Com a crise contida na Europa, qual será o novo gatilho?

A Grécia aprovou o pacote de austeridade que a habilita a assinar um novo acordo de resgato com o Eurogrupo. Merkel e Schäuble não estavam interessados na manutenção da Grécia na Zona do Euro e, tampouco, na recuperação do país. A questão era política: derrotar o Syriza a qualquer custo. Talvez tenham obtido vitória nisso e alguma tranquilidade no curto prazo, mas a austeridade do novo plano empurrará a situação da Grécia para um patamar ainda mais grave. Ao mesmo tempo as empresas dos EUA começam a anunciar seus resultados e isso será importante para entender como o equilíbrio atual afetou as maiores empresas do planeta. É na Estabilidade que é gerada a Instabilidade.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O parlamento grego aprovou o primeiro pacote de medidas de austeridade exigido pelo  Eurogrupo, mesmo com o Syriza dividido, parte votando pelo sim, parte pelo não.  Os legisladores aprovaram o memorando do acordo imposto por Bruxelas,  aumentaram o IVA (imposto sobre o consumo), algumas reformas na Previdência Social e nas aposentadorias, a independência do instituto de estatísticas e a criação de uma autoridade fiscal independente[1]. Hoje os dirigentes do Eurogrupo irão analisar o pacote das medidas e se eles estão de acordo com o exigido. Depois disso, o acordo será votado nos parlamentos dos países da Zona do Euro. Hoje mesmo o Banco Central Europeu deve reorganizar o fornecimento de linhas de crédito de emergência aos bancos gregos e isso deverá permitir que eles abram em alguns dias. O presidente do Banco Central Europeu, peça central na elaboração do resgate feito há três anos e que se mostrou desastroso, insiste na tecla de que os gregos não são confiáveis e, como verdadeiros responsáveis pela situação atual, devem pagar suas obrigações em dia. Essa tese é até suave se comparada à de Wolfgang Schäuble,ministro alemão, que defende a saída do país da Zona do Euro.

A divisão do partido governista é um sinal de que a manutenção de Tsipras no governo pode ser curta, já que o enfraquecimento político do primeiro ministro pode levar à convocação de novas eleições. O governo já recebeu a demissão de diversos funcionários ligados às alas do Syriza contrárias ao acordo e a situação pode continuar em deterioração à medida que a economia for atrofiando cada vez mais. O objetivo e Merkel e seus aliados não era a manutenção da Grécia na Zona do Euro e, tampouco, a recuperação da economia do país. Era impor uma forte derrota ao Syriza, como forma de sinalizar aos outros partidos de esquerda da Europa de que não há espaço para negociação. E como o atual programa de “resgate” é ainda mais duro que o primeiro,  que estava em vigor, é pouco provável que o falido país consiga executá-lo. Ao aprovar esse acordo, o governo grego conseguiu ganhar mais tempo, mas isso custará ao país o aprofundamento da depressão que engoliu mais de 20% da renda e levará a outro processo de iliquidez. A única alternativa viável é a defendida pelo FMI, que passaria por um desconto no valor total de dívida grega. Mas Schäuble descarta essa hipótese de antemão.

Apesar da falta de perspectiva de uma solução sustentável para a Grécia, apontando para o colapso num futuro próximo, os mercados reagiram positivamente, com altas em todas as bolsas. Os juros das dívidas italianas e espanholas voltaram a ser negociados abaixo de 2%, num sinal de que a confiança está de volta. No caso da dessas duas dívidas, a confiança é fundamental, já que elas são enormes e pesam forte nas carteiras de títulos de bancos e fundos europeus. Veja abaixo o comportamento do índice Bloomberg da dívida italiana:

Índice Bloomberg da dívida italiana:

Desde os pacotes de resgate de 2010, os títulos da dívida italiana se recuperaram fortemente até que, no ano passado, a Grécia passasse a pressionar os mercados. Os preços caíram fortemente nas últimas semanas e voltaram a subir, indicando a volta da confiança, nos últimos pregões. Como a dívida italiana é de € 2,2 trilhões, é razoável utiliza-la como termômetro da estabilidade na Zona do Euro.

Ainda que a solução de curto prazo esteja dada, as suas consequências são instáveis e devem jogar a região em nova crise em questão de mais algumas semanas. Mas é como a própria Ângela Merkel disse na Reuters: “às vezes a política é difícil”.

Com um calendário pouco emocionante nos próximos dias, os mercados vão se voltar aos resultados corporativos que serão divulgados a partir de agora nos EUA. É particularmente interessante notar como o câmbio atuou sobre os resultados corporativos no segundo trimestre. No primeiro, ele havia feito estragos enormes nas grandes corporações multinacionais, já que o dólar valorizado reduziu os lucros ao redor do mundo. E como o dólar continuou sua trajetória de valorização, é possível que esses resultados continuem ruins. E aqui temos uma situação paradoxal: por ter a economia madura mais dinâmica, os EUA podem começar a subir os juros esse ano. A expectativa de aumento dos juros nesse ano faz com que o dólar se valorize frente às outras moedas. Ao se valorizar frente às outras moedas, o dólar faz com que as empresas americanas fiquem menos competitivas e reduzam seus lucros. A queda nos lucros leva o mercado a pensar que o FED pode atrasar o aumento dos juros básicos o que, por sua vez, faz os juros longos caírem novamente, aumentando os preços as ações. Curiosamente, resumindo a trajetória acima, lucros menores acabam por induzir o mercado a elevar os preços das ações. E é esse evento que torna os preços das ações em todo o mundo, bastante esticados. Veja o gráfico:

S&P500 (diário)

Nesse ano o S&P500 tem oscilado entre os 2050 e os 2120, mostrando uma volatilidade mais comportada, compatível com a assimilação de um quadro econômico estável e de política monetária previsível. A volatilidade é um indicador de oscilação dos mercados, quanto mais os mercados oscilam, tanto maior é a volatilidade. E os mercados oscilam porque os agentes ficam, em determinados períodos, envolvidos em ambientes de forte incerteza quanto ao futuro. Quando as coisas estão mais estáveis, por sua vez, a volatilidade cai e tende a mostrar à sociedade uma economia e mercados aparentemente menos arriscados. Veja o gráfico abaixo:

Índice VIX – Bolsa de  Chicago

O índice VIX mede a volatilidade das principais ações negociadas nos EUA. Veja que a volatilidade estava baixa, em torno de 12% a.a., em julho do ano passado e explodiu para quase 27,5%. Após muitos vai e vem, o índice voltou a cair suavemente até os atuais 13%. É possível que a volatilidade caia mais um pouco, à medida que a política monetária dos EUA fique tão “sonolenta” como está. Com riscos percebidos mais baixos, a sensação é de conforto e segurança para os agentes de mercado. A mensagem enviada pelo comportamento dos preços é a de Estabilidade. Preocupa saber que é a Estabilidade que gera a Instabilidade: quando os agentes de mercados ficam tranquilos demais em relação aos riscos, eles passam a ignorar riscos que aparentemente estão sob controle. Depois de cinco anos de juros zero, essa sensação de estabilidade é muito desconfortável. Ainda que de forma atabalhoada, o Eurogrupo impediu que a Grécia cumprisse o papel que o Lehman cumpriu na crise de 2008. Mas há outros problemas esperando para serem “descobertos” por mercados que se assumem posições de risco cada vez maiores.

 

 


[1] Aqui alguns membros da oposição estão defendendo a criação de tal “autoridade”.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com