O FED não subirá a taxa de juros em setembro, mas os mercados derretem

As bolsas e as moedas globais estão novamente em queda por conta das enormes incertezas em relação à performance futura da economia global
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Os mercados globais continuam a sacudir com as perspectivas de piora das economias emergentes. Os preços das matérias primas estão em derretimento e isso piora as perspectivas econômicas para esses países. Alimentando esse ciclo vicioso, a piora das perspectivas econômicas desses países, faz com que suas moedas se desvalorizem o que, por sua vez, amplia a queda dos preços das commodities. Essa queda livre dos preços e das moedas continuará a exercer um papel nefasto para a economia global, já que joga o comércio para baixo. Em um mundo globalizado, comércio global em queda significa que as taxas de crescimento locais ficarão prejudicadas até que essa situação seja revertida. O problema é que não há perspectiva de reversão sem a cooperação das principais economias globais, que precisam retomar a agenda feita no G-20 de 2009 e que foi abandonada. Esse ciclo de queda não terá um final feliz. Veja o comportamento das principais bolsas:

 

 

 

As moedas dos emergentes que mais têm sofrido, tal como falei no post de segunda feira[1], são a de economias mais expostas aos preços das matérias primas e de suas exportações para a China. O Wall Street Journal valorizou essa corrida contra as moedas em um artigo hoje. Ressalta o aperto que essas economias estão enfrentando a partir da constatação de que a China continuará a crescer menos do que cresceu na última década. Mas no Project Syndicate, o professor da Universidade da Califórnia,  Benjamin Cohen, nos alerta que a desvalorização do yuan não foi drástica o suficiente para gerar tanta turbulência. Ele alega, de forma interessante, que o principal objetivo da China não é aumentar sua competividade por meio da desvalorização cambial mas, na verdade, colocar sua moeda na cesta de moedas do FMI e caminhar para torna-la uma alternativa atrativa ao dólar. Vale a leitura.

A despeito disso, o fato é que a “bola da vez” são os países emergentes, tal como anos atrás foram as dívidas soberanas da Zona do Euro ou a Rússia em 1998 e assim por diante. A fontes de turbulência nos mercados especulativos estão sempre se alternando e jogando uma enorme incerteza  nas economias reais. A forte alavancagem dos mercados migrou dos títulos imobiliários de alto risco em 2008, para as dívidas corporativas tanto em países industrializados como os emergentes.

Ontem, a imprensa internacional repercutiu as preocupações do ex-presidente do Federal Reserve, Allan Greenspan, sobre esse tema. Todos sabemos que os preços dos títulos de renda fixa estão elevados para sua média histórica, mas não sabemos se isso representa, realmente uma bolha e, caso o seja, quando ela vai estourar[2].  Tal como disse Greenspan, nunca o pouso é suave quando saímos de uma situação de equilíbrio para outra.

O que pode mitigar os riscos de colapso financeiro é a manutenção dos juros em patamares muito baixos por mais tempo, bem como a manutenção dos níveis de liquidez. O FED vem mantendo os juros básicos em 0% e a oferta monetária em US$ 4,2 trilhões há mais de cinco anos. Desde maio de 2013 os dirigentes do banco central dos EUA estão tentando voltar à “normalidade”, seja dos juros, seja da oferta monetária. Mas ontem o FED deu um sinal controverso em sua ata da última reunião do Comitê de Política Monetária. Todos esperavam que fosse anunciada a disposição do FOMC em elevar os juros já a partir de setembro, próxima reunião do Comitê. Mas os diretores anunciaram apenas que precisam de mais dados sobre a inflação e o mercado de trabalho para poderem anunciar o início do ciclo de alta dos juros.

A transcrição dos trechos da ata, que são claros nessa direção, estão no final do post. Ao dizer que precisam de dados mais claros para que tenham a segurança necessária para começar o ciclo de alta, eles estão dizendo de forma clara que não subirão os juros em setembro, já que o atual sistema de comunicação, o foward guidance, implica que eles anunciam o que vão fazer antes de fazer. Como não anunciaram nessa ata que vão subir em setembro, é muito mais provável que eles deixem para anunciar em setembro que subirão em outubro, ou nem isso...

É possível que esses detalhes pareçam um exagero, mas eles fazem a diferença. Se o FED realmente começar a subir os juros, a insegurança em relação ao comportamento dos mercados pode aumentar. Como mostra a história, sempre que o FED caminha no sentido de promover um “pouso suave” para a economia e os mercados, ele acaba produzindo uma enorme confusão. Os preços dos ativos reais e financeiros despencam, as moedas enlouquecem e as economias reagem com quedas importantes da renda e da produção. O aumento do nervosismo nos mercados globais e os parágrafos da ata, abaixo, tendem a desmentir aqueles que acreditam que a alta dos juros começará em setembro. Os analistas do Citi, um dos maiores bancos do mundo, no entanto, acreditam que alta será em setembro.

Os trechos da ata (ela está disponível no link: http://www.federalreserve.gov/newsevents/press/monetary/20150819a.htm )

“The Committee concluded that, although it had seen further progress, the economic conditions warranting an increase in the target range for the federal funds rate had not yet been met. Members generally agreed that additional information on the outlook would be necessary before deciding to implement an increase in the target range. One member, however, indicated a readiness to take that step at this meeting but was willing to wait for additional data to confirm a judgment to raise the target range (…)

 

The Committee agreed to maintain the target range for the federal funds rate at 0 to ¼ percent and to reaffirm in the statement that the Committee’s decision about how long to maintain the current target range for the federal funds rate would depend on its assessment of actual and expected progress toward its objectives of maximum employment and 2 percent inflation. Members also agreed that their evaluation of progress on their objectives would take into account a wide range of information, including measures of labor market conditions, indicators of inflation pressures and inflation expectations, and readings on financial and international developments. To further reflect the Committee’s assessment that economic conditions had continued to progress toward its objectives, the Committee slightly altered its characterization of when it anticipates that it will be appropriate to begin the process of policy normalization. Specifically, members agreed to indicate the Committee’s anticipation that it would be appropriate to raise the target range for the federal funds rate when it has seen some further improvement in the labor market and is reasonably confident that inflation will move back to its 2 percent objective over the medium term.”

 

 

 


[1] http://pepasilveira.blogspot.com.br/2015/08/o-real-e-terceira-moeda-mais.html .

[2] A esse respeito, também já fiz alguns comentários: http://pepasilveira.blogspot.com.br/2015/05/a-queda-da-bolsa-de-xangai-e-o-pouso.html .

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com