O Real é a terceira moeda mais desvalorizada em doze meses

O ciclo de forte alta das commodities e de desvalorização do dólar, que coincidiu com um período de ouro dos emergentes, está pela "hora da morte". Todas as principais moedas de países avançados ou de emergentes se desvalorizaram frente ao dólar e refletem a fraqueza da economia global, que deve ter a pior taxa de crescimento desde 2009. O Brasil, que se beneficiou bastante desse ciclo, está com o real em desvalorização de mais de 150% desde 2011. Mas o saldo do balanço de transações correntes mostra que o câmbio ainda n]ao está permitindo um ajuste satisfatório.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Hoje os mercados internacionais tiveram um dia de briga entre as forças que veem a economia global desacelerando de forma sistemática e as expectativas do mercado, no sentido de que o Federal Reserve conseguirá segurar o mundo com suas taxas de juros. Os mercados abriram em queda, primeiro na Ásia, depois na Europa, por conta da queda do PIB do Japão, de 1,6% anualizados. A queda de suas exportações evidenciou que a quarta maior economia do planeta[1] está sucumbindo à desaceleração da China. E essa percepção vai se disseminando por todas as economias que dependem fortemente da demanda da China. O mercado de matérias primas está em depressão e o petróleo é uma de suas vítimas. Hoje a cotação do barril WTI atingiu US$ 42 com a forte percepção de que a oferta global em alta não terá contrapartida no crescimento cada vez mais fraco da economia global. As estimativas de crescimento feitas pelo FMI e pelo Banco Mundial estão com uma taxa que é a menor desde 2009.

Ao dependerem das exportações, os países emergentes acabam por entrar na “linha de fogo” dos mercados,  já que as suas vulnerabilidades estão aumentando à medida que a economia global derrete. Com seus saldos externos em queda, as suas moedas se desvalorizam contra o dólar. Veja o gráfico abaixo, com a desvalorização das principais moedas globais em relação ao dólar, no período de 12 meses:

 

Em 2013, por ocasião do anúncio de que o Federal Reserve  dos EUA começaria a reverter as ações de estímulo no âmbito do Quantitative Easing (relaxamento monetário), emergiu a tese de que alguns emergentes seriam duramente afetados pelo aumento das taxas de juros globais. Destacavam-se os cinco frágeis: Brasil, Turquia, África do Sul, Índia e Indonésia, que poderiam ter dificuldades para enfrentar um forte fluxo de saída de capitais de seus países. Hoje o banco Morgan Stanley aumenta o leque dos prejudicados e altera as razões: são pelo menos dez e a causa de seus ocasos é a desaceleração da economia global.  Países dependentes das exportações têm seu risco percebido aumentado, seja porque é mais difícil sustentar déficits externos, seja porque suas economias desaceleram fortemente piorando os indicadores. Para essa avaliação sugiro a boa matéria da Bloomberg:  http://www.bloomberg.com/news/articles/2015-08-16/morgan-stanley-s-fragile-five-swells-to-troubled-10-in-selloff . O gráfico abaixo é o do índice de mercadorias calculado pelo FMI e mostra a forte queda de preços, que inclui o petróleo:

 

Apesar do índice ainda estar acima do patamar pré-ciclo das commodities , ele caiu 50% em relação ao seu patamar máximo. Parte importante desses movimentos de preços está relacionada incessante movimentação do dólar em relação à outra s moedas do mundo. Quanto mais o dólar se aprecia, mais as commodities têm seus preços reduzidos em dólar. Mas quando o dólar estava se desvalorizando, as commodities viram seus preços explodir. Os máximos atingidos no gráfico foram nos anos de 2008 e 2010. Veja o comportamento do dólar em relação a uma cesta de moedas dos seus principais parceiros globais:

 

De 2002 a 2008 a moeda americana se desvalorizou fortemente e isso explica, em parte, a forte alta das commodities. Após o vai e vem de 2010 até o ano passado, o dólar recuperou apenas parte de seu valor. Ainda há um longo caminho para que ele chegue aos patamares de 2002. Se o Federal Reserve decidir elevar as taxas de juros a partir desse ano, ele pode disparar  um forte movimento de aceleração da valorização de sua moeda. Com isso, a economia global que já está devagar, pode cair ainda mais, levando os próprios EUA a um novo ciclo de queda do PIB.

É difícil, sem dúvida nenhuma, entender até que ponto as moedas afetam os preços das commodities ou, ao contrário, até que ponto a queda dos preços das commodities faz com que as moedas se desvalorizem frente ao dólar. A única coisa clara é que o FED está diante de um enorme dilema: se subir as taxas de juros, poderá dar início a um novo ciclo de derretimento global; se ficar onde está, poderá deixar as coisas piores no futuro. Tudo indica que o mercado continua a apostar em um caminho intermediário, onde as commodities caiam, os juros subam e as maiores economias se beneficiem. Mas é difícil ver essa conta fechar.

O Brasil, de sua parte, tem deixado o real se desvalorizar frente ao dólar, corrigindo a distorção causada pela apreciação ocorrida entre 2002 e 2010. Hoje é a 3a. moeda que mais se desvalorizou em doze meses, atrás apenas da Colômbia e da Rússia. Mas quanto mais o mundo se desvaloriza, mais o real precisa ser desvalorizado.

 

 


[1] A primeira é a dos EUA, a segunda é a da Zona do Euro, a terceira é a da China.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com