Porque a moeda chinesa disparou uma onda de histeria

Hoje o Banco do Povo da China desvalorizou o yuan em quase dois por cento e quase levou os mercados à histeria. Após apreciar-se quase 40% frente ao euro, o governo chines dá um recado de que quer mudar as regras do jogo. Agora está em ação um movimento não cooperativo de desvalorizações cambiais que pode sabotar os esforços de qualquer país de fugir da crise. Em particular, o Federal Reserve, dos EUA, pode ser obrigado a abortar seus planos de começar a voltar à "normalidade".
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Na madrugada de hoje o governo chinês reduziu a taxa de juros praticada por seu banco central e permitiu a desvalorização de sua moeda, o yuan, em 1,90%. Bastou isso para que boa parte dos agentes iniciassem uma correria e para que a imprensa global tornasse o barulho ainda maior. A gritaria toda é porque hoje o yuan foi desvalorizado em 1,9%, sendo negociado a CNY 6,3234 (chinese yuans per US dólar). Em fevereiro a moeda chinesa era negociada a CNY 6,2745, meros 0,748% abaixo do que está hoje. Toda essa histeria por uma migalha? O real se desvaloriza nesse montante em meio pregão.

A ação dos chineses vem depois do anúncio de que suas vendas para o exterior (exportações) estão se desacelerando, o que pode agravar o “problema” que o país tem ao deixar de crescer 12% ao ano para crescer 7%. Ao mesmo tempo em que passou a crescer menos, o país recebeu do exterior bilhões de dólares para o financiamento de suas empresas, que atraem capital pagando juros superiores aos títulos americanos ou europeus. Esse fluxo de dólares, que entra no país para “aproveitar os juros mais elevados”, é chamado de carry trading. Esse movimento requer dinheiro sobrando em alguns países, dívidas privadas ou públicas em outros e liberdade de movimento. Dado o enorme aumento da oferta monetária feito pelos bancos centrais dos principais países desenvolvidos e os juros muito baixos[1] ainda praticados no hemisfério norte, os investidores são “estimulados” a correr para aplicações com maiores ganhos. Boa parte dessas aplicações está nos países emergentes, principalmente nas dívidas privadas, das grandes empresas chinesas, indianas, mexicanas ou brasileiras. E os bancos centrais dos países desenvolvidos turbinaram essa “festa”.

Esse enorme fluxo de dólares, que estimula a atividade doméstica por meio do financiamento das empresas, acaba apreciando as moedas dos países receptores. Aqui o real se apreciou fortemente de 2003 em diante e só foi reverter tal movimento em 2011, quando bateu incríveis R$ 1,549. A reversão da tendência à apreciação, no entanto, foi lenta e acumula cerca de 150% desde 2011. Veja o gráfico:

Ao contrário do “terror” disseminado pelos alarmistas, a desvalorização do real não é um problema, é, ao contrário, a solução de vários problemas. A indústria brasileira vem acumulando perdas enormes e nosso setor externo ficou extremamente exposto nos últimos anos. Como as empresas privadas têm uma dívida externa de cerca de meio trilhão de dólares, fruto do carry tranding, desvalorizar a moeda implica lançar prejuízos em seus balanços o que torna o ajuste penoso, quando ele ocorre. Ao mesmo tempo, as pressões inflacionárias decorrentes dos aumentos de preços dos bens comercializáveis[2] acabam jogando um custo sobre os trabalhadores, que já estão suportando o peso do desemprego. Esse custo do ajuste, em grande medida, elimina alguns dos ganhos gerados à época da apreciação cambial e são o preço a pagar pelo novo equilíbrio decorrente tanto da situação interna, como da externa.

O mesmo ocorre, de forma geral, com a China. Ainda que os chineses não peguem o preço de uma inflação elevada, por conta da forte desvalorização que eles não tiveram, as empresas podem ser beneficiadas com a desvalorização da moeda, por meio do aumento de suas receitas em dólares. Essa é uma forma adicional do governo frear o fluxo de dólares e avisar aos concorrentes globais que não vai mais pagar a conta do ajuste global. A China procurou manter, ao longo de décadas, sua moeda emparelhada[3] ao dólar, com uma variação moderada. Veja o comportamento do Yuan frente a dólar desde 2008:

Ele saiu da cotação de CNY 6,8 por dólar em 2008 para um mínimo de cerca de CNY 6,05 no ano passado, com uma valorização de 11%. Depois disso a moeda se desvalorizou em 3,62% entre janeiro e abril do ano passado. Depois disso ela voltou a se valorizar e hoje o Banco do Povo da China deu seu recado. Mas a forte valorização do dólar frente a outras moedas também fez com que o Yuan ficasse valorizado em relação a elas. Veja o  gráfico do Yuan frente ao Euro:

 

De 2008 para cá o Yuan se valorizou cerca de 36% frente ao Euro. E assim o foi para o dólar australiano, o yen e todas as moedas que não o dólar. O recado foi simples: a China não ficará mais com sua moeda congelada frente ao dólar, vendo suas exportações caírem. Como resultado adicional, o fluxo do carry trading  pode ser mitigado.

Observando as quedas das bolsas, dos juros soberanos, das commodities (o petróleo está caindo 4%), é fácil concluir que a reação do mercado coloca o problema chinês como algo muito mais sério. A China é a terceira maior economia do planeta (a Zona do Euro é a segunda) e os impactos de suas ações são fortes sobre todos os mercados. As duas maiores preocupações são, evidentemente:

1 – O movimento chinês deixa claro que há um ambiente global não cooperativo, tal como o que existiu após a crise de 2008. Nessa oportunidade os governos se comprometeram a não produzir políticas competitivas entre si. Agora o ambiente global é dominado pela falta de coordenação, com três grandes países tentando sobrepor aos outros suas necessidade imediatas, a saber, os EUA, A Alemanha e a China.

2 – O Federal Reserve que está prestes a começar o movimento de alta de seus juros, pode ter seus planos totalmente atrapalhados. Se o dólar se aprecia contra as outras moedas, sua economia passa a ter um impulso negativo, já que as vendas e os lucros no exterior caem fortemente. Com essa perspectiva negativa pela frente, o FED pode estar diante de uma enorme armadilha.

Como já coloquei em posts anteriores (http://pepasilveira.blogspot.com.br/2015/05/a-queda-da-bolsa-de-xangai-e-o-pouso.html ), por mais que os governos e bancos centrais se esforcem  ao máximo, é difícil fazer um pouso suave em economia.

 

 


[1] Os bancos centrais do EUA, Zona do Euro, Inglaterra e Japão emitiram quase US$ 10 trilhões desde o início da Grande Recessão. Os juros praticados nos títulos soberanos estão muito baixos. Veja o rendimento para títulos públicos de dez anos: EUA: 2,13% ; Alemanha: 0,59% ; Itália: 1,78% ; Espanha: 1,82% ; Inglaterra: 1,84% e Japão: 0,40%.

[2] Bens comercializáveis são aqueles que podem ser negociados aqui ou no exterior, sendo cotados em moeda estrangeira.

[3] Na terminologia da Economia, pegged Exchange rate.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com