FED sinaliza para o aumento da probabilidade de alta do juro em dezembro

Ontem o Federal Reserve dos EUA terminou a sua reunião de política monetária e manteve os juros básicos (fed funds) próximos à zero. Mas em seu comunicado à imprensa o Comitê deu alguns sinais que foram interpretados pelo mercado como avisos de que os juros podem subir em dezembro.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Ontem o Federal Reserve dos EUA terminou a sua reunião de política monetária e manteve os juros básicos (fed funds) próximos à zero. Mas em seu comunicado à imprensa o Comitê deu alguns sinais que foram interpretados pelo mercado como avisos de que os juros podem subir em dezembro. Duas mudanças no comunicado de ontem em relação ao comunicado de setembro foram detectados:

  • Em setembro, após as fortes quedas das bolsas globais os diretores pontuaram suas preocupações no segundo parágrafo: “Os recentes desenvolvimentos financeiros e econômicos podem restringir a atividade econômica um pouco e são suscetíveis de colocar ainda mais pressões baixistas sobre a inflação no curto prazo”. No comunicado de ontem essa passagem foi retirada, indicando que o FED está mais confiante no sentido de que as pressões do exterior estão contidas. Mante apenas um aviso de que está monitorando a situação global.
  • Desde há alguns meses o Comitê vinha avisando: “Para dar suporte ao progresso contínuo em direção ao máximo emprego e à estabilidade de preços, o Comitê reafirma hoje sua visão de que o nível atual de 0% a 0,25% para os fed funds se mantem apropriado. Para definir quanto tempo manterá esse seu intervalo meta, o Comitê irá avaliar o progresso – tanto o realizado como o esperado – em direção aos seus objetivos de máximo emprego e inflação de 2%. Essa avaliação levará em conta uma vasta gama de informações, incluindo medidas das condições do mercado de trabalho, indicadores de pressões inflacionárias e expectativas de inflação e avaliações sobre a evolução das condições financeiras e internacionais (...) ”.  No comunicado de ontem o Comitê colocou uma mudança: “Para dar suporte ao progresso contínuo em direção ao máximo emprego e à estabilidade de preços, o Comitê reafirma hoje sua visão de que o nível atual de 0% a 0,25% para os fed funds se mantem apropriado. Para definir SE SERÁ APROPRIADO ELEVAR A META DOS FED FUNDS NA PRÓXIMA REUNIÃO, o Comitê irá avaliar etc...”

A retirada da menção às severas condições externas e a introdução de “SE SERÁ APROPRIADO ELEVAR A META DOS FED FUNDS NA PRÓXIMA REUNIÃO” foram  suficientes para o mercado entender que a probabilidade de elevação dos juros na reunião de dezembro efetivamente subiu. Mesmo que o FED se mantenha cauteloso no sentido de avaliar todos os elementos do mercado de trabalho e acerca da inflação (a observada e a esperada), os agentes preferiram contemplar nos preços o aumento de probabilidade, antes bem menor. Com a possibilidade dos juros básicos subirem, os juros mais curtos, de três anos dos títulos do tesouro dos EUA também subiram[1], veja o gráfico:

Juros dos títulos de três anos dos EUA

 (barras de 60 minutos)

 

Note que após a reunião os juros saltaram de 0,90% para 1,05%. Essa “acomodação” dos juros responde ao aumento da probabilidade da elevação dos FED FUNDs em dezembro.

Na esteira dessa correção também foram atrás os juros de dez anos, as moedas[2]commodities a ações. Todo o cuidado do FED é pouco para evitar o pior: elevar os juros e provocar uma forte valorização do dólar, queda das commodities e queda das bolsas. Essas correções fariam a economia dos EUA voltar à recessão rapidamente. 

Apesar da ansiedade de boa parte dos analistas de Wall Street para o retorno à “normalidade”  (juros básicos de 3,5% - 4,5% e estoque de moeda de US$ 800 bilhões- US$ 1 trilhão), a aproximação da inflação à meta de 2% ainda está longe de ser real (a inflação medida pelo Índice PCE está próxima de 1,5%), veja o gráfico:

 E, como já falado em “post” anterior (http://pepasilveira.blogspot.com.br/2015/10/o-fed-nao-subira-os-juros-na-quarta.html ), o mercado de trabalho continua reagindo muito lentamente aos estímulos do FED. Ainda que a probabilidade da alta em dezembro tenha subido, ela não está, definitivamente, garantida.

 

 

 

 


[1] As taxas de juros de curto e longo prazo dos títulos do tesouro são formadas a partir das estimativas dos agentes em relação ao comportamento dos juros básicos. Assim as taxas de três anos são compostas pela “soma” de todas as taxas básicas diárias definidas pela política monetária do FED. Na verdade não pela “soma”, mas pela composição das mesmas. O mesmo vale para os muros mais longos, de dez anos.

[2] Juros mais elevados nos EUA fazem com que o dólar se aprecie contra as outras moedas.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com