Crise faz profissionais no exterior desejarem voltar ao Brasil

"Quando uma empresa passa por uma crise, os estrangeiros são os primeiros a serem cortados", diz diretor da Robert Half

SÃO PAULO – Na Robert Half, empresa de recrutamento especializado nas áreas financeira, contábil, vendas e marketing, engenharia e tecnologia, é possível notar um movimento diferenciado nos últimos tempos, por conta da crise subprime, que está afetando, principalmente, a economia dos países desenvolvidos: profissionais brasileiros que estavam no exterior estão tentando voltar à terra natal. Mais do que isso: estrangeiros também estão apostando no mercado de trabalho verde-amarelo.

“Pelo volume de currículos que estamos recebendo, é possível chegar à conclusão de que os brasileiros estão querendo voltar ao País”, explica o diretor-geral da Robert Half, Ricardo Bevilacqua. Os motivos são quatro. Em primeiro lugar, eles estão com medo de perder o emprego, já que o nível de desemprego não pára de aumentar nos Estados Unidos e empresas de todo o mundo estão correndo o risco de quebrar.

“Como muitos dos países desenvolvidos têm uma cultura protecionista, quando uma empresa passa por uma crise, os estrangeiros são os primeiros a serem cortados”, analisa Bevilacqua. Em segundo lugar, eles estão preocupados com a renda. “Como a crise está se aprofundando, os profissionais imaginam que, nos próximos dois anos, a situação das empresas nas quais trabalham será delicada, o que reduzirá o valor do bônus”.

Salários não valem tanto a pena

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O head of customer services da Monster.com, Kleyton Silva, explica que, mesmo com a alta recente do dólar, a moeda esteve em queda nos últimos anos, por isso, não está valendo tanto a pena trabalhar no exterior. “Na comparação com o real, os salários estão caindo”, diz.

“Isso sem falar que, no Brasil, com a escassez de mão-de-obra qualificada, principalmente para ocupar a alta gerência, algumas empresas multinacionais estão pagando mais do que as empresas instaladas nos países desenvolvidos”, acrescenta.

O terceiro motivo seria a idéia de ter a família por perto novamente. “Os profissionais pensam também na qualidade de vida”, afirma o diretor-geral da Robert Half. Que o fenômeno está ocorrendo não há dúvidas. “Há dois meses, recebíamos cinco, dez currículos de pessoas do exterior, bem esporadicamente. Hoje, somente para vagas de São Paulo, são 200 currículos [no banco de dados da empresa]“, conta.

Economia brasileira

Não se pode esquecer também da economia brasileira, que está crescendo muito, e de forma sólida. Este seria outro fator de atração desses profissionais. Mas, na opinião de Kleyton Silva, os brasileiros que estão voltando para casa são aqueles que estavam no exterior temporariamente, e que já tinham pretensão de voltar um dia.

“Não é o caso dos brasileiros com visto permanente, cujos planos de carreira são completamente diferentes”, avalia. Quanto aos estrangeiros que estão tentando se aventurar por aqui, ele aponta como razão o clima agradável. No Canadá há pouco mais de dois anos,o head of customer services da Monster.com conta que, no país, o inverno tem duração de seis meses. “Se for considerado o que o paulistano considera como inverno, são oito meses”, diz. “As pessoas comentam muito o clima quente do Brasil”.

A teoria do clima pode ser uma verdade, mas o crescimento da economia brasileira não deve ser esquecido. Bevilacqua conta que um diretor-financeiro de um dos bancos europeus que quebraram está procurando emprego no Rio de Janeiro. “Ele não tem vínculo nenhum com o Brasil, mas deve estar sabendo que o país passa por um momento econômico muito positivo. O problema seria não saber falar português”.

Para Silva, a língua não é um problema, já que muitos dos estrangeiros que estão vindo para o Brasil acabam nas multinacionais, onde o inglês é muito usado. Bevilacqua finaliza lembrando que o importante mesmo é que todo esse movimento no mercado de trabalho é positivo para o Brasil. “A economia está aquecida, todo mundo está contratando e as empresas enfrentam falta de mão-de-obra qualificada. Os profissionais com experiência no exterior são valiosos”, conclui.