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No apartamento de ‘Scarface’ em Miami, bilionário exilado contra-ataca

Ex-presidente bilionário está entocado em exílio em luxuoso edifício

Edifício de Scarface - Bloomberg
(Christina Mendenhall)

(SÃO PAULO) – Bem perto do centro de Miami, em um luxuoso edifício de apartamentos que ficou famoso pelos sucessos da década de 1980 “Scarface” e “Miami Vice”, um ex-presidente bilionário está entocado em exílio.

Ricardo Martinelli — descendente de proprietários de terras panamenhos e ex-banqueiro do Citigroup — era o presidente latino-americano mais famoso há algumas décadas. O líder tinha tanta probabilidade de aparecer nas manchetes por ajudar seu país a obter o grau de investimento quanto por seus gastos pessoais esbanjadores e por suas festas extravagantes. Mas, quando o Tribunal Superior do Panamá abriu inquéritos no início deste ano sobre seu papel em supostos escândalos de grampos telefônicos e corrupção, Martinelli saiu da cidade. Outra investigação está em andamento no Brasil, país devastado por crises que abriga uma empresa que obteve concessões para megaprojetos no Panamá durante o mandato de Martinelli, de 2009 a 2014, e uma terceira investigação foi realizada na Itália.

Aos 63 anos, grisalho e corpulento, Martinelli passa grande parte do tempo no bairro de Brickell, à beira-mar, em Miami, defendendo seu histórico público, reafirmando sua inocência e insinuando um possível retorno à política. Ele está constantemente no Twitter, publicando opiniões e anúncios para sua legião de 557.000 seguidores.

Quando se sentou para dar uma entrevista recentemente em uma cafeteria de Miami, ele estava com um espírito combativo, atacando inimigos políticos e repetindo de memória os feitos de seu governo – a disparada do crescimento, a queda do desemprego e a construção do primeiro metrô da América Central –. “Colocamos o Panamá no mapa”, jactou-se ele. E então ele expôs o que, essencialmente, foram dos dois pilares de sua resposta às investigações: Ricardo Martinelli é um homem muito rico há muito tempo; os rivais estão usando os inquéritos para enfraquecê-lo.

Vingança política

Talvez pareça estranho que um político, em meio a uma investigação sobre corrupção, esteja chamando a atenção para a própria fortuna, mas há certa lógica nesse argumento. Por que um homem que já era rico iria roubar de seu país, pergunta ele. O ex-presidente tem um patrimônio líquido de US$ 1,1 bilhão, de acordo com o Bloomberg Billionaires Index. Seu maior ativo é a participação majoritária na rede de supermercados Super 99, com mais de US$ 700 milhões em receita anual. Ele também diz ter participações nos setores bancário, imobiliário, energético, açucareiro, de cimento e de mídia, além de ter um avião, dois helicópteros e um iate.

“Todos sabem que eu sou dono do Super 99 há 30 anos”, disse ele. “Todos os processos contra mim são políticos. Não há provas”.

Grande parte da ira de Martinelli se dirige ao seu sucessor, Juan Carlos Varela.

Os vínculos entre eles remontam há décadas. Quando jovens, eles frequentavam os mesmos círculos sociais de elite e, mais tarde, tornaram-se sócios na indústria do rum. Ambos entraram na política depois que os EUA derrubaram o tirano Manuel Noriega em 1989. Quando Martinelli assumiu o poder duas décadas depois com uma plataforma favorável às empresas, ele nomeou Varela seu vice-presidente. Contudo, o relacionamento entre eles azedou durante esses anos e quando chegaram as eleições de 2014 Varela concorreu contra – e derrotou – o candidato apoiado por Martinelli. Uma vez no poder, Varela empreendeu uma campanha para arrancar a corrupção pela raiz, parte de uma onda de investigações que está varrendo a América Latina, pois o instável boom econômico gerou demandas por uma maior prestação de contas.

Martinelli diz que se trata de uma vingança política, o preço que ele tem que pagar por ter aumentado os impostos sobre os ricos – um “pecado capital” na política panamenha, disse ele. O governo de Varela rejeita esses comentários.

‘Velho e simples populismo’

“Pergunte aos mais de 150 políticos, líderes da sociedade civil, líderes empresariais e jornalistas, cuja intimidade foi violada por intervenções telefônicas ilegais, se é perseguição política”, disse Álvaro Alemán, chefe do gabinete presidencial, em uma reposta por escrito a perguntas.

O caso dos grampos telefônicos é uma das duas investigações sobre Martinelli iniciadas pela Corte Suprema. A outra gira em torno de alegações de corrupção em seu programa de assistência alimentar.

Na Itália, Martinelli foi citado como participante de um esquema de corrupção que envolve contratos panamenhos quando um juiz condenou um homem por tentar chantagear o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi. E, no Brasil, onde o enorme escândalo de propinas do país está se espalhando para o exterior, promotores estão pressionando autoridades panamenhas a fornecer informações que poderiam contribuir para a investigação. Uma empresa que está no âmago do escândalo no Brasil, a Odebrecht SA, também supervisionou o projeto do metrô de Martinelli. O ex-presidente não foi acusado formalmente de nenhum crime na Itália nem foi citado na investigação brasileira. A Odebrecht nega qualquer irregularidade no Panamá.

“Martinelli nos deixou um legado de corrupção, gastos excessivos e improvisação”, disse Ramón Arias, diretor do braço panamenho da Transparência Internacional. O boom econômico durante o mandato de Martinelli – o crescimento médio anual foi de 9 por cento – deveu-se principalmente à expansão do Canal do Panamá, iniciada por seu antecessor, disse Arias. “O resto foi, principalmente, gastos do governo. O modelo era o velho e simples populismo”.

Campanha pelo Twitter

Em Miami, Martinelli continua impávido, planejando algum dia voltar ao Panamá e flertando com a ideia de outra candidatura presidencial. Embora tente manter a discrição, ele continua exibindo alguns dos hábitos perdulários dos ricos e famosos que chamavam tanta atenção no Panamá. Ele passou a morar no emblemático edifício com fachada de vidro em Brickell, um ponto de referência na região depois de ter aparecido na abertura do seriado de TV “Miami Vice” e em uma cena do filme de gangster “Scarface”. E, há poucos meses, uma concessionária local da Lexus publicou um tuíte felicitando-o pela compra de um carro de luxo.

No entanto, Martinelli está mais concentrado em sua própria campanha pelo Twitter. O fato de que ele possa se conectar diretamente com os panamenhos, disse ele, deixa seus rivais políticos nervosos.

“Eles estão com muito medo dos meus tuítes”, disse ele. “Veja o que aconteceu na Primavera Árabe”.

Por Blake Schmidt e Bill Faries

 

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