China em seu momento Kalecki (1)

Apesar dos mercados europeus estarem animados com um acordo para a Grécia, não houve um movimento realmente convincente nesse sentido. É necessário ter muita cautela ao abordar esse tema por conta dos interesses políticos que o norteiam. Quanto à China, fica claro que o país está em uma trajetória de crescimento mais reduzido que o anterior, de 7% e não de 12%. Uma das causas é exatamente o excesso de investimentos feitos em mais de uma década. Essa mudança de padrão confirma a queda das COMMODITIES, o que vai exigir muita mudança estrutural nos setores que as produzem.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Hoje os mercados voltaram a subir na Europa com um sopro de esperança: há a possibilidade de um acordo entre a Zona do Euro e o governo grego. A Itália festeja com mais de 2% e tem motivos para isso: sua dívida é de mais de 2,2 trilhões de euros e qualquer coisa que balance o barco da Zona do Euro torna a vida dos italianos um pouco mais difícil. No entento, fazendo um pente fino, olhando várias publicações internacionais, não consigo ver um motivo realmente convincente para esse otimismo. O que há é uma manifestação de Ms Merkel conclamando o governo grego a apresentar uma proposta na sexta. Ela fala em uma proposta decente e, levando em conta os últimos anos, a proposta decente é sempre a que os alemães querem ouvir. Mais fácil os gregos fazerem outro plebiscito popular, mudando radicalmente de posição, do que Ms Merkel e seu governo aceitarem um afrouxamento substancial na austeridade imposta à Grécia. É uma questão política: ceder ao governo de esquerda abriria um precedente indesejável para a Zona do Euro comandada pela direita. É sempre a questão política que manda, contrariando um pouco a nada simpática exclamação do publicitário que assessorou Clinton: “the economy, stupid” (“a economia, idiota”). Ms Merkel realmente não pode ceder ao governo do Syriza, de esquerda, em um período em que haverá eleições na Espanha, Irlanda, Portugal e, mais à frente, na Itália. Todos esses “aliados” são de governos conservadores e que implantaram firmemente as exigências da Troika e, tal como a Grécia, afundaram suas economias em recessões. Haverá uma “surpresa” dos eleitores, machucados pelo enorme desemprego, ao perceberem que pagaram um preço que os gregos não querem, supostamente, pagar. Então eles poderão correr para os governos mais à esquerda. Esse é o principal empecilho para um acordo no momento. A fundamentação para essa resistência, enriquecida por acusações morais (ou até mesmo racistas!), pode ser a do moral hazard. A mesma que valeu para o Lehman: se você deixar que um não pague todos não pagarão e isso tornará o financiamento dos Estados europeus caro demais, já que todos vão temer pelo calote. Nesse ponto, a Grécia, sugiro um pouco de cautela em seu otimismo. Ms Merkel não cederá tão fácil e a novela ainda pode ficar pior, para os mercados e, mais importante, para os gregos.

O resto do mundo derrete com a queda dos mercados no Oriente (Japão -3,14%, Hong Kong -5,84% , Xangai -6,75%, Coréia do Sul -1,35, Índia -1,72% e Austrália – 2%). A percepção de que a economia chinesa pode estar com problemas está se fortalecendo. 

Até poucas semanas atrás, a cada dado ruim da economia chinesa, os mercados reagiam animadamente, esperando uma forte atuação do governo no sentido de estimula-la. Quanto pior ficasse a economia, tanto mais aumentava a probabilidade do governo chinês montar um pacote de estímulos. O governo reagiu da forma que pode: reduziu os juros e aumentou a oferta de moeda. E isso causou uma mega bolha das ações, que  subiram 150% em poucos meses. Fazer um pacote de estímulos, que faça com que a economia chinesa saia dos “parcos” 7% de crescimento hoje para os antigos 12% é impossível. E por duas razões:

- As dívidas chinesas atingiram mais de 180% do PIB e boa parte delas é do setor privado e das províncias. O governo central não tem como aumentar os gastos totais da economia sem antes “equacionar” esse enorme passivo. Isso dispensa comentários...

