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O fim de “garotos versus garotas”: companhias que vão mudar a forma como as crianças se vestem

Pais frustrados estão lançando startups de vestuário para superar normas de gênero

(SÃO PAULO) – Desde muito cedo, a filha de Jaya Iyer é fascinada por Saturno e seus anéis gelados. Quando Swaha completou três anos, ela teve uma festa de aniversário com temática espacial. Mas quando sua mãe foi procurar roupas com imagens do espaço para ela, não conseguiu encontrar nenhuma. Estavam todas na seção masculina.

Então a mãe de dois, de 41 anos de idade, que tem um doutorado em propaganda de moda, abriu seu próprio negócio chamado Svaha (a forma como o nome de sua filha é pronunciado) para vender roupas que subvertem os estereótipos de gênero. Uma camiseta possui um dinossauro verde e “polka dots” na parte de trás. Outra é feita com um tecido rosa choque e tem o desenho de um astronauta fincando uma bandeira dos EUA na lua. Esse seria o modelo que sua filha gostaria. “Ela estava muito triste comigo por nunca ter comprado nada com astronautas para ela vestir”, disse Iyer. “Então ela começou a me dizer que queria ninjas em suas camisetas”.

A Svaha é uma das muitas startups abertas nos últimos anos com o objetivo de mudar os padrões que decidem o que as crianças vestem. Essas empresas não querem substituir completamente a moda infantil: seus criadores dizem que querem dar mais opções às crianças. A Handsome in Pink diz que não há problema algum em garotos usarem rosa e roxo. A BuddingSTEM oferece roupas com temáticas científicas para garotas. Talvez a marca mais barulhenta seja a Princess Awesome, que arrecadou mais de US$200.000 em uma campanha bem sucedida no Kickstarter, mostrando demanda por vestidos com piratas e roupas femininas cobertas com o símbolo do pi.

A maioria dos empreendimentos permanece em estágios iniciais como entidades on-line usando financiamento coletivo para vender algumas camisetas e vestidos.

Muitas das startups possuem a mesma origem: a frustração de pais com as grandes marcas de roupas. Comprar na seção do gênero oposto não é a resposta, segundo esses pais. As normas culturais dizem que quando essas crianças ficarem mais velhas, designar certos itens como masculinos ou femininos pode ser confuso e frustrante. Uma menina pode não querer usar algo designado a meninos e vice-versa.

“A maioria das crianças e pais está vendo em grandes varejistas todas essas mensagens sobre ser um menino ou uma menina”, diz Sharon Choksi, uma das fundadoras da linha de roupas Girls Will Be. A filha de Choski, Maya, que agora está com 10 anos, nunca gostou de brilhos ou de cores “femininas”, então suas roupas eram compradas na seção masculina. Conforme Maya crescia, sua mãe imaginou que as etiquetas “meninos” e “meninas” poderiam chateá-la desnecessariamente.

Choksi, de Austin, começou a vender camisetas para meninas em 2013, antes de expandir para moletons e shorts. Em um esforço para encorajar garotas a se moverem livremente, as camisetas da Girls Will Be estão entre aquele modelo apertado tradicional feminino e as camisetas largas, normalmente vendidas para meninos.

Um dos modelos diz “forte, ousada, destemida, aventureira, tantas coisas”. Outro possui a silhueta de uma menina chutando para cima. Choksi quer que suas roupas preencham um espaço aberto por grandes companhias. “Quando as grandes varejistas vão acordar e perceber que nem todas as meninas são iguais e nem todos os meninos são iguais?”.

Em Seattle, Martine Zoer teve uma experiência parecida com seus filhos. Ela ficou cansada da pressão que seus meninos, agora com quatro e sete anos, sofriam para usar dinossauros e caminhões. Em 2014, ela fundou a Quirkie Kids, marca dedicada a produzir roupas de gênero neutro. “não há nada de errado em garotas que gostam de rosa. Mas se essa for a única escolha delas, há algo errado com isso”, ela diz.

“Nos nossos cérebros não há nada que diz que rosa é para meninas e azul é para meninos”, diz Lise Eliot, neurocientista na Chicago Medical School da Rosalind Frank University e autora de “Pink brain, blue brain: how small diferences grow into troublesome gaps – and what we can do about it”. É um fenômeno puramente cultural. Quando as crianças ainda são bebês, os meninos começam a rejeitar o rosa porque percebem que não é isso que espera-se deles.

Essas escolhas podem ter repercussões duradouras afetando os interesses e metas de longo prazo das crianças. Por exemplo, já que em boa parte as roupas femininas são mais coladas no corpo, elas aumentam restrições de movimentos, diz Eliot, afastando as meninas das atividades físicas.

As atividades físicas das crianças são importantes, porque afetam o desenvolvimento e possivelmente a carreira que será escolhida no futuro. Se uma menina deixa de gostar do espaço pela pressão da sociedade, ela provavelmente não buscará uma profissão relacionada quando adulta. Se um menino é desencorajado de brincar com bonecas e usar roupas extravagantes, é pouco provável que ele escolha uma profissão no meio da moda.

Nas grandes varejistas há poucas, ou nenhuma, opções para garotas que gostam de dinossauros ou futebol. O mesmo ocorre para o menino que gosta de unicórnios ou corações. A maior parte das mercadorias é o mais estereotipada possível: um T-Rex jogando futebol na seção dos meninos, uma camiseta com os dizeres “Eu amo minha melhor amiga mais do que sapatos” na das meninas. Um representante da loja Children’s place se recusou a comentar como decide quais cores e designs serão vendidos a gatoros e garotas, e representantes da Gymboree não responderam a pedidos por comentários.

Grandes varejistas normalmente trabalham com foco em quantidade, então enquanto muitos clientes quiserem roupas que não saem do tradicional, pouca coisa vai mudar, diz Patty Leo, vice-presidente sênior de moda infantil no Doneger Group, uma companhia de inteligência de tendências. “O rosa sempre vai vender para garotas e o azul para garotos, não importa o que aconteça nas marcas pequenas”, ela diz. No fim das contas, a escolha é dos pais: “o consumidor é o voto final aqui”.

Em 2014, a Land’s End sofreu ataques de clientes raivosos quando a mãe de New Jersey Lisa Ryder escreveu uma carta denunciando estereótipos na seção de roupas. Passando os olhos no catálogo, a filha de Ryder gostou de camisetas com planetas e dinossauros, mas elas eram claramente marcadas para meninos. Quando um comentarista de Facebook sugeriu a Ryder que ela simplesmente comprasse uma camiseta de menino, ela respondeu vigorosamente. “O problema é que as ofertas dos catálogos promovem fortemente os estereótipos de gênero que dizem que jovens meninos são espertos e jovens meninas são adoráveis”, ela escreveu. “Comprar uma camiseta ‘para garotos’ à minha filha não é a resposta porque isso perpetua a ideia de que ciência é um assunto masculino no qual por acaso ela está participando”. A marca decidiu lançar novas camisetas para garotas com foco em ciência.

Para as gigantes do universo da moda, é um exercício para descobrir o que vender. Para as marcas novas, é menos uma corrida por lucro do que uma missão para fazer a diferença. “Todos se apoiam mutuamente, não há competição”, disse Zoer, fundadora da Quirkie Kids, a respeito da comunidade de novas marcas. “Estamos juntos nessa, de certa maneira”.

Reportagem de Kim Bhasin

Traduzido por Paula Zogbi

 

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