O IPCA bateu os 10%, mas poderia ter chegado aos 14%

O título chamativo parece exagerar os fatos para chamar a atenção, mas, tudo indica, o comportamento dos preços foi mesmo esse. A combinação da forte contração da economia impediu que a inflação subisse até os 14%. Mas, ao mesmo tempo, o choque do câmbio e da seca, se não tivessem existido, impediram que a inflação caísse abaixo do piso da meta do BC como efeito da forte contração da economia. Porém, o mercado continua dando um enorme peso aos fatores “estruturais” de seus modelos e subestimando os efeitos dos choques. Estimo, preliminarmente, que a inflação fique em 5,5% em 2016.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Ainda que existam muitas fronteiras psicológicas para as quais as pessoas deem valor, elas não se mostram necessariamente significativas na economia. Ao menos esse é o caso da “barreira” dos dois dígitos da inflação. Ela não nos diz que algo vá acontecer caso a sociedade ultrapasse esse tal limite, de 10%. Depois da invenção do “gatilho salarial”[1], nos anos 1980, é provável que nada possa ser tão perigoso como a manutenção dos contratos indexados anualmente à inflação passada[2]. Mas eles não estão vinculados a uma fronteira, seja ela de um ou dois dígitos. Os preços simplesmente sobem todo ano, indexados à inflação passada, faça chuva ou faça sol. Esse é, provavelmente, o principal fator para a manutenção da inflação em patamares elevados desde a última reforma monetária, o Plano Real[3]. E é por isso que uma inflação elevada realmente preocupa: se muitos preços estão indexados, voltar ao patamar anterior implica em enormes sacrifícios para a sociedade[4]. Ao bater mais de 10%, o IPCA acumulado em doze meses não rompe uma barreira (como a do som ou como a das faixas para as alíquotas do imposto de renda). O maior importante é que ele sinaliza que vários preços subirão em 2016 a uma taxa elevada e que isso fará a inflação futura ficar ainda mais alta do que esperávamos um ano atrás[5]. Em dezembro de 2014 o mercado esperava um IPCA para 2016 de 5,70% e hoje espera 6,70%. Essa elevação ocorreu mesmo após a constatação de que estamos diante de uma recessão espetacular e de que ela continuará no ano que vem[6]. Mas isso está longe de ser o fim do mundo.

A inflação se acelerou fortemente nesse ano por conta de dois fatores básicos: a seca e o dólar.

A primeira pressionou os preços de energia elétrica, da água e dos alimentos. Foi a maior seca desde os anos 1960 e seus efeitos sobre o IPCA foram os maiores. A falta de água fez com que a energia elétrica subisse 50,49% até novembro (com impacto isolado de 2,03% no IPCA do ano)[7] e que os alimentos subissem 10,37%. Se ambos tivessem subido pela média dos itens, a inflação teria ficado ao redor de 6%.

A segunda, a desvalorização cambial de 45% no ano, pressionou toda a cadeia de bens e serviços contabilizados no IPCA e, se os estudos econômicos recentes estão corretos, uma boa parte dessa alta de preços de 2015 está associada a ela. Há uma boa chance dos preços terem sido pressionados em algo como 9,5% ao longo dos meses entre janeiro de 2015 e março de 2016[8].

Ora, se a seca, por meio de energia e alimentos, e o câmbio podem ter dado uma contribuição tão elevada à inflação acumulada, o IPCA poderia ter fechado muito acima dos atuais 9,62%. Se isso não ocorreu é porque os preços em geral podem ter sofrido as fortes pressões contracionistas da recessão. Dito de outra maneira: a inflação poderia ter sido MUITO MENOR (na verdade muito abaixo da inflação de 2014) não fosse a seca,  a desvalorização cambial e a indexação da economia. Levando e conta um impacto de 9,5% da SECA e do CÂMBIO e um repasse de 3% da inflação de 5,91% de 2014, o IPCA poderia estar  em 12,5%, fechando 2015 em 14%. (na ausência dos choques da seca e do câmbio, mas com a mesma queda do PIB, ela poderia ter fechado ao redor dos 2%).

