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Quatro décadas perdidas de crescimento econômico

A perda de dinamismo econômico do Brasil é um fenômeno mais antigo do que imaginamos

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Brasil em queda/crise (Foto: Getty Images)
Brasil em queda/crise (Foto: Getty Images)

A recessão de 2015 e 2016 ( -3,8% e -3,3%), seguida do baixo crescimento em 2017, 2018 e 2019 deram a sensação de que havia algo errado com a economia brasileira. Principalmente quando comparada a um mundo que cresceu significativamente mais nesse mesmo período.

Como a pandemia da Covid-19 e a recessão global são fenômenos atípicos que atingiram fortemente a todos em 2020, vale a pena analisar que os limites do crescimento econômico no Brasil há muito tempo são explicados pelos nossos próprios erros e não por eventuais crises mundiais.

Desde o início da década de 80 o Brasil foi perdendo dinamismo econômico, crescendo menos que a média da economia global. Depois de um crescimento acelerado em grande parte do século XX, onde a participação da economia brasileira saiu de pouco mais de 0,5% no PIB mundial para mais de 3%, as últimas 4 décadas presenciaram uma forte retração dessa participação.

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O gráfico abaixo, com projeções pré Covid-19 para 2020, mostram a tendência de perda contínua de participação do PIB brasileiro no PIB global entre 1980 e 2019.

Por que passamos a crescer menos a partir década de 70?

Uma comparação simplista seria dizer que fizemos tudo certo em termos de política econômica até o final da década de 70, mas o fato é que o modelo de crescimento de uma economia fechada, baseada em substituição de importações e com baixo nível de poupança doméstico, já mostrava seus limites na década de 70.

A opção de manter o modelo mesmo depois do primeiro choque do petróleo em 1973 levou à crise da dívida externa no final da década de 70. Sem conseguir recuperar os altos níveis de investimento das décadas anteriores, o Brasil precisaria aumentar acentuadamente a produtividade da sua economia.

A história de lá para cá é o contrário do que precisaríamos ter feito: ficamos com uma produtividade por trabalhador estagnada. E não foi só a década de 80, carimbada como “a década perdida”, onde crescemos menos que o mundo. Todas as 4 décadas até aqui foram marcadas por enormes dificuldades da economia brasileira em acompanhar o ritmo de crescimento da economia global.

As décadas de 80 e 90 praticamente foram perdidas com as inúmeras tentativas de estabilização de uma inflação que destruiu o horizonte de investimentos de longo prazo na economia e concentrou brutalmente a renda. Após o sucesso do Plano Real ainda tivemos que passar muitos anos enfrentando o crônico desequilíbrio fiscal do Estado brasileiro, sempre com equilíbrios temporários baseados em aumento adicional de carga tributária.

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Paralelamente a essas tentativas temporárias de ajustes de um Estado que não cabe nele mesmo, década após década, e até os dias atuais, fomos sendo incapazes de implementar uma agenda pró aumento da produtividade: melhoria da qualidade da educação, sistema tributário mais moderno, privatizações, melhoria do ambiente regulatório para investimentos em infraestrutura, abertura econômica, etc.

O resultado desta agenda pró produtividade perdida foi a estagnação da produtividade por trabalhador desde a década de 80. O nosso crescimento do PIB só não foi menor por conta do bônus demográfico nas décadas recentes e pelo boom das commodities nos anos 2000. Nenhum desses dois fatores ligados ao nosso esforço de geração de um ambiente econômico mais favorável ao crescimento econômico.

O gráfico abaixo mostra que em nenhuma década desde 1980 conseguimos ficar acima da média do crescimento econômico mundial. E na última década, entre 180 países, crescemos menos do que 90% de todos os países comparados.

Crescer mais exigirá um choque de produtividade na economia

A urgência para aumentar a produtividade da economia brasileira será ainda maior daqui para frente. A razão é simples e incontestável: o fim do bônus demográfico no Brasil, aquela janela única onde o país vê crescer progressivamente a proporção da sua força de trabalho em relação ao total de sua população.

De 2000 a 2019 tivemos uma taxa de crescimento econômico próxima a 2,2% a.a. Quando decompomos essa taxa de crescimento em horas trabalhadas e a produtividade total dos fatores, veremos que 1,7 pontos percentuais do crescimento médio vieram do aumento da força de trabalho e o restante 0,5 ponto percentual veio do aumento da produtividade total (não confundir com a produtividade por trabalhador).

Olhando para as atuais projeções demográficas (entre outras projeções econômicas, provavelmente as mais estáveis que temos), podemos estimar que aquele crescimento médio de 1,7% do PIB, oriundo do aumento da força de trabalho, deve cair para algo próximo a 0,5% na atual década. E para zero a partir do final desta década.

O que isto significa em termos do crescimento do nosso produto potencial? Numa conta simples significa que se quisermos crescer o que crescemos nas duas últimas décadas, o mesmo crescimento que nos deixou bem abaixo da média mundial, teremos que triplicar o crescimento da produtividade nos próximos dez anos. Isso mesmo. E teremos que quadruplicar o crescimento da produtividade total da economia a partir do final desta década.

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E se quisermos voltar a crescer mais do que a média do crescimento mundial, com o fim do nosso bônus demográfico? Então teremos que multiplicar o crescimento da produtividade provavelmente por algum fator acima de 10!

O cenário acima não parece muito animador em relação ao que fizemos em termos de reformas pró produtividade nos últimos 40 anos. Mas como sempre gosto de olhar o copo meio cheio, prefiro pensar numa outra perspectiva. Quarenta anos de atraso numa agenda liberal de reformas de aumento da produtividade na economia significam um oceano de oportunidades sobre o que ainda podemos fazer.

Pensem na agenda perdida, comentada acima, que incluem ações que vão desde uma educação de qualidade até a abertura econômica que nos faça deixar de ser um dos países mais fechados do mundo. Em quase todos os temas de produtividade que olhamos, há enorme espaço de melhora. Uma melhora que muitos países que cresceram mais do que o Brasil já fizeram nas últimas décadas.

O Brasil terá um enorme desafio para crescer mais com o fim do bônus demográfico. Para vencer esse desafio temos que aprender com o resto do mundo, implementar reformas que sempre adiamos e dar um choque de produtividade na economia.

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Aod Cunha

Economista. É conselheiro de administração de empresas como Gerdau, Grupo Vibra, Agibank e Atiaia Energia (Grupo Cornélio Brennand) e membro independente de comitês de investimentos. Foi sócio do Banco BTG Pactual e managing director do JP Morgan. Entre 2007 e 2009 foi secretario da fazenda do Estado do Rio Grande do Sul e presidente do conselho de administração do Banrisul. É professor do curso de pós graduação em Finanças, Investimentos e Banking da PUCRS

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