Profissionais colocam objetivos próprios e de seu setor acima dos da empresa

Comportamento, tido como um distúrbio, é chamado de Efeito Kwai, e deve ser evitado no mercado de trabalho

SÃO PAULO – Imagine um publicitário que cria um comercial para ganhar um prêmio em Cannes. Depois de ver o anúncio, você deixa a emoção de lado e se pergunta: que produto ele estava vendendo?

Agora, pense em um diretor comercial que prepara uma festa enorme e cheia de luxo para o lançamento de um produto, mas que não deveria fazê-la porque a empresa passa por situação financeira grave. Ele recebe um não como resposta ao pedido de liberação de verba e briga, discute, insiste.

O que estas duas situações têm em comum?

De acordo com o psicólogo e diretor de RH e Qualidade de Vida da Apsen Farmacêutica, Floriano Serra, falta nos dois casos uma noção de qual o objetivo principal do trabalho. Conforme ele explicou, em determinadas ocasiões, os profissionais colocam os objetivos próprios ou de seu departamento acima daquele que deveria ser maior: o da empresa.

Desvio tem nome

Ao desvio de colocar um objetivo próprio acima daquele que deveria ser o principal, o psicólogo chama de “Efeito Kwai”, nome extraído do filme “A ponte do Rio Kwai”, no qual um coronel britânico aprisionado pelos japoneses num campo do Pacífico resolve fazer uma ponte para deixar clara a superioridade de sua nação.

“Ele não se dá conta de que a referida ponte será usada para o transporte de tropas e armamentos dos japoneses. Quando o alto comando americano envia um oficial para destruir a ponte, já que se trata de peça vital do ataque japonês, cria-se um violento choque entre os ingleses. E, assim, a defesa da sua pátria fica em segundo plano”, conta Serra.

Segundo ele, atitudes como estas, certamente em menor escala e dramaticidade, estão presentes em muitas organizações, como quando um departamento resiste em obedecer uma ordem – muitas vezes até boicotando a empresa – porque não concorda com ela.

O que é o efeito?

De acordo com Serra, o efeito Kwai costuma ficar mais claro em situações em que é necessário reduzir custos e conter despesas.

“Durante essas campanhas internas em que verbas são reduzidas e projetos são suspensos ou cancelados, alguns gestores resistem em deixar a zona de conforto ou em abrir mão de projetos e interesses pessoais em favor da necessidade maior e prioritária da empresa a que servem”, explica Serra.

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Conforme ele explicou, em qualquer empresa, o mais importante é preservar sua sustentabilidade, saúde e sobrevivência, o que deveria ser o objetivo de todos. “O profissional que não entender isso, ainda tem muito a aprender e a crescer. E é isso que ele deveria fazer com urgência, antes de assumir postos do qual se espera comprometimento, compartilhamento…e bom senso”, finaliza.