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Quais são os ‘gadgets’ das cidades inteligentes?

Empresas e setor público aproveitam conectividade para criar soluções nas cidades

Iuri Santos

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Nada de carros voadores ou gigantes hologramas publicitários. O futuro que já chegou para as grandes cidades é mais sóbrio: registros em imagem e via sensores, economia energética e análise de dados têm sido algumas das marcas de iniciativas privadas e públicas no escopo das chamadas “cidades inteligentes”.

Uma descrição possível está no livro “Caminhos para as Smart Cities: Da Gestão Tradicional para a Cidade Inteligente”. “Uma Cidade Inteligente é aquela que coloca as pessoas no centro do desenvolvimento, incorpora tecnologias da informação e comunicação na gestão urbana”, diz a publicação. “Smart Cities favorecem o desenvolvimento integrado e sustentável tornando-se mais inovadoras, competitivas, humanas, atrativas e resilientes, melhorando vidas.”

Quando Mauricio Bouskela escreveu essa descrição pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), ele vinha de um projeto de transformação do município de Parintins (AM) em uma cidade inteligente. Naquela época, ainda trabalhando pela Intel, o especialista descreve que existiram três pilares para o projeto: conectividade, dispositivos, centros de gestão e comunicação com os cidadãos. Hoje, ele é coordenador do Núcleo de Cidades Inteligentes e Big Data do Laboratório Arq.Futuro de Cidades do Insper.

A conectividade é ponto central de uma cidade inteligente e a evolução da banda larga nos últimos anos tem possibilitado que gestões municipais melhorem o acesso de cidadãos à internet, mas também utilizá-la na gestão pública. Por meio da conexão de dispositivos como câmeras e sensores, centros de gestão são capazes de analisar dados e orientar melhor decisões, bem como lidar melhor com urgências, como alagamentos e trânsito.

Uma pesquisa da Technavio aponta que o mercado de cidades inteligentes deve movimentar US$ 2,1 trilhões em 2024 pelo mundo, mas o Brasil ainda não é uma grande referência no tema. O País, por exemplo, não possui nenhum município listado no Smart Cities Index, índice desenvolvido por universidades como a coreana Yonsei e a inglesa Cambridge para analisar cidades inteligentes pelo globo.

No entanto, alguns municípios vêm avançando. O Rio de Janeiro é mencionado por especialistas como um exemplo de cidade que anda buscando soluções com base em dados e parcerias junto a empresas privadas. Segundo o ranking Connected Smart Cities, da Urban Systems, a capital fluminense é a 10ª cidade mais inteligente do País, atrás de municípios como Florianópolis (1º), Curitiba (2º) e São Paulo (3º).

Em 2022, a cidade criou um escritório de dados para levar inovações em ciências de dados implementadas pela Secretaria de Transporte às demais pastas municipais. Quem tocou o projeto nos transportes foi João Carabetta, deslocada para a função de chief data officer do Escritório de Dados do Rio após implementar um projeto de monitoramento de ônibus via GPS capaz de fiscalizar a eficiência das empresas concessionárias em atender suas linhas e, assim, melhorar a distribuição de subsídios para aquelas que cumprirem suas rotas corretamente.

Conectividade é a palavra de ordem das cidades inteligentes (Peng LIU/Pexels)

Ainda que os projetos não resolvam todos os problemas de uma só vez, é possível destravar algumas possibilidades novas a partir de uma infraestrutura de dados mais organizada — o datalake do Rio fica no Google Cloud.

As parcerias da cidade com a big tech, inclusive, têm aumentado. Segundo Carabetta, a cidade tem utilizado o modelo de inteligência artificial Gemini, recém-lançado pelo Google, para identificar alagamentos por meio das cerca de 3,5 mil câmeras espalhadas pela cidade e ajudar o centro de controle a prevenir incidentes. “Os testes têm funcionado. Os únicos erros da IA foram em imagens que nem mesmo humanos conseguiriam identificar o alagamento, como quando as câmeras foram engolidas pela água”, explica.

A própria big tech anunciou, em novembro, um projeto desenvolvido com a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) carioca chamado “Green Light”, que visa criar ondas verdes nos semáforos com base em inteligência artificial. A partir das informações como tendências de tráfego do Google Maps, o modelo de IA sugere programações para a sinalização semafórica que melhorem o fluxo de trânsito.

