Expectativas para o IPCA ficaram mais realistas

Depois do IPCA de março, que veio em 0,43%, o mercado reviu suas expectativas para 2016, de 7,2% para 6,70, para os Top 5. O mercado demorou a incorporar os efeitos da queda do dólar, do fim da seca e da queda da energia elétrica. Nossa estimativa de 6,7% está refirmada como teto para esse ano.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O relatório focus trouxe hoje uma expectativa para a inflação em torno de 6,70% para 2016, exatamente dentro da que projetamos após a ANEEL retirar a bandeira vermelha para as tarifas de energia[1]. Essa é a projeção de curto prazo dos TOP 5, as cinco instituições que mais acertam, segundo o BC. A estimativa caiu de 7,22%, na semana passada, para os 6,70%, refletindo, sobretudo, o forte recuo do IPCA de março, que veio em 0,43%. A inflação acumulada em 2016 foi de 2,62%, quando em 2015 foi de 3,83%. É uma “desinflação” de 1,20% em um trimestre e deve continuar nos próximos meses. O que o mercado não levou em conta, e nem tem sido tão comentado na imprensa, é que a queda dos preços se deveu à reversão daquilo que levou a inflação a explodir para mais de 10% no ano passado: a seca e o dólar.

 Com a volta das chuvas, a energia elétrica voltou a cair (ela subiu mais de 50% no ano passado e foi responsável por boa parte do “choque” de alta) e aliviou a inflação no trimestre. Esse efeito deve continuar em abril (as contas de luz voltam a cair) e nos meses posteriores, pelos efeitos indiretos da queda das tarifas sobre os outros preços. Os alimentos, que subiram no início do ano pelo excesso de chuva, devem voltar a se estabilizar ou, em alguns casos, a cair. Junto com a energia, os alimentos foram a maior pressão em 2015 e isso ocorreu por conta da seca e do dólar.

A taxa de câmbio também voltou a colaborar, retirando mais pressão sobre os preços. O dólar caiu quase 10% nesse trimestre, ao passo que no primeiro trimestre do ano passado ele subiu mais de 20%.

Com menos pressão da seca e do câmbio, os preços já deveriam voltar à média de 2014, quando subiram 2,18% no primeiro trimestre e 6,41% no ano. Com a forte contração da economia, que deverá ser de, pelo menos, 4,20% (http://pepasilveira.blogspot.com.br/2016/03/o-pib-deve-cair-420-no-ano.html ), as pressões serão ainda menores. Veja o comportamento da inflação acumulada em doze meses:

 

 

Como o gráfico mostra, após a “explosão” dos 10,71, observada em janeiro desse ano, o IPCA acumulado em doze meses entrou em desaceleração forte e deve atingir  6,70% (no máximo) em dezembro desse ano.

Apesar de ser um número muito menor que o de 2015, que foi de 10,67%, ele ainda será muito alto, sobretudo se considerarmos as condições econômicas: um forte desemprego, que afeta milhões de pessoas, e contração do PIB que será de, no mínimo, 4,20%.

 

 


[1] No “post” de 18/02, antes do anúncio, fiz uma estimativa ao redor de 7,50% (http://pepasilveira.blogspot.com.br/2016/02/em-2017-pib-de-396-e-ipca-de-750.html ). Após o anúncio, a revisaõ foi feita para 6,70%, como teto. PIB e IPCA aparecem “revistos” no “post” de 14/03 (http://pepasilveira.blogspot.com.br/2016/03/o-pib-deve-cair-420-no-ano.html )

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com