A produção de veículos despencou 40%

A situação do mercado automobilístico é exemplar para o que acontece na economia como um todo: na relação dos salários e empregos com a demanda; no papel contracionista que o crédito está exercendo e no impacto da queda da produção sobre o emprego e renda em todo o país.  E como em todas as questões que abordamos, a situação pode piorar ainda mais.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

A Anfavea, associação dos fabricantes de veículos automotivos, divulgou os dados da produção de setembro e elas mostram um quadro coerente com o da economia em geral. A produção caiu 40% desde seu pico em 2013, de quatro milhões de veículos para dois milhões e quatrocentos, pela média mensal de seis meses anualizada. Veja o gráfico:

A queda atual nos fez chegar ao fundo do poço atingido logo após a crise de 2009 e há vários fatores que contribuem para a queda da produção. A demanda por veículos dependente fortemente da renda das famílias.  Se a renda das famílias está em queda, é porque a inflação está subindo e o desemprego elevado impede que os trabalhadores (e autônomos) recuperem as perdas em termos reais. O rendimento real das famílias das maiores cidades do país caiu quase 7% desde seu pico, veja o gráfico:

Essa queda dos rendimentos reais das famílias é dramática e, se realmente representa uma tendência nacional, está indicando indica que a queda do PIB é forte.  Ao verem seus empregos e seus rendimentos em queda, as famílias tendem a recuar em suas decisões de consumo, sobretudo do consumo de bens duráveis. Como são bens de alto valor, sua aquisição compromete a renda futura, seja por meio do crédito, seja por meio da utilização da poupança. Em momentos de alta incerteza, tal com o que vivemos hoje, as famílias tendem a reduzir drasticamente essas compras. Daí que se explique a queda atordoante da produção de veículos[1].

Ajuda a acelerar a queda da produção o encolhimento do crédito que, como dito no parágrafo anterior, é fundamental para que as famílias e empresas comprem esses bens. Veja a queda da oferta de crédito para as vendas de veículos:

Do pico atingido em 2012, de R$ 244 bilhões, a oferta de crédito caiu para R$ 192 bilhões, em uma contração de 21%.

A situação do mercado automobilístico é exemplar para o que acontece na economia como um todo: na relação dos salários e empregos com a demanda; no papel contracionista que o crédito está exercendo e no impacto da queda da produção sobre o emprego e renda em todo o país.  E como em todas as questões que abordamos, a situação pode piorar ainda mais.

 


[1] Vale a pena lembrar que o governo reduziu drasticamente o IPI para o setor em 2012. Foi uma tentativa de sustentar a demanda do setor e implicou em bilhões de reais em renúncia fiscal. A tentativa de sustentar o setor falhou, como seria de se prever, e ajudou a compor o déficit fiscal que hoje detona a credibilidade da política econômica. Foi uma forma caríssima de comprovar que, em momentos de queda da demanda,  não se deve dar incentivos a quem não vai gastar.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com