O Brasil pode perder mais de R$ 2 trilhões de renda até 2017

O BC decidiu manter a taxa básica inalterada em 14,25%. Por mais que muitas pessoas possam considerar essa “falta de ação” prejudicial à credibilidade do BC, tudo indica que ele fez o que era possível no momento. Considerando os dados atuais, é possível que tenhamos mais de 2,5 milhões de pessoas perdendo o emprego nesse ano e um a perda de renda que, em termos relativos, pode chegar a mais de R$ 2 trilhões até 2017.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O Comitê de Política Monetária do BC decidiu manter inalterada a taxa SELIC em 14,25% em sua 194ª reunião. No comunicado à imprensa – que já é parte integrante da comunicação do BC com a sociedade[1] - o BC produziu uma pequena modificação em relação ao anterior. No anterior, de 02 de setembro, e os diretores afirmaram que manter a taxa básica nesse nível era necessário para fazer com que a inflação convergisse à meta no final de 2016. Ontem os diretores substituíram “final de 2016” por “horizonte relevante da política monetária”. Com “o horizonte relevante da política monetária” é, segundo a bibliografia especializada, de dois anos, o BC afirma esperar que a inflação caia para 4,5% em 2017. E essa mudança de planos já levou alguns a afirmar que o BC perderá credibilidade.

Ocorre que estamos diante de dois eventos que tornam a vida do formulador de política um pesadelo: dois enormes choques de oferta (a explosão da taxa de câmbio e a super-seca que assola o país desde 2013) e uma enorme crise de confiança.

Os choques de oferta fazem com que os preços subam em ritmo muito acelerado e a crise de confiança gera uma enorme recessão associada à piora das condições fiscais. Se os dois primeiros pressionam os preços para cima, os segundos contribuem para jogar o PIB para baixo. O BC, em um Sistema de Metas de Inflação, segue uma regra de política monetária que tenta equilibrar os pesos entre o desvio da inflação em relação à sua meta e o desvio do PIB observado e o PIB de pleno emprego (hiato do produto). Se a inflação se desvia da meta, o BC eleva os juros, o que aumenta o hiato do produto, reduzindo as pressões inflacionárias, permitindo que a inflação retorne à sua meta.

Como os preços estão subindo por conta de dois choques de oferta, o papel da política monetária deve ser o de combater os efeitos secundários desse choque, de sorte a evitar que essa alta de preços se propague por toda a economia. Mas quando temos uma forte recessão, a necessidade de aperto da política monetária é menor, já que o hiato do produto aumenta rapidamente.

Levando em conta as taxas de crescimento passadas e as possíveis taxas para os próximos trimestres, o maior risco é o de uma queda maior do que a imaginada do que uma explosão da taxa de inflação. Veja o comportamento do PIB:

O primeiro é o gráfico da variação entre quatro trimestres sobre os quatro trimestres anteriores. É a taxa anual do PIB e veja que ele está em declínio desde 2013. O fundo do poço, tudo indica, será no primeiro trimestre do ano que vem, com -5,37%. O segundo mostra a variação da taxa de um trimestre contra o outro e reflete o nível de atividade de forma imediata. Trabalhei com a hipótese básica de contração da atividade até o meio do ano que vem, com o PIB crescendo a partir do terceiro trimestre, modestamente, em 0,1%. No gráfico de cima estão colocadas em linhas tracejadas, vermelhas, as trajetórias mais otimistas e mais pessimistas para o PIB anual. Mas de uma coisa podemos estar certos: a queda é muito forte, qualquer que seja o cenário.

Se a taxa de crescimento do PIB, entre 2014 e 2017, fosse a da média de 1990-2013, ou 2,87583%, o PIB total, a valores de hoje, seria de R$ 6,175 trilhões em 2017. Crescendo às taxas do “cenário base” do gráfico acima - ou -3,5% em 2015, -2,5% em 2016 e +2,08% em 2017 – o PIB chegaria a R$ 5,324 trilhões, quase 16% a menos do que deveria ser à sua média histórica. A perda nesse cenário, em termos de renda, seria de R$ 2,315 trilhões, dinheiro demais para um país de renda média, com cerca de dez milhões de pessoas vivendo com menos de US$ 1,90 por dia.

Apesar dos erros cometidos no passado recente, tudo indica que a decisão do BC é mais do que correta, já que com juros reais ex ante rodando perto de 9% e cerca de dois milhões de pessoas perdendo o emprego só nesse ano, não há muito mais o que fazer.

 


[1] No Sistema de Metas de Inflação a comunicação com a sociedade é fundamental para permitir que as expectativas dos agentes sejam definidas com bases mais sólidas. Com mais sólidas digo transparentes, claras e que permitam que todos os agentes tenham a mesma percepção em relação à política monetária. Evita-se, ou tenta-se evitar, que as expectativas dos agentes se formem de forma heterogênea ou assimétrica, o que seria ruim para os resultados práticos da política monetária.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com