Fraudes reacendem debates sobre idoneidade dos concursos públicos

Professores acreditam que esquema deflagrado pela PF chegou a frustrar candidatos, mas não alterou rotina de estudos

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SÃO PAULO – A promessa de uma vida financeira e carreira estáveis leva muitos brasileiros a optar pelo funcionalismo público. Contudo, as denúncias de fraudes em concursos concorridos veiculadas nos últimos dias reacendem o debate sobre a idoneidade das provas e chegam a gerar frustrações entre os candidatos.

“Ouvimos alguns alunos reclamarem e percebemos também um desapontamento”, afirma o diretor-presidente da Rede de Ensino LFG, Luiz Flávio Gomes. Ele diz, contudo, que a escola tenta manter os ânimos dos alunos que se abateram com as denúncias. “Explicamos que as fraudes são controladas, punidas e que sempre o esforço do candidato nunca será em vão”, reforça.

O mesmo pensa o diretor de Recursos Humanos da Central de Concursos, José Luís Romero Baubeta. “Os alunos ainda acreditam que o concurso é um processo democrático”, afirma. “Claro que as denúncias preocupam. Elas passam insegurança e geram um certo receio em alguns candidatos”.

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Denúncias não alteram rotina de estudos
Na última semana, a Polícia Federal desencadeou uma operação com o objetivo de desarticular uma quadrilha que fraudava concursos em todo o País. O órgão apurou que o grupo tentou fraudar, sem sucesso, provas da CEF (Caixa Econômica Federal), da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), da AGU (Advocacia Geral da União) e outras.

Por meio de nota, a PF afirmou que há indícios de fraudes em outros concursos, mas que estão sendo investigados. Ao todo, 12 pessoas foram presas durante a operação. Ainda segundo a Polícia, o grupo teve acesso privilegiado às provas do exame da segunda fase da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) deste ano e à prova da Receita Federal para auditor-fiscal de 1994.

Apesar de receio em alguns candidatos, os professores acreditam que, de maneira geral, as fraudes não foram suficientes para alterar a boa imagem dos concursos e tampouco alteraram a rotina de estudos dos concursandos. É o caso da relações públicas Priscila Soares de Abreu, 25. Há um ano e meio, Priscila realiza provas e afirma que ainda confia na idoneidade do processo.

Para ela, o número de fraudes verificadas pela polícia ainda é muito pequeno para que ela altere sua rotina de estudos ou mesmo desista de alguns processos de seleção. “Mesmo porque eu não faço a prova simplesmente, mas realizo um acompanhamento minucioso do processo desde o início”, diz. Priscila já passou no concurso de Furnas e do Ministério Público Federal, mas ainda continua a prestar para outras provas, enquanto aguarda a convocação.

Segundo Priscila, o desejo de ter uma carreira estável é tão forte que não será abalado por denúncias. Mas, se novas fraudes ocorrerem… “Se aparecer mais denúncias, pode até ser que eu me abale, mas ainda confio na segurança das provas”, afirma.

A postura adotada por Priscila é a recomendada pelos professores aos alunos que ficaram ‘com um pé atrás’. “As fraudes comprovadas foram mínimas, compreendendo poucas vagas, não é uma fraude generalizada”, comenta Gomes, da LFG. “Elas não são motivos para que o candidato desanime”, ressalta. Para Baubeta, da Central de Concursos, os candidatos devem tomar a notícia como mais uma lição a ser aprendida. “A pessoa tem de pensar bem antes de participar de uma fraude, porque um dia ela vai ser punida”.

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Meritocracia
Se tudo permanecer como está, em muito pouco afetará o cenário dos concursos públicos, acreditam os professores. Para Gomes, as fraudes deflagradas pela Polícia Federal não devem impactar a procura por cursinhos preparatórios ou reduzir o número de candidatos.

“Ainda não dá para fazer um cálculo”, diz Gomes. “Há um trabalho por mudanças nas regras, luta por mais transparência e a corrida pela carreira pública será sempre grande e disputada”, considera. “Não enxergo esse tipo de mudança”, completa Baubeta.

Para aqueles que se abalaram com as denúncias, os professores lembram que o regime da meritocracia é o que vale. “O candidato que se prepara e se dedica sempre conquista a sua vaga, isso é fato”, afirma Gomes. “Não há motivos para desanimar, o que vale mesmo é a meritocracia, porque a fraude um dia é descoberta. A preparação é, e continuará sendo, o melhor caminho”, completa o professor.

O mesmo pensa Baubeta. “Teve fraude no Enem, mas nem por isso os candidatos deixaram de estudar. Não pode interromper o preparo ou desanimar”, aconselha. “Claro que o fator psicológico pode derrubar, mas se você estudar adequadamente, dá para conquistar a vaga”, reforça.

Prevenção
Diante das descobertas da PF, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, determinou na última semana a criação de um Grupo de Trabalho para propor medidas relativas à segurança dos concursos públicos realizados pela Administração Pública Federal. “As soluções a serem estudadas serão de natureza administrativa e normativa”, afirmou a pasta, por meio de nota.

Agora, o grupo terá 30 dias, contados a partir da data de publicação da portaria que instituiu a criação do grupo, em 17 de junho, para apresentar soluções. “Tudo o que for para melhorar, multiplica”, diz Baubeta. “É uma forma de respeitar o candidato e o contribuinte”, completa. Para Gomes, a criação do grupo vem em boa hora. “Precisamos de mais cautela para evitar outras fraudes”.