Uma semana quente para os mercados globais

Os EUA devem subir os juros na quarta feira e, antecipando parte desse movimento, as commodities continuam em derretimento. Hoje o petróleo Brent ficou abaixo dos US$ 36, coisa que aconteceu na grande crise de 2009. Aqui no Brasil, o STF decide o rito do processo para o impedimento da presidente Dilma Roussef. A volatilidade será enorme.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Estamos a três semanas do término 2015 e ainda podemos ter muitas novidades disparadas a partir da reunião do Federal Reserve dos EUA, que elevará os juros básicos pela primeira vez desde 2009, ou da decisão do plenário do STF sobre o rito do processo de impedimento da presidente Dilma Roussef. Ambas se inserem em um contexto de incerteza bastante elevada e em cenários de desaceleração da economia.

Em relação à atividade global, os grandes bancos centrais têm lutado para manter suas economias em funcionamento, a partir de enormes programas monetários de estímulos, que se baseiam em juros muito baixos (na Zona do Euro e Japão estão negativos) e enorme oferta monetária. Mas isso não tem resolvido tudo. Em janeiro de 2014 o Relatório Sobre Perspectivas Globais do FMI  estimava um crescimento global para 2015 de 3,9%, reduziu o mesmo para 3,5% em janeiro desse ano e, em outubro passado, reduziu novamente para 3,1%. Para 2016 as projeções do início do ano estavam em 3,7% e hoje estão em 3,6%, mas as perspectivas são de mais desaceleração. Os EUA devem crescer 2,6% nesse ano e 2,8% ano ano que vem. A Zona do Euro crescerá 1,5% em 2015 e 1,8% em 2016. Não são recessões, mas considerando que os juros estão em zero e que a oferta de moeda é a maior de toda a história, esse crescimento mostra que algo não está exatamente bem. Nos EUA, apesar do desemprego cair, ainda há muita gente fora do mercado de trabalho e muitos trabalhadores em condições de trabalho muito ruins[1], escondendo as verdadeiras condições para as famílias. O nível de pobreza tem subido consistentemente a as famílias passam a enfrentar, depois da crise imobiliária, problemas com as dívidas de empréstimos educacionais. Na Zona do Euro a Alemanha é o motor principal mas, por depender fortemente de suas exportações, passou a desacelerar com o resto do mundo. E essa dinâmica, somada ao ocaso dos emergentes, produziu uma queda das projeções para o PIB de 3,9%, esperado no ano passado, para os atuais 3,1% (na verdade não se descarta um número oficial de crescimento desse ano ainda menor).

Ao ensaiar a alta dos juros, o FED produz instabilidade nos mercados de moedas, de dívidas e de ações[2]. A situação que já era delicada, pode ficar ainda mais problemática.

No Brasil teremos a decisão sobre a continuidade do processo de impedimento da presidente Dilma e, qualquer que seja o resultado definido pelo plenário do Supremo, as coisas tendem a andar em uma velocidade baixa. E quanto mais devagar isso anda, mais as incertezas aumentam e nossa economia derrete .

A notícia de que a agência de classificação de riscos, Moody´s, mudou o estado de nossa nota de neutro para negativo, sinaliza fortemente que perderemos o grau de investimentos em breve e isso trará consequências para os mercados acionários, de crédito e para nossa moeda. Levando-se em conta a taxa de crescimento esperada, a queda da arrecadação e a provável alta dos juros por parte do BC, as outras agências devem rebaixar nossa nota até fevereiro. E com a economia em queda, situação política conturbada e negócios parados, pensar em um mercado “otimista” ou, no mínimo, estável, é querer demais.

A queda da atividade econômica vem derrubando os preços internacionais das commodities e esse declínio é acentuado pela valorização do dólar , já que elas são faturadas em dólares (http://pepasilveira.blogspot.com.br/2015/12/uma-corrida-global-contra-as-commodities.html ). O preços de suas exportações em queda fazem com que os países exportadores - países emergentes - tenham forte desaceleração e queda da atividade econômica. Essa queda de sua atividade econômica impacta negativamente a taxa de crescimento global, dando início a uma nova queda.

A desaceleração das economias emergentes também implica no aumento dos riscos financeiros globais, já que os países emergentes foram receptores de um enorme volume de capital nos últimos anos. A forte emissão de moeda, combinada com juros muito baixos, deu incentivo aos grandes bancos e fundos para a aquisição de títulos de empresas desses países. Há quem diga que exista uma bolha de dívidas corporativas de países emergentes. Havendo bolha ou não, o fato é que os fluxos tendem a diminuir à medida que os riscos decorrentes da desaceleração aumentam. E a redução dos financiamentos acelera a queda do valor dos ativos e das commodities.

Tudo isso pode desfilar nos mercados globais nas próximas semanas, a despeito da segurança que os dirigentes dos principais bancos centrais estejam tentando passar para os agentes.

Como forma de ilustrar esse quadro de ”derretimento” dos preços internacionais, mostro  gráficos do Petróleo, Minério de Ferro, Carvão, Milho, Alumínio e Níquel. Note que houve uma enorme alta  a a partir de 2001-2003 e um intenso ciclo de quedas a partir de 2013.

 

 

 

 

 


[1] A participação da força de trabalho na população em idade de trabalhar está nos níveis da década de 1970. Os trabalhadores têm arrumado empregos em setores menos produtivos, com salários menores e com jornadas de trabalho menores. Essa situação é abordada com a tradicional maestria por Janet Yellen em “Opening Remarks: Labour Markets Dynamics and Monetary Policy” (https://www.kansascityfed.org/~/media/files/publicat/sympos/2014/2014openingremarks.pdf?la=en)

 

[2] Na verdade, na maior parte dos casos essa “instabilidade” é desejada pelos bancos centrais, por consistir no principal meio de afetar, por meio da política monetária, o lado real da economia.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com