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ArcelorMittal sente ‘efeito China’, mas afirma que investimentos seguirão

Maior produtora de aço do Brasil mantém plano de R$ 25 bilhões até 2027 para modernizar plantas e ampliar seu processo de descarbonização

Rikardy Tooge

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Em um momento em que a importação de aço da China bate recorde no país, a ArcelorMittal, maior produtora do Brasil, já reviu suas estimativas para este ano, com uma produção 1,3 milhão de toneladas menor na comparação com 2022. Além disso, anunciou na semana passada que irá prolongar as férias coletivas em três de suas plantas no país. Apesar de certo pessimismo no curto prazo, a siderúrgica mantém seu plano de jogo para o longo prazo, com cerca de R$ 25 bilhões de investimentos até 2027, consolidando a operação brasileira como um de seus hubs para as Américas.

“Nós estamos há 101 anos no Brasil e seguimos acreditando no país. Temos grandes oportunidades em saneamento e infraestrutura, que precisam sair do papel. Os problemas conjunturais sempre passam e nós, como líderes de mercado, temos que puxar as iniciativas”, diz Jefferson De Paula, presidente da ArcelorMittal no país, em conversa com o IM Business.

Embora demonstre otimismo com os próximos anos, o executivo reforça que o governo também deve fazer sua parte, tanto em colocar em prática as promessas já feitas como avançar em outras agendas.

Conforme o IM Business já mostrou, além de temas como a segurança jurídica e diminuição do chamado “custo Brasil”, De Paula, que também preside o conselho do Instituto Aço Brasil, defende um aumento de tributação sobre o aço vindo da China dos atuais 10% para 25% por um ano até que o mercado se reequilibre – a demanda inclusive já chegou ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que estuda o pedido do setor.

“Nós queremos estar nas mesmas condições de Estados Unidos, União Europeia e México [países que aplicaram tributação semelhante]. Nós acreditamos e defendemos o livre comércio, mas ele precisa ser justo. Não dá para sermos bonzinhos do nosso lado enquanto o outro lado trabalha com subsídios”, explica o presidente da ArcelorMittal Brasil.

Como efeito imediato, cerca de 400 funcionários de sua planta em Resende (RJ) vão entrar em férias coletivas entre novembro e dezembro – o mesmo ocorrerá em Piracicaba (SP) e Juiz de Fora (MG), que terão seu período de parada técnica estendido neste ano.

Jefferson de Paula, presidente da ArcelorMittal Brasil: competição chinesa cria assimetria no setor (Divulgação)

As importações de aço da China dispararam 58% no acumulado do ano até setembro, enquanto a produção nacional caiu 8,4%; as vendas, 5,4%; e as exportações, 4,4%. O presidente-executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes, classifica a situação como “dramática” e “uma tempestade perfeita”. A previsão é de que a entrada de aço chinês no país cresça 50% em 2023 em relação ao ano passado, para 5 milhões de toneladas, ou 25% do consumo anual de aço no país (20 milhões de toneladas).

Esse cenário, na visão do presidente da ArcelorMittal Brasil, gerou uma distorção de mercado. Isso porque, lembra o executivo, as siderúrgicas chinesas são estatais e que há subsídios para que o setor, um dos principais da economia daquele país, siga empregando. “Com isso, elas vendem com margem negativa para continuar gerando emprego.”

Os investimentos

A despeito da conjuntura, a ArcelorMittal Brasil já vem colhendo frutos de alguns de seus investimentos programados. Dos R$ 25 bilhões separados para o plano, o montante mais expressivo foi utilizado na compra da Companhia Siderúrgica de Pecém junto à Vale por R$ 11,4 bilhões, sendo um dos maiores M&As do ano passado. Com a integração da operação localizada no Ceará concluída em março, a ArcelorMittal adicionou 3 milhões de toneladas por ano de capacidade de produção ao seu portfólio com potencial para aumentar para 5 milhões anuais.

“Foi um movimento estratégico que já vem entregando resultados financeiros satisfatórios. Hoje, ela é a planta mais moderna do país e nós gastamos metade do que gostaríamos se construíssemos ela do zero”, diz Jefferson De Paula. Para o longo prazo, o presidente da ArcelorMittal no país explica que a planta será um hub estratégico para a distribuição (o chamado downstream) para o Norte e Nordeste, além do potencial de exportação. “Podemos atender o norte da América do Sul, a América Central e o sul dos Estados Unidos”, reforça o executivo, que planeja ampliar a oferta de Pecém além das placas de aço para também fornecer aços planos e longos.

Planta da ArcelorMittal no município de João Monlevade (MG) (Divulgação)

Outros R$ 9,3 bilhões serão destinados para a modernização das unidades operacionais da ArcelorMittal Brasil em Minas Gerais, Santa Catarina e Rio de Janeiro. O aporte mais expressivo será na unidade mineira de João Monlevade. Por lá, o objetivo é investir US$ 800 milhões (cerca de R$ 4 bilhões) para concluir a atualização tecnológica da planta, iniciada na década passada e que sofreu atrasos ao longo dos anos. A expectativa é que o projeto de expansão da produção de 1,2 milhão para 2,2 milhões de toneladas de aço bruto por ano seja entregue no segundo semestre de 2026, com potencial de adicionar US$ 200 milhões de Ebitda ao balanço anual da empresa.

Além de Monlevade, a ArcelorMittal vai investir R$ 1,95 bilhão para ampliar a produção em Vega (SC), R$ 1,3 bilhão na unidade de Barra Mansa (RJ) e R$ 2 bilhões e R$ 144 milhões nas operações localizadas nas cidades mineiras de Serra Azul e Sabará, respectivamente. Em outra frente, a companhia criou no ano passado uma joint venture com a Casa dos Ventos para a construção de um parque eólico no Nordeste com capacidade de produção de 553,5 MW, o que demandará aporte de R$ 4,2 bilhões.

O objetivo é seguir em curso com o projeto global da companhia, com sede em Luxemburgo e atuação em mais de 60 países, de descarbonizar toda sua operação até 2050. Ademais, a ArcelorMittal também assinou um acordo com a EDP para avaliar a viabilidade técnica de uma planta-piloto para a produção e uso de hidrogênio verde no processo de fabricação do aço na planta da empresa em Tubarão (ES).

Rikardy Tooge

Repórter de Negócios do InfoMoney, já passou por g1, Valor Econômico e Exame. Jornalista com pós-graduação em Ciência Política (FESPSP) e extensão em Economia (FAAP). Para sugestões e dicas: rikardy.tooge@infomoney.com.br