Varejo derrete 0,9% no mês e 2% no ano

A Pesquisa Mensal do Comércio de maio mostra que o mercado ainda está modesto em sua avaliação de queda de 1,5% do PIB, segundo a pesquisa Focus do BC. Os dados do varejo mostram que as famílias estão passando um enorme aperto, reduzindo até mesmo suas compras de supermercado, como efeito do desemprego, da queda da renda, da confiança e do crédito. Como todos os eventos apontam na mesma direção, a queda do PIB só pode ser pior a cada trimestre, chegando aos 2,2% que projeto sem muita dificuldade. Outra evidência da pesquisa: alocar poupança nos setores de varejo, siderurgia, mineração e construção civil, apesar de tentador ainda é muito arriscado.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Hoje o IBGE divulgou a Pesquisa Mensal do Comércio de maio passado e ela veio com dados muito ruins: o varejo caiu 0,9%  e acumula uma queda de 2% no ano; em doze meses essa queda é de 0,5%. Se considerarmos os números de veículos e materiais de construção a coisa piora, e muito: -1,8% no mês e -7,0% no ano. A vendas de automóveis, sozinhas, amargam uma queda de 17,3% no ano. Veja a tabela do IBGE:

 

 

Em vermelho estão destacadas duas contas: a de vendas de supermercados e as de veículos. As vendas de supermercados são mais insensíveis aos ciclos econômicos, por se relacionarem a bens de consumo de primeira necessidade, em sua maioria. Quando elas oscilam é porque a oscilação da renda dos consumidores é muito forte, seja para cima, seja para baixo. No ano de 2015 as vendas dos supermercados caíram 1,5% e isso indica que o aperto das famílias é grande, afinal a redução da demanda por bens de primeira necessidade (alimentos, material de limpeza e higiene, etc) é o último passo no corte do orçamento familiar. Se as famílias estão cortando comida, é porque a renda disponível esta efetivamente em queda, tal como temos acompanhado (http://pepasilveira.blogspot.com.br/2015/04/o-mercado-de-trabalho-em-queda-livre.html ). Esse dado, portanto, reforça os resultados do CAGED, que têm indicando forte queda da criação de vagas formais pelo país. Veja o gráfico, que tem dados até o mês de maio:

 

 

Como o Consumo das Famílias depende da renda e essa depende do mercado de trabalho, fica claro o nexo que leva à queda das vendas do varejo, sobretudo as de bens de primeira necessidade. Em maio foram destruídas 115 mil vagas de trabalho com registro em carteira e são esperadas mais 95 mil vagas destruídas em junho, segundo pesquisa da Bloomberg junto a economistas do mercado. Leve em conta que o Consumo das Famílias responde por 63% do PIB nacional e se ele cair nesse ritmo até o final do ano, fazendo 2% de queda, então já teríamos, só pelo Consumo, 1,26% de queda no PIB. Os Gastos do Governo respondem por outros 19,5% e estão caindo por conta do ajuste fiscal realizado em todas as esferas governamentais (União, Estados e Municípios). Já os Investimentos caem por conta do estado de confiança dos empresários, dos juros em alta e do aumento da restrição ao crédito, que detonou o mercado imobiliário[1] e da paralização das obras de infraestrutura.

Vindo por todos os lados, as pressões para a queda da atividade econômica fazem seus estragos. A confirmação da profundidade desses estragos é vista, com certeza, na queda dos gastos das famílias em suas compras de supermercado. Veja o gráfico do comportamento das vendas do varejo:

 

O outro aspecto revelado nessa Pesquisa Mensal do Comércio é a queda das compras de automóveis e materiais de construção. Ao cair mais 4,6%, as vendas de automóveis mostram que as famílias e empresas estão fortemente pessimistas em relação ao presente e ao futuro e que a disponibilidade de crédito para o setor está em queda. Esses dois componentes dos gastos, automóveis e materiais de construção, estão relacionados à renda das famílias no presente, mas também guardam relação com suas expectativas em relação ao futuro, já que comprometem boa parte do orçamento familiar (quando a compra é feita a crédito) ou da poupança das famílias (quando a compra é feita à vista). Se as perspectivas para o futuro não são positivas, se as famílias estão receosas em relação à manutenção de suas rendas (seja por conta da inflação, seja pelo medo do desemprego), as vendas desabam. Já mostrei como o setor bancário tem reduzido as fontes de financiamento para as famílias: (http://pepasilveira.blogspot.com.br/2015/06/a-remuneracao-da-poupanca-e-implosao-do.html ). O gráfico abaixo mostra a brusca redução da oferta de crédito às famílias e empresas para aquisição de automóveis:

  

Levando em conta todas as informações acima, a Pesquisa Mensal do Comércio confirma que o cenário econômico continua se deteriorando, dentro do que seria de se esperar. Com todos os fatores de determinação da demanda apontando para a contração, o PIB vai despencando ladeira abaixo. A expectativa de queda de 1,5% do PIB, feita pelo mercado junto ao BC, continua modesta. Nesse cenário há uma enorme possibilidade de queda dos lucros corporativos, sobretudo nos setores mais ligados à demanda doméstica. Reafirmo minha visão de que a alocação da poupança deve manter uma postura conservadora, evitando mineraçãosiderurgiavarejo e setor imobiliário. Ainda que a tentação seja enorme, os preços ainda não caíram tanto.

 

 


[1] A partir do último trimestre do ano passado o governo aumentou para 50% o valor da entrada para financiamentos imobiliários o que, por si só, representa o estrangulamento da oferta de crédito nesse segmento, totalmente dependente do mesmo.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com