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Stone vale o dobro da Cielo na Bolsa: o que isso significa?

O preço da ação da empresa, que tem apenas 2% de participação de mercado, reflete seu potencial, diz especialista; resultados preliminares do trimestre mostram crescimento consistente  

Stone
(Divulgação)

SÃO PAULO – Com apenas 6% de market share, a empresa de meios de pagamento Stone já tem um valor de mercado que corresponde a praticamente o dobro da gigante Cielo, sua concorrente (que tem nas mãos 38,3% de participação no mercado). Conforme o preço de fechamento da terça-feira (2), o valor da Stone na bolsa norte-americana está em US$ 11,2 bilhões. A Cielo, segundo a B3, vale atualmente US$ 6,61 bilhões.

A partir desses dados, investidores iniciaram uma discussão sobre a ação da empresa fundada pelo carioca André Street, ainda jovem na bolsa dos EUA, já ter valorizado demais. Na outra ponta, há quem queira embolsar papéis da Cielo esperando enorme valorização simplesmente por conta dessa discrepância - sem considerar outros dados. Especialistas alertam, porém, que ambas as conclusões são precipitadas.  

Para Carlos Daltozo, Head de Renda Variável da Eleven Financial, essa comparação é um equívoco por ignorar o contexto das empresas. “A Stone vem crescendo 80% ano contra ano. A Cielo, por outro lado, vem perdendo market share e lucro. São fases totalmente distintas”, diz ele. “O que o mercado precifica é o crescimento”, complementa.

E a Stone acaba de indicar que segue em plena expansão. Na última segunda-feira (1), a empresa publicou uma prévia de seus resultados operacionais referentes ao primeiro trimestre de 2019 com receita total entre R$ 530 milhões e R$ 533 milhões, o que representa crescimento entre 84,7% e 85,8% na comparação com o mesmo período de 2018.

O número de clientes ativos ao final dos três primeiros meses do ano foi estimado entre 305,9 mil e 307,4 mil – crescimento entre 90,4% e 91,3% ano a ano, de acordo com a empresa. Já o volume total de pagamentos (TPV, na sigla em inglês) deve crescer aproximadamente 60% com relação ao último trimestre de 2018, para R$ 16,5 bilhões.

Daltozo argumenta que os números estão em linha com o que se espera de uma empresa na fase atual da Stone. É natural um crescimento de volume neste nível para uma companhia ainda jovem e com pouco terreno. “O Santander passou por isso com a Getnet”, lembra.

Olhando no detalhe, o especialista da Eleven aponta que um número em específico demonstra com maior clareza que a Stone está pronta para alçar voos mais altos: o take rate. O indicador, que mostra a relação entre as receitas e o valor total transacionado, subiu de 1,68% para 1,85%. Isso significa uma captação maior por uso das maquininhas da marca, e “é muito bom como um indicativo do que está por vir”, diz.

Guerra das maquininhas

Para André Martins, da XP Investimentos, a Stone é, de fato, uma das principais ameaças ao gigantismo da Cielo. “O sucesso da Stone, especialmente no mercado de pequenas e médias empresas através de um ótimo atendimento e proximidade com os clientes, é um dos principais fatores de nossa postura cautelosa com a Cielo”, escreveu o analista nesta manhã.

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Vale lembrar que essa briga já não tem apenas dois competidores. O mercado de pagamentos eletrônicos, que há menos de 10 anos era dominado por duas grandes empresas (a Cielo, que se chamava Visanet, e a Redecard, hoje Rede), cresce estrondosamente desde que o BC mudou a regulamentação e favoreceu uma maior competição no setor.

Além de Stone, PagSeguro, Getnet e outras empresas especializadas em credenciamento, players de outros setores, principalmente varejo e tecnologia, começam a dar as caras em um setor com enorme potencial de crescimento. A Linx Pay, por exemplo, vem crescendo a uma taxa de 20% por semana. A Totvs contratou um ex-Cielo para criar um braço totalmente dedicado a fintechs. A B2W aposta com força na sua Ame Digital. E assim sucessivamente.

O pulo do gato é que o mercado “ainda não é um jogo de rouba-monte”, diz Daltozo. “Não é uma situação em que, se a Stone ganhar, a Cielo necessariamente perde. Não ainda”, explica. “Com a retomada do mercado brasileiro, é claro que todas essas empresas crescem de maneira mais acentuada, porque o mercado de meios de pagamento eletrônicos não é maduro ainda[no Brasil”, aponta.

Follow-on e ação em queda

Nesta quarta-feira (3), a empresa divulgou que seus acionistas receberão um total de US$ 789,8 milhões através de uma oferta de follow-on (captação subsequente) de 19,5 milhões de ações ordinárias classe A.

A oferta deverá ser encerrada em 5 de abril e os subscritores receberam uma opção de 30 dias para comprar até 2,9 milhões de ações adicionais pelo preço da oferta pública menos o desconto de subscrição.

Entre os acionistas que desembolsam papéis estão os fundadores da empresa, André Street e Eduardo Pontes, além da gestora 3G Capital, que se desfaz de apenas uma parte de sua participação.

Segundo Daltozo, ofertas secundárias geralmente causam “algum desconforto no mercado”. Nesta manhã, a ação da Stone tem queda de 6,29% e é negociada a US$ 39,33, já 3% abaixo dos US$40,50 precificados pelo follow-on.

Neste caso, porém, o efeito para as ações podem ser atenuados porque o mercado já esperava essa venda de participação há meses. “Como [os maiores acionistas] venderam um percentual muito pequeno [da participação] no IPO [oferta pública inicial], nada mais justo que capturar o desempenho da ação nos últimos meses”, diz o analista.

 

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