A produção industrial já cai mais de 7% em 2015

Com a queda simultânea do Consumo das Famílias, Gastos do Governo e Investimentos privados, a indústria caiu 1,3% em setembro e acumulou queda de 7,4% no ano. Mesmo com a ajuda do câmbio, que melhora a competitividade da indústria brasileira, o setor deve amargar uma queda de mais de 9% em 2015. Em 2016 a queda será menor, mas ainda haverá queda.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

 Ontem o Ibovespa fechou a 48.053 pontos e marcou uma das grandes altas dos últimos tempos. Houve uma convergência de fatores para esse movimento: a forte alta das bolsas internacionais, a alta de mais de 4% no petróleo, a aquisição do segmento de cosméticos da Hypermarcas pela Coty, por R$ 3,8 bilhões, pela provável fusão/aquisição entre a Bovespa e a Cetip e, finalmente, pela cobertura de enormes posições vendidas. O IBOVESPA passou a acumular uma queda de 4,0% no ano. A melhora dos mercados acionários contagiou o câmbio que caiu a R$ 3,80 e os juros que caíram a 15,38 para fevereiro de 2017. Vale registrar que um percentual importante das ações mais negociadas registrou altas meteóricas, como a Petrobrás (+12%), CSN (+16%), Hypermarcas (+21%), Itaú (+6,4%), Cetip (+8%) e BM&FBovespa (+8%).

Hoje o mercado pode apresentar um cenário positivo, mas há nuvens no horizonte:

  •      A produção industrial de setembro mostrou, uma vez mais, o derretimento da atividade econômica brasileira; 
  •    Os balanços anunciados hoje vieram com resultados para lá de ruins (Equatorial, TIM, BR Properties, Valid, Marcopolo e Porto Seguro). Salvaram-se, por enquanto, Multiplus e Banco Pan. Ao final do pregão serão anunciados: Eletropaulo, BTG, AES Tietê, PDG e Ultrapar.
  •          Dirigentes do FED falarão hoje e isso tem deixados os mercados de moedas e juros inquietos. Yellen fala às 10:00hs (13 hs daqui) , Willian Dudley às 14:30 (17:30 hs daqui) e Stanley Fisher às 18hs (21hs daqui). Eles podem colocar, uma vez mais, a possibilidade de elevação dos juros nos EUA no final do ano e isso, apesar de sabido pelo mercado, assusta um pouco.
  •    Às 10:30 hs dos EUA (13:30 hs daqui), a agência americana EIA| anuncia os estoques de petróleo e isso vai mexer mais com o mercado.

Logo, a euforia de ontem, que deve continuar hoje, não será imune às tradicionais chacoalhadas decorrentes dos dados da economia real.

Agora a produção industrial de setembro: ela caiu 1,3% no mês e 7,4% no acumulado do ano. Veja a tabela com os principais grupos:

Os Bens do Consumo vem sendo pressionados para baixo pela queda da renda das famílias, em função do forte desemprego (mais de 700 mil empregos formais foram eliminados até setembro) e da queda da renda em função da forte inflação.  Os bens não duráveis são os menos sensíveis, porque associados às necessidades básicas, mas ainda assim registram queda de 7,1% no ano. Os Bens de Consumo Duráveis respondem mais imediatamente a esses eventos do ciclo econômicos e tiveram queda acumulada de 15,7% no ano. Esse é o reflexo do sacrifício das famílias ao longo dessa crise que pode levar o PIB cair mais de 3,5% nesse ano. Os Bens de Capital refletem as decisões de investimentos feitas pelas empresas e pelo setor público e estão com queda acumulada em 23,6% no ano. Como os investimentos têm um forte componente multiplicador sobre a economia, sua retração implica em forte queda da atividade econômica. Mais que isso, a queda dos investimentos implica em redução do potencial produtivo do país no futuro próximo o que torna ainda mais grave a situação atual. Todas essas quedas são fortemente aceleradas pela retração do crédito às famílias, às empresas e ao governo (via corte de despesas). Veja o gráfico da produção industrial:

Uma vez mais, essa queda da produção industrial faz parte do “ciclo vicioso” que arrasta o PIB, a renda das famílias e os empregos para um precipício tenebroso. Boa parte da queda iniciada antes de 2013 pode ser associada à valorização cambial e aos juros elevados, que tornavam a competitividade nacional muito baixa em relação ao resto do mundo. Mas a partir de 2013 uma imensa coleção de fatores passou a “amassar” a indústria nacional. Para o mercado, segundo o Boletim Focus do BC de ontem, a queda da indústria nesse ano será de 7% e em 2016 de 2%. Acredito que é mais provável que esse número chegue aos 9% - 9,5% nesse ano, para dar uma melhorada do ano que vem, com uma queda ao redor dos 3%.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com