Com China ruim, mercado se anima com Alemanha

Uma pequena euforia tomou conta dos mercados globais hoje. Apesar do preocupante comportamento do comércio exterior da China, os dados da Alemanha trouxeram uma boa dose de esperança. A ideia é a de que a crise pode ficar contida nos países emergentes e não contaminar nem a União Europeia e, tampouco, os EUA. Tudo isso parece ainda mais tentador depois das fortes quedas da semana passada.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Os mercados financeiros e de capitais estão em recuperação mundo afora. Ainda que tenham surgido fatos novos, não há porque embarcar em um otimismo incontido. A principal notícia do dia veio da China e foi muito negativa: as exportações caíram 5,5% e a importações 13,8%. O saldo comercial subiu de US$ 43,03 bi em julho para US$ 60,2 bi. Esse saldo sinaliza que o comércio global está se desacelerando e que a economia chinesa está caindo ainda mais. Para segurar os mercados, o governo chinês anunciou que vai isentar de tributação os dividendos das ações para quem as mantiver em carteira por um prazo mais longo. É uma sinalização no sentido de estimular o mercado a estancar o derretimento que vinha tendo. Surtiu efeito imediato, já que o mercado subiu quase 3% em Xangai. Veja o gráfico do índice SSECO da bolsa de Xangai:

A região destacada em vermelho é a dos pregões a partir de 17/08. Desse dia até o dia 25/08 a bolsa derreteu 25% e, após atingiu seu mínimo no ano, recuperou-se em cerca de 7%. Mas como eu comentei em post de 27/08 ( Um frenesi de vida curta: http://pepasilveira.blogspot.com.br/2015/08/um-frenesi-de-vida-curta.html ), os eventos associados às dívidas privadas das empresas e os mercados de capitais são extremos. O banco central chinês, o PBOC, anunciou que as reservas internacionais do país caíram mais US$ 94 bilhões em agosto. Essa queda das reservas, além de indicar a fuga de capitais do país, reduz fortemente liquidez dentro do sistema bancário chinês. Vale notar que as intervenções do BC no mercado de câmbio aumentam/reduzem a liquidez no Sistema Bancário doméstico[1]. Ainda que o governo faça “bondades” pontuais na legislação do mercado acionário, ainda não estamos longe de encerrar a bolha criada no mercado acionário local. Do pico atingido em junho, aos valores de outubro/novembro do ano passado, ainda há muita gordura a ser queimada, já que a situação econômica do país não melhorou de lá para cá. Ao contrário, o cenário foi ficando mais “ameno”, com a perspectiva de um crescimento abaixo da meta de 6% ganhando cada vez mais audiência entre os analistas da região.

 

 

Já a Alemanha reportou níveis recordes de exportações e importações para julho. Os mercados, eufóricos, viram nesse dado um forte sinal de que o país não depende tanto dos mercados emergentes. Alimentou essa pequena onda eufórica, a revisão do crescimento do PIB da Zona do Euro, pela Eurostat, agência de estatísticas da União Europeia. O crescimento da Zona do Euro no segundo trimestre de 2015 saiu de 0,3%, na primeira leitura, para 0,4%. O fator para essa revisão foi um crescimento maior na Itália: ela cresceu 0,3%. Números nada encorajadores, para quem quer imaginar quer seu continente é independente do resto do mundo. Quanto ao comércio exterior alemão, ele se refere a julho; em agosto a produção industrial do país, estimada pelo PMI-MARKIT, teve sua alta mais acelerada desde o início do ano, subindo de 51,8 para 53,3.

Apesar desses dados positivos, vale a pena olhar para o gráfico abaixo:

 

Ele mostra os principais parceiros do país nas exportações e importações. O maior cliente para as exportações do país é a Zona do Euro. Isoladamente França, EUA, Reino Unido, China e Holanda consomem quase 40% das exportações do país, que é está entre os países com maiores graus de abertura comercial do planeta. A questão para a Alemanha, que é o motor da Zona do Euro, é se seu crescimento, que dependo fortemente do comércio exterior, não será, realmente, afetado pela desaceleração do crescimento global. Tudo indica que essa trajetória de crescimento é insustentável.

Por fim, e não menos importante, os cerca de 140 analistas ouvidos pelo BC fecharam suas estimativas para o crescimento de 2015 e 2016 com novas quedas. Em 2015 o Brasil ter um a contração de 2,44% e em 2016 de 0,5%, veja o gráfico:

Essa contração pode levar o BC a considerar a manutenção dos juros em 14,25%, mesmo com a desvalorização do real. O repasse da desvalorização do real para o IPCA fica limitado em um ambiente de forte retração. Considere, ainda, que a taxa real de um ano, medida pela diferença entre os juros cobrados para uma aplicação de um ano (DI para outubro de 2016, a 14,91%), menos a inflação esperada para o mesmo período (Boletim Focus de hoje, a 5,65%), está em 8,76%. Essa taxa de juro real é superior a qualquer outra de países com o mesmo perfil do Brasil. É mais do que suficiente para sufocar a atividade econômica até que a inflação esteja, de fato, convergindo para a meta. A perspectiva é confirmada pela queda da inflação em agosto (que tem um sinal importante para os bens não comercializáveis) e que deve ficar em 0,27%. As perspectivas ficam ainda melhores se levarmos em conta o fato de que as chuvas devem colaborar efetivamente para a queda dos preços de alimentos e energia daqui para a frente.

 

 

 

 


 

[1] Ao comprar dólares do mercado, o BC faz um crédito em moeda local nas contas do banco comerciais, aumentando suas próprias reservas internacionais. Ao vender dólares, o BC debita as contas dos bancos em moeda local e entrega dólares. O primeiro movimento é de “criação de moeda” e o segundo de “destruição de moeda”. Esses movimentos de destruição/criação de moeda, a partir das intervenções do BC no mercado de câmbio, diminuem/aumentam os caixas disponíveis dos bancos para operações de crédito. Como o mercado acionário chinês depende do crédito bancário, as reduções de liquidez do sistema reduzem a demanda por ações, fazendo seus preços caírem. Além desse efeito, sobre o fluxo de vendas/compras de ações, a redução da liquidez também afeta a capacidade financeira e operacional das empresas chinesas. Se a redução de liquidez do sistema for percebida pelo mercado como permanente (ou por um prazo suficientemente grande), os agentes passam a ver as empresas cotadas em bolsa com mais risco, já que sua capacidade operacional ou sua estabilidade financeira ficam reduzidas.  

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com