O FED não subirá os juros na quarta-feira

O Comitê de Política Monetária do FED, o Banco Central dos EUA, anuncia amanhã sua decisão acerca dos juros. Apesar de todas as melhoras obtidas a partir do programa de estímulos Quantitative Easing, a recuperação da maior economia do planeta não convence a todos que é sustentável. Há um risco potencial de que o aumento dos juros possa abortar a recuperação e colocar a economia em recessão. Por isso é provável que o FED deixe a porta aberta para não subir os juros em dezembro.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Amanhã começa a reunião do Comitê de Política Monetária do FED, o Banco Central dos EUA. É esperado os diretores da instituição sinalizem que subirão a partir de dezembro. O programa de estímulo monetário feito pelo FED, o Quantitative Easing, além de expandir a quantidade de moeda disponível na economia, em cerca de US$ 3,9 trilhões, manteve os juros em zero desde o final de 2008. Veja o gráfico dos juros primários dos EUA:

Veja que apesar de oscilarem muito - um extremo mínimo de 0,5% em junho de 1958 e um máximo de 19% em junho de 1981 – as taxas básicas reais nunca saíram da faixa de 0,5% a 2,5%, a não ser em curtos espaços de tempo. Já fazem sete anos que os juros básicos estão perto do ZERO e muita gente, nos meios empresariais, políticos e acadêmicos espera pela “normalização” das taxas de juros. É verdade que, diante do quadro acima, o “normal” seja uma coisa mais idealizada do que efetivamente observada. Mas há uma grande pressão para que os diretores do FED comecem a subir os juros para conter os riscos inflacionários que podem aumentar em um futuro muito próximo. A ideia é que juros muito baixos e muito dinheiro na economia produzem inflação e não recuperação da economia. Mas não é tão fácil assim para diretores subir os juros sem o forte receio de que a alta atual dos juros pode abortar a frágil recuperação da economia dos EUA.

Ainda que a economia tenha reagido muito bem aos estímulos monetários gigantescos, alguns indicadores mostram que essa recuperação não é sustentável. É possível que a retirada dos mesmos faça com que a economia americana mergulhe em uma nova e duradoura recessão. Os indicadores de que o Quantitative Easing está funcionando estão no mercado imobiliário, no mercado de ações, nos mercados de crédito e no mercado de trabalho, por exemplo. Veja o gráfico dos preços dos imóveis, medidos pelo índice Case-Schiller:

Após despencar 67% ao longo da crise, ele recuperou boa parte das perdas e ainda ficou longe de seu pico, de 2006, o que é bom, afinal eles foram o sinal mais forte da enorme bolha que causou o pânico financeiro global de 2008. O mesmo vale para as ações, medidas pelo índice S&P500:

Após a queda de mais de 60% na crise, o mercado acionário está com seus preços em um patamar 30% superior ao topo atingido antes da crise. As ações estão nos preços mais altos de toda a história e isso resulta, é evidente, dos juros muito baixos, mantido por muito tempo. Ações em alta estimulam os investimentos privados por efeitos que não discutirei aqui[1]. Mas essa recuperação espetacular dos “ativos de capital” fez com que uma parcela da população tivesse de volta toda a riqueza que perdeu e mais um pouco. Trilhões de dólares voltaram aos ativos de empresas e famílias. E o mercado de trabalho,  cuja taxa de desemprego explodiu para 10% em 2009, retornou a uma taxa considerada moderada, de 5,1%, veja o gráfico:

Note que a taxa de desemprego oscila fortemente e que a taxa ainda está acima de seu mínimo, atingido em set/2000, de 3,9%. Mas, de toda a forma, a sua queda foi rápida e resultou a criação de milhões de vagas, desde 2009. Vejas o gráfico do total de empregados civis em empregos urbanos:

O total de pessoas empregadas caiu de 138,8 milhões em junho de 2008 para 129 milhões em janeiro de 2010. A partir daí a criação de novas vagas conseguiu fazer que o total de pessoas tralhando superasse o máximo, de antes da crise.

Mas, apesar de todos esses indicadores de força da economia, fruto de um enorme programa monetário de estímulo, há fortes indícios de que a recuperação não foi tão intensa como imaginado. Em primeiro lugar, a quantidade de gente empregada em empregos de baixa qualidade (baixa remuneração, baixa produtividade e meio período) é enorme. Esse tipo de emprego, altamente precário, ocupa hoje milhões de trabalhadores americanos. Além disso, uma quantidade enorme de gente entrou em idade de trabalhar e não foi ao mercado de trabalho. Ao contrário, a relação ente o total de pessoas no mercado de trabalho (trabalhando ou procurando emprego) caiu de 67,3% antes da crise para os atuais 62,4%, veja o gráfico:

Veja que a taxa está no nível que estava nos anos 1970 e que se ela voltasse ao patamar pré crise, de 67,3%, a taxa de desemprego subiria para 10% novamente. Esse dado do mercado de trabalho é indicador de que a recuperação pode não ter sido tão sustentável como querem crer esses setores que hoje pressionam pela alta dos juros básicos. A prova de que o mercado de trabalho ainda está em um patamar ruim é o aumento dos salários. Se os salários sobem é porque a demanda por trabalho está firme e que as empresas estão disputando trabalhadores no mercado. Mas não é isso que está acontecendo, ao contrário. Os salários estão subindo muito pouco, bem abaixo da inflação e da produtividade. Os trabalhadores que conseguem seus empregos de volta têm salários muito menores do que tinham antes de serem mandados embora. Veja o comportamento dos salários:

Eles estão subindo a taxas próximas de 2% ao ano. Considere o aumento da produtividade, da ordem de 0,6% e então eles estão aumentando, em termos reais, em cerca de 1,5% ano, quase o núcleo da inflação. E falando em inflação, veja o gráfico com a inflação, medida pelo núcleo, que exclui energia e alimentos:

A inflação está e 1,8% em doze meses, retirados os preços dos alimentos e da energia. Com isso, os salários não estão subindo em termos reais e nem a inflação atingiu a meta do FED, que é de 2% no longo prazo. Se é verdade que ela está próxima, é tão verdade que ela se aproxima “por baixo” e que se manteve abaixo de 2% a maior parte do tempo depois da crise. Não há um sinal de que os riscos de inflação sejam de inflação alta, ao contrário, são os de que a inflação caia demais.

Com esses dados em mente, mostrando os riscos mais acentuados para a recessão/deflação do que para o superaquecimento/inflação, se o Federal Reserve subir as taxas de juros cedo demais ele poderá produzir uma nova queda do ritmo de atividade ou, quem sabe, uma nova recessão. É por isso que acredito que o FED repetirá amanhã o que tem feito desde o ano passado. Irá deixar as portas abertas para não fazer nada em dezembro, à espera de uma melhora convincente dos dados da economia.

 

 

 


[1] Já citei os trabalhos de J.Tobin/W.Brainard sobre o tema: “Asset markets and the cost of capital” (http://dido.econ.yale.edu/P/cd/d04a/d0427.pdf ) e “General equilibrium approach to monetary theory” (http://down.cenet.org.cn/upfile/34/20041025232332178.pdf).

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com