O corre-corre continua nos mercados globais

Mais um dia de corre-corre nos mercados globais em decorrência da desvalorização do yuan chinês. O derretimento das bolsas e dos juros mostra que as chances de estagnação da economia global estão se materializando. Além da queda da produção industrial chinesa, tivemos a divulgação dos resultados do varejo em junho no Brasil. O varejo acumula uma queda de 2,2% no ano, mostrando que o Consumo das Famílias está sendo fortemente afetado. A recessão está se aprofundando.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O corre-corre nos mercados globais continua em seu segundo dia. A China deixou, novamente, sua moeda flutuar e apavorou os mercados. Há o problema do comércio global - que vê na ação chinesa um ímpeto na direção de aumentar ainda mais a concorrência - e há o problema financeiro - que vê na volatilidade das moedas um pesadelo para os trilhões de dólares que passeiam pelo mundo buscando retornos em carry trading[1]. A vida com mais volatilidade torna a possibilidade recuperação global mais distante. Veja o gráfico da volatilidade, medida pelo índice VIX, abaixo.

 Índice VIX – Volatilidade

Esse gráfico é do VIX, índice de volatilidade negociado na bolsa de Chicago, fornecido pela Bloomberg. Quanto maior a volatilidade, tanto maior o grau de incerteza que domina o mercado. Taxas acima de 20% ao ano indicam que o mercado está em pânico, ou muito perto dele. Note que o pânicos são relativamente curtos, mas têm alguma frequência. Ontem o VIX fechou em 13% e hoje já está saindo a mais de 15%. As bolsas da  Ásia e da Europa  desabaram e os juros dos títulos soberanos das grandes economias caíram novamente, veja os gráficos:

 

Como se vê, ao mesmo tempo em que as bolsas caem os juros derretem, por conta do aumento da percepção de que a economia globais vai se desacelerar e de que as políticas monetárias deverão manter os juros baixos e a liquidez elevada. A falta de coordenação das política das potências globais está aumentando o temor de que os grandes erros da década de 1930 se repetirão.

Aqui no Brasil o IBGE divulgou a Pesquisa Mensal do Comércio de junho e ela mostrou o varejo em encolhimento novamente. As vendas do varejo restrito caíram 0,4% e as do ampliando, que acionam automóveis e materiais de construção, caíram 0,8%. Veja o gráfico:

 

Veja que a linha verde, do comércio restrito, vem caindo desde novembro do ano passado, ponto máximo da série histórica, as vendas caíram 5,95%. Já as vendas de automóveis vêm em queda forte desde 2013 e acumulam queda de 15,6% no ano. A contínua queda do varejo, por si só, é preocupante já que ele é uma estimativa importante sobre o que está acontecendo com o Consumo das Famílias, que é responsável por mais de 60% do PIB. Mas vale observar, mais uma vez, que as vendas de supermercados estão fracas (vieram em 0% em junho depois de cair 0,9% em maio) e isso mostra o grau de sacrifício que as famílias estão fazendo no momento atual. As vendas de supermercados estão associadas a bens de primeira necessidade e sua queda mostra os impactos da queda da renda por conta do aumento do desemprego e da inflação. Já a queda das vendas do bens duráveis (móveis, eletrodomésticos, automóveis e materiais de construção) mostra, além da queda da renda, um recuo das expectativas em relação ao futuro (da renda  e do emprego) e a contração do crédito. A seguir esse ritmo, devemos fechar 2015 com uma queda de cerca de 3% das vendas do varejo.

 

 


[1] Como dito ontem, o carry trading é a prática de tomar dinheiro em um país com juros baixos e aplicar em outro com juros maiores, fazendo com que as moedas sofram pressões.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com