Alguns trilhões de dólares evaporaram nessa manhã

Os futuros das bolsas bolsas dos EUA chegaram a projetar quedas de até 7% antes do pregão. Mas após uma abertura de derretimento, houve uma parada para respirar. As quedas estão mais moderadas, mas é possível sentir o cheiro de "queimado" no ar. Se com enormes "Quantitative Easing" as economias continuam pregando sustos enormes em seus agentes, difícil imaginar o que será necessário fazer se as coisas piorarem ainda mais.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O pregão de hoje garantiu a você um lugar de observador privilegiado da história. Apesar de não ter sido a MAIOR queda dos índices S&P500 ou Dow Jones, está entre as mais respeitáveis. Mas pouco importa: afinal, qual é a diferença de cair do 13º ou do 25º andares?

E essa queda é resultado de um corre-corre que estava sendo adiado há trimestres pelos Bancos Centrais, por meio de suas políticas expansionistas, com juros zero. Elas fizeram a bolsa de Xangai subir 150% em dois trimestres. Mas não garantiram  que os preços ficariam altos para sempre. E como todos sabemos,  um dia a casa cai; apesar disso sempre acreditamos que saberemos qual é o momento certo para pular fora do barco. Quando alguém grita “fogo!!”, todos saem correndo e as coisas ficam completamente sem controle. Apesar de parecer assustador, esse tipo de acontecimento não é raro e sempre acaba nesse curto circuito dos mercados globais. As quedas fizeram evaporar alguns trilhões de dólares dos mercados de ações e de dívidas. Veja as bolsas:

E as coisas começaram com a China, cuja bolsa subiu 150% em dois trimestres, como resultado da forte ação de expansão da liquidez. A bolsa de Xangai já devolveu uma boa parte dos enormes ganhos, mas ainda está longe de seu piso de outubro do ano passado:

Pelo gráfico acima, ainda faltam 28% para as ações caírem ao patamar de outubro do ano passado.

Se essa queda das bolsas vai significar uma nova onda de vendas, que nos leve a uma mega recessão global, é a questão principal. Afinal o FMI já projeta o crescimento global de 2015 como o mais baixo após 2009. Essas quedas pesadas das ações podem contaminar a economia  real e jogar as taxas de crescimento mais para baixo ainda. Quanto ao Brasil, apesar de nossos próprios problemas, como o emparedado governo Dilma, o ajuste está ocorrendo sem muito barulho: o real está se desvalorizando e realizando o trabalho “sujo”. Com dólar mais alto a economia fica menos vulnerável ao choque externo, colocando um limite para a histeria internacional. Veja o comportamento do Ibovespa em duas medidas, uma em real, outra em dólares:

Note que apesar da valorização em dólares ter sido menor entre 2002 e 2008 (+536% contra +980%), a queda foi muito maior de 2008 para cá, de 72% em dólares contra 40% em reais. Essa queda, de um lado, limita o estoque de capital que potencialmente pode sair do Brasil para o exterior, e de outro, barateia nossas empresas em relação às estrangeiras. Isso limita as quedas das bolsas, ao mesmo tempo que coloca a perspectiva de recuperação em um patamar muito melhor, caso estivéssemos presos a um regime de câmbio fixo. A alta do dólar não é um problema: é parte importante da solução do problema.

 

Ainda que possamos ver os mercados daqui caírem ainda mais, as chances deles se estabilizarem antes de alguns dos emergentes mais resistentes vai aumentando, afinal todo poço tem um fundo. Mas não se anime: o fundo não é aqui nem agora.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com