À beira do precipício, de novo?

Volto ao tema do pequeno empurrão que a crise grega pode dar ao enorme caminhão que está parado no início da ladeira. Se a "Troika" deixa-lo embalar, por alguns metros, poderá ser muito difícil dete-lo. Foi isso que Henry Paulson e Ben Bernanke fizeram na crise de 2008; apostaram em um "susto corretivo" nos mercados. Alguns trilhões de dólares depois e milhões de desempregados, a experiência se mostrou uma das mais desastrosas da história econômica. Com os juros das dívidas europeias subindo, apesar da forte intervenção do BCE, e com o derretimento das matérias primas, não há bolsa ou moeda que fique firme.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Ontem o povo grego foi às urnas e, como você sabe, optou claramente pelo “não” ao acordo proposto pela Troika que, apesar de ser menos duro que o original, ainda mantinha imposições que deixariam a Grécia em profunda recessão.

Desde o início da crise, em 2008/2009, a renda dos gregos caiu mais de 20% e o desemprego subiu até os 25%. A capacidade do país e em honrar qualquer compromisso está comprometida por um longo tempo. Ainda que a discussão sobre “culpas” seja uma tolice no que diz respeito à Ciência Econômica, servindo apenas aos propósitos políticos dos dirigentes da Comissão Europeia, observar o quadro abaixo ajuda a entender a dinâmica da crise fiscal na Europa:

Déficit da Zona do Euro - Evolução da Crise

Note que a dinâmica fiscal era estável para todos os países e entrou em colapso após o “choque” de 2008/2009. E esse choque, iniciado no sistema bancário dos EUA, atuou para desestabilizar a situação fiscal por meio da queda do PIB (ele faz cair o denominador e piorou a arrecadação) e por meio dos imensos pacotes para tentar deter a crise. Esses pacotes aumentavam os gastos e as dívidas dos estados, e estavam focados em salvar o sistema bancário. O salvamento do sistema bancário, por sua vez, era crucial para que a economia mundial se mantivesse de pé1. A situação fiscal dos países europeus é tão deteriorada justamente porque está ligada à recuperação da crise bancária de 2008, com os países elevando suas dívidas a montantes astronômicos, que agora entram em escrutínio por parte do mesmo sistema bancário que foi resgatado pelos tesouros. A generosidade com os bancos, que os manteve de pé quando estavam completamente arruinados, agora desaparece, dando lugar ao discurso moralista dos ministros da Comissão Europeia2. Essa conduta, para lá de contraditória, tem um preço em termos econômicos: leva a impasses que detonam crises.

Um dos canais pelos quais a “crise” na Grécia pode contagiar a Zona do Euro é pela via fiscal. Os países europeus têm dívidas enormes e que são financiadas a custo muito baixo. O acordo com a Troika - que “resgatou” Itália, Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda - não implicou em melhora nas dívidas, que continuaram a crescer, além de manter o crescimento muito baixo e o desemprego elevado. Veja a evolução da relação entre a dívida pública e o PIB dos principais evolvidos na crise da dívida europeia:

 

Note que as dívidas explodiram a partir de 2008/2009, com altas de 28%, 95%, 90%, 170% e 357%. O peso dessa elevação, decorrente dos motivos que apontamos acima, ficou insuportável para os países que entraram em um beco sem saída: a enorme dívida atrapalha o crescimento e o baixo crescimento impede a redução da dívida.

Cada ponto percentual de alta no custo de financiamento dessas dívidas tem um impacto enorme nas finanças públicas de cada país. E o custo das dívidas está subindo para todos eles desde que a crise grega foi novamente detonada. A dívida italiana, de cerca de 2,2 trilhões de euros, passou a ser financiada a taxas mais elevadas: em março desse ano os títulos de dez anos do tesouro italiano estavam sendo financiados a 1,13% a.a.; hoje eles estão saindo a 2,39%, com uma alta de 1,26% em quatro meses, veja o gráfico:

 Custo dívida de dez anos - Itália

Essa alta, se aplicada a toda a dívida italiana, representa algo como 25 bilhões de euros por ano de custos fiscais, ou 1,66% do PIB de aumento do esforço fiscal para manter a dívida estabilizada, já que a inflação  está próxima de zero, tal como o crescimento do país.

A forma de contágio, que já tratei em “post” anterior (http://pepasilveira.blogspot.com.br/2015/06/a-grecia-e-o-novo-lehman-brothers.html ), é exatamente essa, por meio da dívidas e das moedas. Se os países que têm dívidas enormes, como a Itália e a Espanha, receberem o tratamento que a Grécia recebeu, podem ter o mesmo destino. Em função dessa percepção, os riscos em suas dívidas aumentam e isso, por sua vez, as torna ainda mais instáveis. O BCE está fazendo um esforço enorme para manter os preços das dívidas estabilizados, mas isso tem limite.

O outro mecanismo de contágio é o da moeda: quanto mais o euro se desvaloriza frente ao dólar, tanto mais ele leva a crise para os EUA e para emergentes, como o Brasil. Hoje o minério de ferro derreteu mais 5% e está sendo negociado a US$ 52 a tonelada (estava saindo a US$ 65 em 11/06) e o barril de petróleo WTI está a US$ 54, com queda de outros 5%.

Foi assim que o Lehman “comeu” a estabilidade: com a incrível crença de que os danos seriam contidos. Mas o contágio nos mercados globais, instáveis por natureza, é quase sempre inevitável 

(1)    O sistema bancário entrou em colapso por manter em seus ativos um volume muito grande de dívidas imobiliárias que derreteram abruptamente após o “estouro da bolha”. Ao entrar o colapso, o sistema bancário interrompeu a oferta de crédito para a economia, jogando-a em uma enorme recessão. Manter as condições de oferta de crédito normalizada era uma condição essencial para a economia global. Ocorre que os tesouros e os bancos centrais injetaram mais de US$ 2 trilhões nos bancos e mantiveram intactas as estruturas societárias. Após a recuperação do sistema, os acionistas dos bancos recuperaram o seu dinheiro, ao passo que a sociedade se colocou diante de um enorme passivo fiscal e com milhões de desempregados.

(2)    É uma boa discussão essa sobre a situação dos bancos que são grandes demais para quebrar e sobre a forma “justa” de resgatá-los quando em crise. Tudo indica que é fundamental manter o sistema bancário sob forte regulação (a oferta monetária funciona como um bem público e o sistema é muito concentrado) e que ao prestar socorro a um banco, que seus acionistas e dirigentes sejam “punidos” por meio da transferência de ações para o tesouro. Sobre essa questão o livro do economista Joseph Stiglitz é razoavelmente esclarecedor: STIGLITZ, J. , “O mundo em queda livre” , Cia das Letras, 2011.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com