíblia diz se esse povo se converter do seus pecados, se esse povo confessar, Deus perdoará e abrirá a chuva na terra”, afirmou.

Políticos conhecidos por terem ganhado notoriedade depois de condenar publicamente o comportamento dos homossexuais e se postarem como os candidatos do eleitorado conservador são cada vez mais abundantes no cenário eleitoral brasileiro. Aparentemente, a estratégia tem dado certo: além de Sargento Isidório e Feliciano, Jair Bolsonaro (PP), que também se diz contrário aos direitos das pessoas não-heterossexuais, conseguiu se eleger deputados com uma das maiores votações do País, além de ter ajudado seus filhos Flávio e Eduardo para Câmaras Federais e Estaduais com esse discurso.

Esse cenário é mais desanimador do que animador. Por um lado, existe uma parcela da sociedade que se sente representada por esse tipo de político – e como a democracia preza pelo interesse da maioria, a escolha destes políticos é extremamente legítima. No entanto, acreditar que a ausência de precipitação na região Sudeste do Brasil é motivada por uma mobilização de um grupo da sociedade brasileira é no mínimo precipitado – com o perdão do homônimo. Não existe problema na fé as respostas para os nossos anseios e problemas. Mas será que aqueles que elegemos pela maioria de votos não deveria se preocupar em trazer soluções “terrenas” para a falta de água ao invés de evocar a palavra de Deus? É o mínimo que se deveria esperar de um país constitucionalmente laico.

Equipe InfoMoney

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