O Japão e a Roda da Fortuna

A queda acelerada dos preços no Japão e a redução das estimativas para o crescimento do PIB em 2015 ajudaram a empurrar as ações do índice Nikkei para baixo nas últimas semanas.  Mas o pessimismo é tão grande que os agentes de mercado apostam todas as fichas em novos pacotes de estímulo na China e no Japão. E essa crença contagiou as bolsas globais em mais um novo ciclo de euforia. Só o Nikkei subiu 7,7%.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

A onda de euforia iniciada na segunda sobrevive. O motivo pode parecer pouco razoável: a situação de alguns países é tão ruim que não pode piorar, o que obriga alguns governos a fazerem alguma coisa. Essa é a “racionalidade” por trás das altas exuberantes das bolsas ao redor do mundo. O caso mais espetacular dessa credulidade dos mercados é o Japão. O país está imerso em uma longa era de estagnação econômica, que alterna períodos de baixíssimo crescimento com deflações, sem conseguir uma saída. São mais de duas décadas de frustração e diversas tentativas para desatolar a economia. Veja o gráfico dos preços no Japão:

Após a enorme bolha de ações e imóveis dos anos 1990, o Japão passou a conviver com taxas de crescimento medíocres e ondas de deflação que fizeram das vidas dos formuladores de política um pesadelo sem fim. Até hoje não há uma explicação consensual sobre a estagnação, mas o atual primeiro ministro, Shinzo Abe, tentou reverter essa tendência ao estabelecer a Abenomics, uma política de estímulos que recebeu o nome de “Plano das Três Flechas”: reformas trabalhistas, aumento dos impostos para reduzir a relação dívida/PIB e expansão monetária (quantitative easing). Comentei aqui no Blog em 17/11/2014: http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/11/japao-e-europa-comprovam-que-as.html . Apesar de ter animado os mercados, turbinando uma alta de 130%  no índice NIKKEI, ela foi incapaz de mover a economia em uma nova direção.  Veja o gráfico das taxas de crescimento do Japão:

Apesar de ter umas das mais dinâmicas economias do século XX, o Japão cresceu a uma média de 0,7% ao ano no período de 1990-2014. Após ter uma contração no ano passado, espera-se que a economia cresça 0,8% nesse ano.

O gráfico da inflação mostra claramente a nova queda dos preços, em um possível mergulho para a deflação e isso tem assustado.  E é daí que resulta a profunda esperança dos mercados em uma pronta atuação tanto do governo japonês, como do chinês. Ainda que o governo possa anunciar qualquer medida nos próximos dias, tudo indica que o mercado se aproveita claramente do que poderiam ser “preços deprimidos demais”. Os indicadores de mercados, como a relação entre Preços e Lucros, Valor de Mercado e Fluxo de Caixa, apresentam patamares abaixo da média histórica. Com os grandes investidores globais fugindo do risco, qualquer rumor em torno de uma reversão dos movimentos de queda proporciona esses saltos. É o que alguns chamam de “sentimentos do mercado”. E eles movem a roda da fortuna[1]. As altas superam os 2% na Europa, puxam as bolsas dos EUA e a combalida bolsa brasileira.


 

[1] É uma referência ao livro de P.Volcker e Toyoo Gyoten, que é altamente recomendado. http://www.estantevirtual.com.br/b/paul-volcker-e-toyoo-gyohten/a-roda-da-fortuna-os-dinheiros-do-mundo-e-o-declinio-da-supremacia/2213682985 .

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com