Uma corrida global contra as commodities

A Anglo American, mineradora global, anunciou um plano de demissão de 50% de seus trabalhadores, venda de 60% de seus ativos e não pagamento dos dividendos. Esse tipo de coisa está acontecendo aqui (Vale, Petrobras e siderúrgicas, por exemplo) e reflete o atual estado de governança global da economia. Enquanto os EUA aumentarão seus juros, Zona do Euro e Japão estão com taxas negativas. E isso vai fazer as coisas piorarem ainda mais.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

A novidade da semana foi o derretimento dos preços das commodities. O minério de ferro e o petróleo estão abaixo dos US$ 40, depois de estrelarem, por anos, a faixa de mais de US$ 120. O cobre, metal importante para “sinalizar” a demanda por matérias primas, despencou 40% de agosto para cá e a soja cerca de 30%. Os preços já estavam despencando há tempos, mas voltaram às manchetes agora: estão arrastando consigo os mercados globais de ações, títulos e moedas.

Hoje a Anglo American, quinta maior mineradora global, anunciou que cortará 50% de seus funcionários, cerca de 85 mil pessoas, venderá 60% de seus ativos (minas e equipamentos) e não pagará dividendos. O desempenho anual das mineradoras é assustador: Rio Tinto, -35%, Anglo American, -72%, BHP, -38% e Vale do Rio Doce -60%. O índice CRB, que calcula o valor em dólares de uma cesta de commodities, caiu cerca de 17% até o início do mês e mais de 1/3 desde 2011, veja o gráfico:

As bolsas globais estão em derretimento:

 

As quedas de commodities sinalizam uma total falta de coordenação das políticas econômicas dos principais países. Enquanto os EUA estão se preparando para subir seus juros básicos no próximo dia 16, Europa e Japão estão com juros negativos para os depósitos bancários. Com os juros americanos subindo, as moedas se desvalorizam em relação ao dólar e isso produz dois eventos: os preços das commodities, que são cotadas em dólares, caem, e isso produz queda dos preços dentro dos EUA. A inflação dos EUA está em quase 0%, mas se você retirar os efeitos dos alimentos e da energia (commodities), ela sobe para 1,8%, bem perto da meta do Federal Reserve. E é por isso que o FED pretende subir os juros na semana que vem: a inflação está chegando perto da meta. Ocorre que se os preços internacionais continuarem a cair, os preços dos EUA também cairão[1] e a alta dos juros acabará por produzir uma deflação indesejada e altamente perigosa.

Por outro lado, as commodities estão caindo por conta do descompasso entre a oferta e a demanda (o mundo está crescendo muito pouco), como um choque primário, e por conta da valorização do dólar, como um choque secundário. E como nenhuma dessas duas causas está sob controle, provavelmente esse movimento continuará. Além disso, o derretimento das commodities não enfraquece apenas a economia dos EUA, ela enfraquece todas as economias emergentes, que são altamente dependentes das exportações, e acaba por produzir mais um ciclo de desaceleração da economia global.

Considere ainda os efeitos dessa desaceleração, que também conta com a alta dos juros paras as dívidas corporativas, sobre a capacidade das empresas dos países emergentes em arcar com o serviço e as amortizações de suas enormes dívidas, feitas ao longo dos últimos anos e que já somam mais de US$ 3 trilhões.

Essa espiral deflacionária, que atinge as moedas, os preços dos títulos privados, as ações e os ativos de capital em geral[2], tende a piorar e pode tornar o tão desejado POUSO SUAVE da política do Federal Reserve dos EUA, em mais um POUSO FORÇADO.

Um conselho prudente: fique fora dos ativos relacionados às commodities, pois o que está ruim ainda tem espaço para piorar muito.

 

 


 

[1] A queda da inflação por conta da queda dos preços das commodities é um choque primário (de primeira ordem). Mas ele não ocorre sozinho: com a sua queda os salários e os preços em geral também caem, e esse é um choque secundário (de segunda ordem).

 

[2] A maior parte das empresas dos países emergentes está reduzindo seus gastos com investimentos (CAPEX) e se desfazendo de ativos (máquinas, equipamentos, participações, etc...).

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

Deixe seu comentário

Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com