Um balanço do semestre com a Carteira Recomendada batendo mais de 13%

Hoje, primeiro dia do segundo semestre de 2015 faço um balanço: as expectativas do mercado no início do ano eram demasiadamente otimistas para a economia brasileira. Além de dar peso excessivo aos benefícios do ajuste fiscal, os analistas, ao que parece, desprezaram os efeitos do enorme choque de oferta representado pela seca e pela desvalorização cambial. Tentando fugir desse consenso, consegui escolher carteiras recomendadas ao longo dos seis meses do ano que superaram o Ibovespa em mais de 7%, colocando a TOV CCTVM no topo das corretoras que participam dos levantamentos da Infomoney e da Exame. A análise dos fundamentos mostrou-se poderosa.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O primeiro semestre do ano acabou e ele mostra que as estimativas iniciais dos agentes eram até otimistas em relação ao resultado verificado, exceto para a Bolsa, que surpreendeu positivamente. Em 02 de janeiro os participantes do sistema de expectativas de mercado do Banco Central esperavam os seguintes resultados, confrontados com as expectativas atuais, veja o quadro:

  

De certa forma esse “otimismo” do mercado foi resultado da crença segundo a qual os ajustes fiscais produzem melhoras em todas as variáveis macroeconômicas. Como já disse aqui, Paul Krugman chama essa crença de “fadinha da credibilidade”. Mas a deterioração mostra, efetivamente, que os efeitos da austeridade são os opostos do esperado.

Outro aspecto importante foi o absoluto desprezo do mercado aos impactos do choque de oferta sobre o nível de atividade e dos preços. O Brasil começou o ano com um enorme choque de oferta oriundo da desvalorização cambial e da seca, veja no quadro o item Taxa de Câmbio. O mercado esperava um dólar de R$ 2,8 em dezembro e ele simplesmente explodiu para R$ 3,10, com uma alta de mais de 10% com impactos importantes sobre o IPCA, sobre o IGP-M e sobre o IPC-Fipe. A falta de água produziu um enorme impacto sobre os preços da energia elétrica e dos alimentos. Ambos têm pesos elevadíssimos sobre os índices de preços  e acabaram por produzir mais de 70% da inflação do primeiro semestre. E como o mercado desprezou os impactos do choque de oferta - centrando suas discussões no “fiscal” e suas implicações sobre a inflação – não viu a inflação subir e, tampouco, as taxas básicas de juros. A taxa Selic não saiu de 12,50% para 14,50% porque Tombini se “redimiu” junto ao mercado, como muitos analistas da “macromedia” nos propõem. As taxas de juros subiram porque o mercado saiu correndo atrás do choque de oferta que elevou a inflação de 2015 de 6,56% para mais de 9%.

E como todos esses aspectos se relacionam com o nível de atividade, era óbvio que a estimativa de crescimento de 0,50% para o PIB no início do ano estava mais do que otimista. Todos os componentes da demanda agregada já se mostravam em contração e, pior, com perspectivas de piora ao longo do ano. Mas o mercado se apegou à crença de que ajustes fiscais produzem crescimento e esse foi o principal obstáculo para evitar uma estimativa um pouco mais realista. Basta ver o ajuste feito para as expectativas em relação à produção industrial.

E esse é o problema de colocar as premissas de política econômica à frente de qualquer outro elemento quando se vai fazer projeções. Há um enorme viés entre o que o economista pensa ser o “melhor” para a economia e aquilo que, de fato, vai ocorrer na economia a despeito das opiniões políticas do analista. Os economistas de mercado têm um viés pró laissez faire e suas escolas mais radicais (que incluem modelos baseados nas expectativas racionais e no RBC) e esse viés torna o futuro melhor quando os governos adotam políticas mais contracionistas (seja via política fiscal, seja via política monetária). Não quero dizer com isso que a economia brasileira está fadada a uma eterna queda livre. É claro que em algum momento a economia irá se estabilizar, em um equilíbrio pior do que aquele que existia antes da crise. Mas esse momento ainda está longe de ser percebido. O argumento de que a austeridade produz melhoras, mas necessita de um “sacrifício” no presente, joga todos os benefícios da escolha para o futuro. E como disse o maior economista, a única coisa que sabemos acerca do futuro é que estaremos todos mortos.

Apesar de toda a piora do cenário econômico, consegui selecionar, ao longo dos seis primeiros meses do ano, carteiras de ações para serem recomendadas aos clientes da TOV que tiveram performance acima da média. No ano a Carteira Recomendada TOV teve um retorno de 13,79% frente a um Ibovespa de 6,15%. O retorno acumulado da carteira superou em 7,64% o retorno médio do mercado. Com isso, a carteira recomendada ficou à frente de suas concorrentes (mais de vinte corretoras e bancos) que participam nos levantamentos mensais da Infomoney e da Exame. Esse resultado, comercialmente excelente, é claro, veio da estratégia de análise: ver os fundamentos gerais da economia e escolher os setores que receberiam os impactos mais positivos ou menos negativos. O cenário base no qual trabalhei, desde o início do ano, comtemplava uma queda forte do PIB (mais de 2%), uma forte inflação (superior a 8,5%), desvalorização cambial, restrição ao crédito e queda da demanda doméstica. A seleção das empresas evitou o varejo, a indústria siderúrgica e mineração, construtoras e empresas endividadas. Optei por bancos grandes (oligopólios), que tendem a se beneficiar da crise de crédito1; por seguradoras com enorme caixa (se beneficiam da elevação dos juros); por empresas do setor exportador (dólar em alta!), empresas pouco endividadas e com “proteção de mercado” em caso de desvalorização (Ambev e Brasil Foods) e, por fim, por Petrobrás, cujos preços estavam tão deprimidos que era impossível ficar de fora.

Apesar de todos os imprevistos que podemos ter em nossas análises, uma coisa eu aprendi ao longo do tempo (mais de 30 anos!): colocar a ideologia onde se ganha dinheiro não traz resultados positivos. Aos fazermos nossas escolhas para elaboração de cenários e de alocação, a objetividade deve ficar acima de tudo, mesmo que isso seja muito difícil.

 

 

(1)    Em grande parte motivado pelo modelo de Stiglitz sobre o racionamento de crédito. Greenwald, B. e Stiglitz, J. "Rumo a um novo paradigma em Economia Monetária" , Francis ; 2004

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

Deixe seu comentário

Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com