FOCUS chega a -2% para o PIB e 9,5% para o IPCA

Hoje o mercado, por meio do relatório FOCUS, informa que suas expectativas chegaram, finalmente, a níveis compatíveis com as minhas projeções efetuadas desde o início do ano. Teremos uma queda de cerca de 2% do PIB, inflação acima de 9,0% e Selic em 14,25%. Tudo isso ocorre em função de vários fatores que concorreram local e globalmente para o derretimento da demanda. Tal como propus em julho do ano passado, a situação econômica deve ficar estagnada até 2017. Em certa medida, isso confirma que o mercado esteve "behind the curve".
Blog por Pedro Paulo Silveira  

A pesquisa semanal do Banco Central junto ao mercado trouxe estimativas para a inflação em 9,53%, IPCA, para a taxa de crescimento negativa de 1,97%, Selic de 14,25% e câmbio de R$ 3,40. Nessa semana, portanto, as minhas estimativas e as do mercado estão em linha, exceto pelo dólar. Apesar da concordância quanto ao resultado, não há convergência quanto às causas e isso pode marcar uma diferença importante em relação ao comportamento posterior da economia. Veja a evolução das expectativas do mercado para o PIB:

O mercado tinha uma expectativa de crescimento positivo até o final de janeiro desse ano e só passou para o terreno negativo a partir de então. Boa parte dos analistas considerava que o país atravessava por um período de excesso de estímulos por parte do governo e que o setor externo poderia dar um estímulo à economia doméstica. Havia um sentimento de que os impulsos que a economia receberia seriam mais equilibrados resultando, no máximo, em um crescimento igual ao do ano passado, ao redor do zero.

Veja a evolução das expectativas inflacionárias:

 

Até o fim do ano passado o mercado considerava que a inflação poderia ficar no teto da meta e essa aposta resultou, provavelmente, da impressão de que o impacto dos aumentos de energia elétrica e dos alimentos seriam muito menores do que, efetivamente foram[1].

Um importante fator, que não foi levado em conta pelo mercado, é que a inflação vem corroendo fortemente a renda das famílias, com altas no IPCA não compensadas por aumentos de salários. No ano houve a destruição de quase meio milhão de vagas formais, desconsiderando as vagas não criadas para os jovens que estão entrando no mercado de trabalho, e esse derretimento joga a renda real das famílias muito para baixo. Com a renda em queda, os gastos das famílias, que contribuem com mais de 60% do PIB, caem e a economia como um todo derrete. Mas, mesmo com a forte queda da demanda, os preços continuam pressionados, pois sua oferta é fortemente concentrada ou são de bens de primeira necessidade. Os mercados que estão pressionando os índices de inflação são os de energia e alimentos[2]. E eles deverão continuar pressionados enquanto as causas da pressão persistam: a seca e a desvalorização cambial.

Os investimentos seguem em queda, com uma trajetória declinante iniciada no primeiro trimestre de 2013 e que se aprofunda a cada dia. Com seu volume determinado pelos juros, pelo estado de confiança dos empresários na economia e pelos gastos do governo, esse item, que responde por cerca de 21% do PIB, deve apresentar forte queda novamente. Os Gastos do governo, que respondem por quase 20% do PIB devem recuar cerca de 0,7% se o governo conseguir cumprir sua meta de ajuste fiscal de superávit de +0,15%.

Restaria ao setor externo dar uma contribuição positiva, já que a taxa de câmbio está ficando mais competitiva para nossas exportações. De fato o déficit comercial deve melhorar nesse ano em relação ao não passado: de um déficit de -0,18% para um superávit ao redor de 0,3%. Mas essa contribuição não é suficiente para mudar o deprimente quadro de queda da demanda. Ademais, a situação internacional foi uma das responsáveis pela forte desaceleração de nossa economia, eliminando os impulsos gerados pelo ciclo de alta dos preços das matérias primas. Veja dois gráficos importantes:

Note que de 2002 até 2005 o saldo comercial, em percentual do PIB, teve alta contínua e isso representou um forte impulso em nossa taxa de crescimento. Esse saldo comercial resultou do forte crescimento das importações da China, Índia e outros países emergentes. A sua queda, a partir de 2005 a 2009 se deveu, em grande medida, ao aumento das importações brasileiras por conta do forte aumento da renda doméstica. Mas, de 2009 em diante a queda se deveu, basicamente, à redução global da demanda por commotidites. O setor externo passou a contribuir negativamente para a taxa final de crescimento do PIB a partir de 2005, mas essa contribuição passou a ser efetivamente “ruim”, a partir da crise 2009. Veja o gráfico do índice Bloomberg de Commodities:

 

Essa é uma cesta ponderada de matérias primas e seu comportamento revela para onde caminham oferta e demanda. Note a forte alta (de 240%) dos preços entre 2.000 e 2.008. Após a crise, os preços despencam e, apesar de ensaiarem uma recuperação, continuam estagnados. A demanda chinesa continua fraca, disseminando efeitos negativos que se combinam com a fraqueza de outros emergentes e dos países da Zona do Euro.

Sendo assim, com preços de alimentos e energia ainda pressionados, com a retração dos investimentos privados e públicos e com o setor público em franco movimento de ajuste fiscal, não observaremos uma saída para a economia tão cedo. O setor externo, mesmo com a desvalorização nominal de cerca de 120% desde agosto de 2011, deve continuar ruim por conta da falta de perspectivas de recuperação da taxa de crescimento da China.

O mais provável é que tenhamos um cenário tal como o que coloquei em julho do ano passado: só voltaremos a crescer por volta de 2017[3]. Isso se a economia global não se ressentir do processo de “normalização” da política monetária que está em curso nos EUA.

 

 

 


[1] Em janeiro já propunha um cenário mais adverso para a economia doméstica e firmei a projeção mais pessimista em março: http://pepasilveira.blogspot.com.br/2015/01/estimativa-para-o-ipca-acima-de-7-e-do.html ; http://pepasilveira.blogspot.com.br/2015/03/o-pib-de-2014-ficou-em-zero-e-o-de-2015.html

Com os aumentos da energia elétrica divulgados em março, já foi possível “enxergar” o IPCA acima de 9%.

[2] Abundam na imprensa economistas que nos “informam” que não são os alimentos e energia que estão pressionando a inflação sozinhos. Há má gestão no lado fiscal da economia e isso acaba por pressionar os preços. Primeiro os fatos: o IPCA acumulou 6,83% em julho e desse total 73,22% vieram de alimentos, energia e transportes. Todos esses preços estão associados à seca e à desvalorização cambial que acumularam pressão desde 2012. A média dos outros itens do IPCA foi de alta de 1,94%. Ainda que a política fiscal tenha sido tão ruim em anos anteriores, não vemos seu impacto em nenhum outro item do IPCA.

[3] Em 21/07 do ano passado, produzi o seguinte post: http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/07/adeus-ao-crescimento-ate-2017-ficaremos.html .

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com