Segundo o Google, dados preliminares apontam para um potencial de redução nas paradas dos veículos em 30%, e de emissões de CO2 nos cruzamentos em mais de 10% — a emissão de dióxido de carbono é até 29 vezes maior em cruzamentos do que em estradas, aponta pesquisa publicada pela “Environmental Science: Processes & Impacts”. No momento, apenas dois cruzamentos do Rio possuem a tecnologia e outros 70 ao redor do mundo.

A pauta de cidades inteligentes está, segundo especialistas, conectada diretamente com temas de sustentabilidade, seja na redução de emissões de poluentes ou na otimização do uso de recursos energéticos.

A ABB, multinacional de tecnologia com sede em Zurique, na Suíça, tem operado iniciativas no Brasil com foco em casas e prédios inteligentes, além de mobilidade. “Desde a Revolução Industrial, qual tem sido o deslocamento humano mais comum? Sair do campo e vir para a cidade”, aponta Gustavo Vazzoler, diretor de produtos e soluções de smart buildings da ABB Eletrificação. Para ele, esse movimento faz com que a questão de habitação e transporte se tornem centrais quando o assunto é tornar as cidades inteligentes.

Assim como na gestão pública, a internet das coisas (IoT, na sigla em inglês) — utilização de dispositivos interconectados para melhorar soluções — é o centro das residências inteligentes. Recursos desde fechaduras até geladeiras inteligentes já são comercializados e ajudam a criar um sistema integrado dentro das casas que promove maior praticidade e menor uso de energia.

“Tome por exemplo a utilização do ar-condicionado. Em dias quentes, eu chego em casa, aperto um controle, coloco a temperatura no mínimo possível e deixo gastar o máximo”, explica Vazzoler. “Agora imagine: por geolocalização do celular o ar-condicionado é ligado quando o residente chega a uma certa distância de sua casa, mas em uma temperatura superior à mínima, com menos gasto energético”, completa o exemplo.

Segundo Vazzoler, por base, a redução de consumo energético em uma casa ou prédio inteligente é de ao menos 30%. Segundo ele, via de regra quem constrói uma casa inteligente está pensando mais em praticidade. Mas em um edifício comercial, uma redução de 30% no gasto energético tem um fator racional grande: o de economia financeira.

Smart Building da ABB (Divulgação)

A aclimatização com ar-condicionado, responsável pelo maior gasto energético de um prédio, é um bom exemplo sobre como funcionam os andares comerciais inteligentes. Os dados consolidados de sensores de luminosidade e temperatura conseguem, por exemplo, identificar quais ajustes um dispositivo chamado variador deve fazer na temperatura para mantê-la agradável sem precisar fazer variações grandes entre o mínimo e o máximo do climatizador.

Aí entram diversos fatores. A luz lá fora aumentou? Com inteligência de dados, é possível reduzir a quantidade de luz interna para economizar. Mas e se o sol estiver esquentando demais o ambiente a ponto de aumentar o gasto com ar-condicionado? Faz-se o cálculo: o gasto será maior com climatização ou iluminação? Se a resposta é climatização, então as persianas são acionadas automaticamente.

“O sistema de automatização substitui toda a interação humana que, por melhor que seja, não terá a performance da máquina”, diz Vazzoler. “Um sensor pode apagar todas as luzes do prédio quando não há mais funcionários, enquanto seria necessário alguém da manutenção ou um segurança fazer uma ronda por todo o prédio para apagá-las”, aponta.

A empresa ainda desenvolve produtos para carregamento de veículos de carga e passeio. O próprio ranking Connected Smart Cities leva em conta a baixa emissão de veículos como um dos fatores de classificação das cidades. Há, no entanto, um aspecto de ciência de dados envolvido. Os pontos de carregamento são conectados às empresas fabricantes, o que facilita sua manutenção remota e pode até gerar novas fontes de renda.

“É possível colocar os carregadores para funcionar sem que ninguém nem encoste a mão nele, resetar o produto, resolver problemas de cobrança, tudo por suporte remoto. Aperta um botão, tem um intercomunicador que o usuário pode falar com essa pessoa ou o dono do posto”, explica Vazzoler. “E ele também faz uma coleta de dados de carro que pode até servir para fins de mercado, indicando, por exemplo, a marca que tem maior autonomia e menos consome naquele determinado tipo de bomba.”

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