Um frenesi de vida curta

A melhora do mercado acionário e a divulgação de um PIB mais forte nos EUA fez os mercados saírem das portas do inferno para as do céu em poucos dias. A avaliação de que essa onda de otimismo pode durar por mais tempo, no entanto, não tem sustentação.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Os mercados globais estão em frenesi:  a forte queda de segunda feira está completamente compensada e volta a parecer apenas mais um tropeço do que um grave problema, afinal. Para empurrar um pouco mais ladeira acima, o departamento de estatísticas dos EUA anunciou uma forte alta do PIB do primeiro trimestre, de 3,7% anuais, ante os esperados 3,2% pelo mercado.  Veja a alta do PIB dos EUA:

 

Após uma quase queda no primeiro trimestre, pressionada pelas severas condições climáticas, o PIB subiu forte no segundo trimestre. O setor externo teve um papel importante, com a retomada forte das exportações, mas o grande impulso, por conta de sua elevada participação no PIB, veio do Consumo, que saiu de 1,8% para 3,1% no ano. As despesas governamentais também ajudaram a impulsionar a economia, crescendo 2,6%, depois de caírem -0,1%. Coube aos governos estaduais e municipais participarem dessa alta.

Uma economia como a dos EUA crescendo em ritmo satisfatório é algo que deixa todos animados. Veja as altas de hoje:

Mas esse otimismo não parece, contudo, refletir claramente os fundamentos globais. O pânico de segunda feira veio da fraqueza alarmante do mercado acionário chinês e esse, por sua vez, reagia aos problemas ligados à alavancagem no país. A bolsa chinesa como reação ao enorme impulso monetário dado pelo PBOC, BC da China, na tentativa de sustentar os preços das ações. Mas os agentes estão completamente reticentes em manter esse mercado aquecido. Das diversas explicações para o boom e a queda da ações chinesas, a mais atraente veio de Gwinn Guilford, do Quartz[1]: o governo chinês, preocupado em manter as empresas funcionando, apesar de seu enorme

endividamento (US$ 28 trilhões), tentou fazer uma mudança no perfil de duas dívidas. Por meio de incentivos monetários (redução dos juros e aumento da liquidez) as autoridades tentaram trocar as dívidas corporativas por ações, dando dinheiro farto ao público local. Para convencer os chineses a entrar nessa “reestruturação”, foi necessário criar um mercado de alta consistente. Mas, à medida que os estrangeiros começaram a sair do país, retirando centenas de bilhões de dólares de lá, o sistema bancário ficou sem liquidez para continuar sustentando os preços. A queda da liquidez veio sendo compensada pelo BC, mas na semana passada houve uma correria maior.

 Com uma economia que está cada vez mais endividada (o setor privado e as províncias), a China precisa rever seu modelo de crescimento. Mas isso leva tempo e os chineses estão acostumados a lidar com o longo prazo. Os chineses sim, mas os mercados globais não; a desaceleração da China implica em queda das exportações globais e seus parceiros podem sofrer demais com isso. Tanto The Guardian[2] como Financial Times[3] trouxerem elementos que reforçam a tese de que nem a crise é um tropeço e, tampouco, pode se restringir à China.

 

 


[1] http://qz.com/486476/everything-youve-heard-about-chinas-stock-market-crash-is-wrong/

[2] http://www.theguardian.com/business/ng-interactive/2015/aug/25/china-financial-crisis-from-peak-to-black-monday

[3] http://www.ft.com/intl/cms/s/0/edd707ba-4a56-11e5-9b5d-89a026fda5c9.html#axzz3k2EESE2F

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

Deixe seu comentário

Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com