Um mercado híper-racional?

A China divulgou os dados da balança comercial de outubro e eles revelam a contínua queda da demanda doméstica chinesa e do comércio global. Reagindo de forma exageradamente otimista, os mercados passaram a apostar em um novo plano chinês para reforçar sua economia em direção à meta de 7% de crescimento nesse ano. Mas não há razão alguma para essa “festa”.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O governo chinês divulgou nessa madrugada o resultado da balança comercial de outubro e eles superaram as projeções mais pessimistas. As importações, acumuladas em doze meses, caíram 16%, enquanto as exportações caíram 3,6%. O saldo comercial do país atingiu um recorde de US$ 61,9 bilhões e reflete, em um aparente paradoxo, a fraqueza da segunda maior economia do planeta.  Veja o gráfico das exportações e importações chinesas em % de crescimento em 12 meses:

Como a atividade econômica da China está caindo a taxas elevadas, as suas importações contraem rapidamente. Esse é o recado bem ruim do dado da balança comercial chinesa. Como o Brasil depende bastante do crescimento chinês (em particular a Vale do Rio Doce e as siderúrgicas), essa notícia é mais um peso para a difícil situação econômica do país. Outro lado do saldo comercial: apesar de caírem menos que as importações, as exportações continuam caindo. Essa queda das exportações mostra que a economia global também está em um processo de crescimento lento. Mais uma vez uma má notícia.

Mas a reação dos mercados tem sido, como na maior parte das vezes, surpreendente.  Uma parcela importante dos agentes teve uma reação “hiper-racional”. Eles entenderam que a contínua queda da atividade chinesa “obriga” o governo chinês a tomar mais medidas para recuperar sua economia. E como isso deve acontecer rápido, as bolsas devem subir; se elas subirão, é melhor comprar do que vender ações nesse momento ruim. A “hiper-racionalidade” vem dessa antecipação do mercado a um fato que não é tão trivial assim. Se o governo agir, muito provavelmente os resultados serão tão limitados como os obtidos até aqui já que, afinal, o governo chinês já vem tentando estimular sua economia para que ela cresça os 7% que são a meta do governo. Mas é provável que os agentes não estejam preocupados com a queda da atividade em si, nem com a eficiência de um suposto plano de ação chinês. O mercado deve estar apostando nos efeitos positivos que o anúncio de um plano deve ter sobre os mercados, tal como o anúncio da semana passada, feito por Mário Draghi, de que o BCE continuará fazendo o que for necessário para que a Zona do Euro volte a crescer. As bolsas europeias subiram fortemente depois desse novo whatever it takes de Draghi. É provável que os agentes tenham repetido essa fórmula para a China, e não foi a primeira vez. Mas o provável é que os mercados cedam à pressão cada vez mais forte dos eventos que mostram a fraqueza da economia global.

Do outro lado, como uma reação ao fato de que o FED deverá mesmo subir os juros em dezembro[1], e isso tem pressionado a maior parte das moedas e das dívidas. Os juros de dez anos dos EUA estão em alta desde a semana passada. Mesmo que aparentemente modesta, essa alta é capaz de afetar as dívidas de outros países (Brasil inclusive), as dívidas corporativas, os mercados de moedas e, por fim, as bolsas. Veja o gráfico dos títulos de dez anos:

Veja que nas últimas semanas os juros saíram de 2% para os atuais 2,4%.  A mesma coisa aconteceu com os títulos privados. Veja as taxas calculadas pela agência Moody´s para títulos de Corporações com nota de risco Baa:

Apesar do mercado já ter antecipado uma forte alta desde março para outubro (de 1%), nas  últimas semanas as taxas voltaram a se acelerar. Isso indica que o dinheiro para as Corporações está mais caro e, como consequência, somente os projetos mais rentáveis deverá ser realizados. É um passo na direção da redução dos investimentos.

Se essa alta dos juros vai virar um novo corre-corre ou não é difícil de saber. A única coisa certa é que os dados da China mostram que não há razão alguma para festejar.

 

 

 


[1] Ainda não estou convencido de que as chances dessa alta sejam maiores que 50%, já que os dados do mercado de trabalho dos EUA de outubro, divulgados na semana passada, podem ser um ajuste nos dados mais fracos de setembro. Pode ser que eles voltem a cair em novembro. Além disso, devemos observar a evolução dos mercados globais nos próximos trinta dias. As taxas de juros das dívidas públicas e privadas estão subindo. Não é impossível que essa alta assuma um padrão desordenado e que Acabe por contaminar os mercados acionários e de moedas.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com