A Mineração Global em Derretimento

A Glencore caiu mais de 25% em Londres e sinaliza o quão profunda é a crise dos mercados emergentes. As consequências para o mundo desenvolvido já estão fazendo o FMI, uma vez mais, mudar para baixo suas expectativas para o crescimento global e devem retardar o dia em que FED começará a elevar os juros. O Brasil deve continuar a ver a Bolsa derretendo e juros e câmbio em alta forte.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Os mercados estão em derretimento, reagindo à piora dos dados correntes e das perspectivas para a economia global. Na China, as empresas do setor industrial tiveram uma queda de 8,5% em seus lucros em relação a agosto do ano passado segundo relatório divulgado hoje pela agência de estatísticas do governo. Ao longo da semana serão divulgados os dados de produção industrial do país em setembro e espera-se uma nova contração. O próprio FMI pode divulgar, segundo entrevista de Cristine Lagarde a um jornal francês, uma redução das estimativas das taxas de crescimento global de 2015 e 2016.   Ela alerta que as estimativas de 3,3% e 3,8% já não são mais realistas, já que os problemas nos países emergentes continuam a aumentar.

 Aqui no Brasil o mercado assimila a divulgação do novo boletim Focus, que elevou o IPCA esperado para 9,46% em 2015 e 5,87% em 2016. A taxa de crescimento foi revisada uma vez mais para baixo, para -2,80% em 2015 e -1,0% em 2016. Também é manchete de jornal, a perspectiva de piora da situação financeira das empresas por conta da desvalorização cambial. Agora os agentes estão “acordando” para o fato de que o setor privado brasileiro possui uma dívida externa da ordem de US$ 421 bilhões, que inclui a da Petrobrás. A petroleira tem exposição cambial em seu balanço de cerca de R$ 51 bilhões e, levando em conta a desvalorização do real de 30/06/2015 até agora, ela pode ter um prejuízo financeiro de mais R$ 13 bilhões com sua dívida. De forma geral, o setor privado terá um prejuízo, com o dólar a R$ 3,99, de R$ 143 bilhões nesse trimestre, com algumas podendo compensar essa perda com suas exportações em dólares e outras não. Esse valor corresponde a cerca de 2,4% do PIB de 2015 (eu o estimei em R$ 5,8 trilhões). Essa atuação do dólar frente às dividas privadas (e sobre a inflação!), já vem ocorrendo desde que ele inverteu a trajetória de valorização nominal em 2011. Veja o gráfico da perda anual de valor do real:

A retomada do pessimismo em escala global afetou duramente as ações de empresas mineradoras. As ações da Glencore Inc, uma das maiores empresas de minério do mundo, caíram mais de 25% em Londres, completando um ciclo de derretimento de 75% em 2015. Veja o gráfico com as quedas do setor:

Os mercados foram muito mais severos com a Vale, derrubando suas cotações a partir do ano passado. Mantiveram cautelas com suas concorrentes, apostando que a diversificação dos produtos será capaz de segurar a geração de lucros. Como a Vale tem grande concentração no minério de ferro, as outras acabaram sendo poupadas. A partir de julho, no entanto, com as quedas generalizadas dos preços das commodities e a confirmação da desaceleração intensa da China, as ações passaram a cair. A Glencore, em particular começou a apresentar prejuízos elevados e, por fim, um plano de reestruturação com vendas de ativos para reduzir sua pesada dívida. O setor está em queda livre e deve levar consigo outros.

A questão da desaceleração dos emergentes tem sido tratada de forma “marginal” pelos formuladores do FED. Eles dizem que ficam de olho nos preços, na atividade econômica e nos empregos  dos EUA. Os outros fatores não são levados em conta para o estabelecimento da política monetária. Mas a desaceleração dos emergentes afeta a economia dos EUA pelos preços, ao produzir uma redução dos índices de inflação e impedir que a mesma chegue à meta de 2%, e pelo comércio internacional, que pressiona as vendas de bens produzidos nos EUA e, por isso, o nível de atividade.

E é com essas notícias que começamos a semana. Não há porque esperar uma melhora para a Bosa, para o câmbio e, tampouco, para os juros.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com