Executivos não querem se aposentar e procuram saídas para continuar no mercado

Por questões financeiras ou psicológicas, aposentadoria é vista com receio por esses profissionais

SÃO PAULO – Imagine um homem poderoso dentro de sua organização, ativo, dedicado à mesma empresa há 20 anos e bastante apegado aos negócios, se deparando com a notícia de que chegou a hora de se aposentar. Nesse caso, são duas as possibilidades: ou aceita e usa as reservas que possui para viajar mundo afora, mas essa é uma opção para quem possui rara segurança financeira, ou simplesmente se recusa a parar de trabalhar e procura alternativas.

“A expectativa de vida do brasileiro aumentou e mudou a percepção do envelhecimento. Quando chega a hora de se aposentar, muitos executivos não aceitam. Alguns porque precisam da remuneração, considerando-se que um aposentado não ganha tão bem, e estamos falando de pessoas com um bom padrão de vida. Outros, porque são atuantes demais”, explica a sócia-diretora da Vox – Gestão de Pessoas, Celina Beatriz Gazeti.

“Quando uma pessoa muito ativa fica sem trabalhar, ela perde o chão, se sente fora do contexto, o que pode causar depressão. Ela fica longe do círculo de amigos, perde o poder que tinha e sente que os outros não a respeitam tanto quanto antes. Além disso, existe aquela crença: se me aposento, envelheço. O executivo precisa de maturidade para administrar a aposentadoria, dos pontos de vista financeiro e psicológico.”

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Por incrível que pareça, lidar com a aposentadoria depende de um trabalho que começa quando o profissional ainda é jovem. Segundo a sócia-diretora, é importante tomar cuidado para não ter uma vida familiar abandonada e dosar o trabalho com o lazer e o bem-estar. “A vida equilibrada é garantia de que a pessoa não ficará sem chão ao se aposentar”, garante.

A segunda dica é fazer o possível para não ser lembrado como o José da empresa X ou a Maria da companhia Y. Parece algo à toa, mas muitas pessoas transformam o nome da empresa em seu sobrenome. “Ter um networking fora da organização, um círculo de amigos que não tenham nada a ver com a empresa é essencial para mudar de carreira, de emprego, e continuar sendo respeitado, independentemente da idade”, acrescenta Celina.

Outra recomendação é nunca parar de estudar, ser curioso, interessado por assuntos periféricos à sua área. Manter-se visível também é recomendável, mas como é possível? Simples. Participando de palestras, workshops e eventos. “O executivo precisa criar sua marca pessoal ao longo da carreira.”

Saídas

Se as dicas forem levadas em consideração, será mais fácil encontrar as soluções para uma aposentadoria indesejada. A primeira é se tornar um consultor independente. “O mercado valoriza muito consultores que são ex-executivos de grandes empresas. E quanto mais maduro, mais aceito ele é”, explica a especialista em gestão de pessoas.

Outra sugestão é seguir a área acadêmica, mas, para tal, é necessário ter realizado mestrado. “O executivo pode se tornar professor acadêmico, atividade que, por sinal, remunera muito também, antes de se aposentar”, diz Celina. Outra opção é o trabalho em ONGs e empresas do terceiro setor. “Um ex-diretor de marketing de uma multinacional tem muito a contribuir em uma ONG. Além disso, empresas do terceiro setor já estão remunerando. E do ponto de vista psicológico, é uma ótima saída, ainda que o trabalho não seja remunerado.”

O executivo também pode abrir o próprio empreendimento ou negociar com a empresa atual a continuidade na função, ato que, aliás, é muito comum. “Sei de inúmeros casos de executivos que negociam com a empresa. Quando estão em jogo cargos altos, as empresas costumam ser receptivas à proposta. Nesse caso, a aposentadoria se transforma em uma renda complementar, um ato burocrático.”