Em coelce

De trade seguro para queda de 15%; o que aconteceu com a Coelce na Bolsa?

Enersis teve sucesso na realização da OPA, mas não conseguiu comprar a totalidade das ações da empresa cearense; o que o acionista deve fazer com os papéis que sobraram?

SÃO PAULO - Quem acompanhou a Bolsa nos últimos dias tem percebido que as ações do setor elétrico tem ganhado notoriedade no noticiário, diante dos temores de que o Brasil precise passar por um racionamento de energia. Contudo, uma destas empresas teve destaque por motivos diferentes mas, assim como o risco de "apagão", nada favoráveis para seus acionistas: a Coelce.

No dia 13 de janeiro, a holding chilena Enersis anunciou que faria uma OPA (Oferta Pública de Aquisição) pelas ações da da companhia cearense de energia, objetivando comprar até a totalidade dos papéis ordinários (COCE3) e preferenciais classe A (COCE5) e B (COCE6) ao preço de R$ 49,00 por cada unidade - fato que naturalmente fez os papéis da Coelce dispararem para próximo deste valor na Bovespa, permanecendo por lá até a data do leilão, que ocorreu na última segunda-feira (17). O leilão para compra das ações foi realizado às 16h com sucesso; no entanto, o que vimos logo após o término da OPA foi uma derrocada no preço dos papéis preferenciais classe A da Coelce - que possuem maior liquidez na Bovespa. Nos minutos restantes do pregão, as ações COCE5 desabaram para R$ 39,01, queda 14,83% em relação ao fechamento anterior.

Mas o que tornou esse "trade" tão seguro na Bovespa - já que o acionista de Coelce contava com o recebimento destes R$ 49,00 por cada papel que ele tinha da empresa - em um dos principais destaques de queda da bolsa brasileira nesta semana, mesmo com a Enersis tendo realizado com sucesso a OPA? Embora a queda tenha pego de surpresa muito investidor na bolsa, a explicação já estava presente no próprio edital do leilão.

A explicação está nos "terços"
Segundo o documento, a Enersis se comprometeria a comprar todas as ações de uma classe da Coelce se tivesse a adesão de pelo menos dois terços dos acionistas; caso essa adesão ficasse entre um terço e dois terços, seria realizado um rateio proporcional para a compra das ações. Este segundo cenário foi o que aconteceu com os papéis COCE5.

No leilão, pouco menos de dois terços dos acionistas aceitaram a oferta da Enersis, o que levou a um rateio de 53%, ou seja, os acionistas que aceitaram a proposta acabaram vendendo pouco mais da metade das ações que colocaram para venda no leilão. A companhia chilena adquiriu 8.818.006 de papéis preferenciais classe A da Coelce, o que representa 31,21% do total de ações desta classe emitidas pela empresa cearense. Com isso, restam ainda no mercado 19.435.778 de ativos COCE5.

"Sem a venda de todas as ações, a tendência era que os ativos voltassem para os preços de antes do anúncio", afirma o gestor da Edge Investimentos, Bernardo Dantas, que possui ações da Coelce desde 2009 em seus fundos. Ele afirma que participou do rateio, mas que chegou a colocar todas as suas ações a venda no leilão.

Ações não estão mais "blindadas"
Se no último mês as ações oscilaram próximas do patamar oferecido pela Enersis, apenas aguardando a conclusão da OPA, com o fim do leilão esses papéis perderam a "proteção" que tinham contra quedas e voltaram para os patamares de antes do anúncio do leilão. É neste momento em que o agitado noticiário do setor elétrico começa a atingir a companhia, com os temores de apagão e racionamento de energia pressionando os papéis, assim como vem acontecendo com todo o setor.

Além disso, alguns investidores que compraram as ações apenas para aproveitarem o retorno do preço oferecido para a OPA tiveram que vender seus papéis após o rateio, alimentando fortemente a ponta vendedora e ajudando a derrubar os preços das ações.

Ações ordinárias
Diferente dos papéis classe A, a Enersis conseguiu adquirir mais de dois terços das ações ordinárias da Coelce. Foram 2.964.650 de ativos desta classe comprados no leilão, o que levou a companhia chilena a deter, direta e indiretamente, 97,84% do capital votante da empresa cearense.

Com mais de dois terços de ações ordinárias, a Enersis agora fica obrigada a comprar o resto dos papéis desta classe em circulação em um prazo de 90 dias, contados a partir de 17 de fevereiro. Neste período, os acionistas que têm ações ordinárias e que não aderiram a à oferta pública poderão vender sua participação ao preço de R$ 49 por ação (preço final obtido no leilão), atualizado pela variação da taxa Selic e ajustado pela distribuição de dividendos. A Enersis já confirmou que irá ampliar sua oferta com o intuito de adquirir as ações ordinárias remanescentes.

Prêmio pelas ações poderia ser maior
Especialistas já apontavam que o prêmio oferecido pelas ações da Coelce poderia não ser o melhor. Segundo afirmaram os gestores da Edge no último mês, a companhia cearense tinha potencial para conseguir superar o patamar dos R$ 49,00 oferecidos pela Enersis.

A Coelce, nos últimos anos, tem sido considerada uma das melhores empresas do setor de distribuição de energia, ganhando diversos prêmios por sua gestão. Outro fator que ajuda a companhia, em um setor onde a intervenção do governo tem gerado temores para o mercado, é o fato de suas concessões não precisarem ser renovadas agora, já que elas só vencem em 2028.

Em meio a tudo isso, os papéis da companhia eram vistos como desvalorizados em 2013, dado que alguns eventos não-recorrentes impactaram os balanços da empresa, principalmente no terceiro trimestre, o que criou uma ilusão de que a empresa poderia não estar em um bom momento. "Em meio a tudo isso, surgiu o momento perfeito para a Enersis anunciar a sua OPA, já que as ações estavam a um preço baixo", afirmaram os gestores da Edge, Bernardo Dantas e Alexandre Martins, em janeiro.

O que fazer então com as ações da Coelce?
Mesmo com a forte queda após o leilão, quem possui ações da Coelce e não as vendeu no leilão não precisa se preocupar. É o que acredita o gestor da Edge, que explica que o case positivo da companhia não mudou em nada. Para ele, a empresa ainda tem bons fundamentos e tem grande potencial para subir.

Porém, ele ressalta que o que deve acontecer agora é que os papéis devem perder bastante a liquidez e ter um volume reduzido, já que agora a quantidade de ações no mercado são bem menores. Dantas afirma que confia no potencial de alta da Coelce e que não pretende se desfazer dos papéis remanescentes do leilão da OPA.

 

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