Veja o quadro abaixo com  as principais contribuições para a o IPCA de 2015, até novembro:

 

Olhando à frente vemos uma contração do PIB de quase 3% no ano que vem, o que deve contribuir, novamente, para manter os salários acomodados[9]. O dólar pode se manter acomodado até os R$ 4,00 (mas é difícil estabelecer um número, dada a crise doméstica) e o regime de chuvas está dando uma folga, o que pode fazer com que energia elétrica e alimentos tenham contribuições negativas ou muito próximas de zero no primeiro semestre do ano que vem. Com a economia se mantendo em contração, a possibilidade dos agentes repassarem o “resto” da desvalorização cambial aos preços fica muito reduzida.

Dessa forma – desconsiderando os efeitos da crise política sobre o câmbio – a taxa de inflação do ano que vem pode vir bem abaixo do que indicam as expectativas dos agentes. Levando em conta as chuvas e a contração de 2,7% do PIB,  é possível que tenhamos um IPCA bem abaixo das projeções do mercado, de 6,7%. Talvez seja prudente começar com uma estimativa de 5,5%, mas é possível que ela se torne, ao longo do primeiro trimestre, o teto das projeções. Quanto à taxa Selic, ela já está errada há muito tempo. O que importa, de fato, é separar das estimativas o que é ruído político do que é, efetivamente, resultado dos modelos. E os modelos estão subavaliando, ao que tudo indica, o peso do câmbio e da seca sobre as inflações de 2015 (para cima) e 2016 (para baixo).

 


 

[1] Forma encontrada pelos economistas do mainstream para contornar inflações explosivamente elevadas. Em particular, após o plano Cruzado, os salários passaram a ser automaticamente corrigidos após atingirem 20%. Faça uma pesquisa rápida no Google e você se surpreenderá ao ver quais economistas que à época defendiam essa engenhoca heterodoxa. O resultado, claro, é que os salários davam mais força e velocidade à inflação que já estava em trajetória de forte aceleração.

[2] Simonsen, um dos engenheiros da indexação nos anos 1960, via nesse processo algo terrivelmente perverso. Escreveu um excelente livro sobre o assunto: SIMONSEN, M.H. Trinta de anos de indexação; Ed FGV, 1995. (no Estante Virtual: http://www.estantevirtual.com.br/b/mario-henrique-simonsen/30-anos-de-indexacao/2258597072 )

[3] Estou me referindo à manutenção de patamares elevados para a inflação e não aos ciclos de aceleração decorrentes de choques de oferta ou de demanda (salários, câmbio, secas e déficit fiscal).

[4] Leia-se: aos trabalhadores. Os ajustes, via de regra, devem ser feitos via salários e esses só se “ajustam” por meio de elevado desemprego.

[5] A inflação esperada pelo mercado em dezembro de 2014 para o ano de 2016 era de

[6] Trabalho com uma estimativa de queda do PIB de 3,8% em 2015 e cerca de 2,8%.

[7] Se a energia tivesse subido pela média dos preços (exceto a própria energia e alimentos), o seu impacto teria sido de apenas 0,30% e o IPCA estaria em 7,62%. Tirados os efeitos indiretos dos preços energia (a energia elétrica é uma matéria prima fundamental na produção de bens e serviços), o IPCA poderia ter ficado próximo aos 7%.

[8] Utilizei uma média conservadora para os trabalhos analisados por Couto e Fraga: http://www.scielo.br/pdf/rec/v18n3/1415-9848-rec-18-03-00333.pdf .

[9] O BC, em sua Ata da195a. reunião do  Copom, afirma, inacreditavelmente que: “26. No mercado de fatores, como antecipado em Notas anteriores, o Copom observa que a margem de ociosidade no mercado de trabalho tem aumentado em ritmo mais intenso, com dados confirmando a aceleração de um processo de distensão nesse mercado. No entanto, ainda prevalece risco significativo relacionado, particularmente, à possibilidade de concessão de elevados aumentos de salários nominais, com repercussões negativas sobre a inflação. Não obstante a ocorrência de variações reais de salários mais condizentes com as estimativas de ganhos de produtividade do trabalho, o Comitê avalia que a dinâmica salarial permanece originando pressões inflacionárias de custos” . O grifo e o negrito são meus. A Pesquisa Mensal de Empregos do IBGE vem mostrando uma queda contínua do Rendimento Médio Mensal Habitualmente Recebido, o que torna essa afirma, no mínimo, sob dúvida.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com