- O estoque total de capital da economia chinesa pode ter chegado a um volume tal que novos investimentos são inviáveis, ao menos em taxas elevadas. Anos atrás vários analistas “invejavam” as taxas de investimentos chinesas, que chegavam a superar 40% do PIB. Ocorre, no entanto, que um volume tão expressivo de investimentos atinge um ponto que passa produzir uma tendência de estagnação na própria economia. Com um estoque de capital muito elevado, se a demanda não cresce, uma parcela importante desse capital fica ocioso e determina a interrupção de um novo ciclo de investimentos. A taxa de investimentos tem que cair e, de fato, está caindo.

Com a redução do crescimento e dos investimentos, o consumo de matérias primas por parte do país tende a cair. O volume de construções no setor de infraestrutura e no setor imobiliário está caindo e, portanto, o consumo de minério de ferro, aço, ligas metálicas, concreto e outros bens e serviços também caiu. Mas a oferta desses bens continua subindo como se estivéssemos no mesmo patamar de crescimento de anos atrás. Veja a produção global de minério de ferro:

                                     Produção Global de Minério de Ferro (milhões de ton)

 

 

O mundo continua a extrair o minério como se nada tivesse mudado na demanda global por ele. Note que entre 2000 e 2014 a produção aumentou 222% ou quase 9% ao ano. E o mundo não cresceu tudo isso no mesmo período. Foi a demanda por matérias primas da China e dos outros emergentes que permitiu um longo ciclo de crescimento e o transformou em mais infraestrutura e mais residências. Esse foi um longo ciclo e guarda semelhanças com o ciclo de crescimento observado no pós segunda guerra. Nos anos 1950 e 1960, a demanda global por matérias primas explodiu, seja porque os países estavam sendo reconstruídos, seja porque a economia global havia entrado em um forte período de crescimento. O ciclo acabou nos anos 1970, quando as matérias primas apresentaram uma enorme elevação de preços, disparando a inflação mundial. Após o fim do ciclo os preços das matérias primas caíram fortemente, levando os países do “terceiro mundo” ao colapso de suas dívidas externas.

Agora estamos vivendo algo semelhante: as matérias primas tendem a se acomodam em patamares mais baixos dos que atingiram no auge do ciclo de crescimento. Os países emergentes, altamente dependentes das exportações desses bens, devem apresentar uma redução do crescimento e uma realidade um pouco mais dura. De certa forma isso já vinha sendo capturado pelos mercados, por meio dos preços, veja os gráficos:

Minério de Ferro  (US$ / tonelada)

 

 Petróleo WTI (US% / barril)

 

A queda já foi substancial, com o minério de ferro caindo de US$ 190 (máximo de 2011) para os atuais US$$ 44,00. E o petróleo caiu de US$ 110 para os atuais US$ 51. É importante estabelecer a relação entre o que ocorre na China (a interrupção de um longo ciclo de super crescimento) e o cenário global, em termos gerais.  O pesadelo para qualquer um que queira entender o cenário aumenta quando a moeda americana é adicionada: as suas flutuações mexem com os preços dessas matérias primas diretamente. Cada vez que o dólar sobe, os preços caem e vice e versa.

Uma coisa é certa e dará trabalho: os setores produtores de commodities, exceto alimentos, precisam se reestruturar. Empresas desaparecerão, outras se fundirão e todas perderão valor. Ao menos até que o mundo volte a crescer como antes.

 

 

(1) O célebre economista Michal Kalecki construiu modelos para explicar o cresciemnto e os ciclos das economias capitalistas. O investimento, segundo Kalecki, cumpre um papel fundamental na deterinação da Renda e, portanto, do crecimento. As fortes flutuaçoes da eocnomia estão associadas aos determinantes do investimento. A queda do crescimento chinês está associada ao excesso de invbestimentos efetuados no passado. O "Momento Minsky" foi uma expressão cunhada por analistas de Wall Street para expliocar a crise financeira de 2008. Hyman Minsky foi um economista dedicado a explicar a instabilidade dos mercados.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com