Os juros representam 82% da piora fiscal do país

Hoje o BC divulgou as contas públicas de maio e houve um a piora de R$ 119,7 bilhões no déficit entre os primeiro cinco meses de 2015 e os primeiro cinco meses de 2013. Desse total 82% dizem respeito ao aumento dos juros e o restante à deterioração do superávit primário. Apesar do pessimismo de diversos setores da sociedade, o ajuste das contas públicas é muito factível. Uma taxa de crescimento de 1,5% e um IPCA 5,6% no ano que vem já "domesticam" o problema fiscal. O maior risco, no entanto, é o de perda do Grau de Investimento.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O Banco Central divulgou hoje a nota à imprensa sobre a situação fiscal do país. Vale lembrar que esse é o tema central das discussões dos políticos, dos analistas políticos, jornalistas e boa parte dos economistas brasileiros. De maneira geral, esse setor social tem disseminado a ideia de que estamos diante de um cenário caótico para as contas públicas e é ele que tem causado a crise econômica que resulta em aumento de desemprego, inflação e em forte queda do PIB. É esse o tema utilizado para fortalecer a tese de impedimento da atual presidente ou, pelo menos, para justificar a tese de que gastou-se demais e essa é a causa de todos os descaminhos de nossa economia.

Ainda que tenha uma visão completamente diferente do tema, ele é o guia dos “sentimentos do mercado”; e entendamos esses “sentimentos do mercado” como forças que levam às altas e baixas dos preços dos principais ativos (títulos públicos, moedas, ações, etc). Considero os “sentimentos dos mercados” muito bem explicados no livro “O Espirito Animal” de George Ackerlof e Robert Schiller1. Para uma abordagem mais didática e bem humorada, um velho vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=WW1vcqUqNp0 . De fato, a questão acerca do endividamento brasileiro atual - e da sua dinâmica - tem um componente muito mais político do que econômico, no sentido estrito.

A melhor forma de escapar dessa discussão extremamente viesada e pouco profícua para os objetivos de avaliação do estado atual do mercado e suas perspectivas2, é examinarmos os números divulgados e tentar estabelecer uma dinâmica provável no futuro próximo e os impactos que ela terá sobre a economia e os mercados. Sabemos que o governo está enfrentando um momento de desafio para fazer o AJUSTE FISCAL como forma de garantir uma trajetória sustentável da dívida pública e um ambiente não inflacionário. A rigor, o primeiro de todos os objetivos é manter a nota de Grau de Investimento, sem a qual veríamos a diminuição  dos investimentos no país, alta do dólar e dos juros. Então vamos aos números, a partir dos três gráficos abaixo:

 

 

O primeiro gráfico, que mostra a evolução do déficit total do governo, apresentou uma alta de R$ 119,7 bilhões de aumento entre 2013 e 2015. Desse aumento, R$ 98,5 bilhões vieram do aumento dos juros da dívida pública, que eram de R$ 100,4 e saltaram para R$ 198,9 bilhões entre 2013 e 2015. Os outros R$ 21,2 bilhões vieram da redução do superávit primário, causado pela queda das receitas e aumento das despesas. Portanto, 17,71% do aumento do déficit público veio do suposto “descontrole” de gastos e de arrecadação. Os outros  82,29% vieram do aumento dos juros da dívida pública.

Para atingir a meta de 1,2% do PIB de superávit primário nesse ano, o governo deverá arrecadar R$ 70,68 bilhões a mais do que gastar. Decorridos cinco meses, o governo obteve 36,1% de sua meta3. Levando em conta as condições da economia e as perspectivas para os próximos meses, de desaceleração ainda maior do nível de atividade e de emprego, é mais provável que o governo chegue em 0,8%-0,9% do que em sua meta de 1,2%. Algum problema em relação a isso? Nem de longe...

A sustentabilidade da dívida pública de um país depende da relação entre o nível de encargos da dívida, do seu déficit público, da taxa de crescimento e da inflação. A equação abaixo resume a relação:

Aumento da dívida como proporção do PIB = Juros + Déficit – Taxa de Crescimento – Inflação.

O único alerta é relativo à inflação: se ela subir permanentemente seus efeitos positivos desaparecem4. De resto, basta que a economia pare de cair no ano que vem e cresça um pouco mais e que a inflação volte a cair, para que a relação dívida/pib volte à trajetória anterior, de declínio.  Boa parte dos eventos que causaram a forte piora do lado fiscal veio do aumento da inflação (que elevou os gastos com juros em mais de R$ 98 bilhões) e da queda do PIB (que deixou o denominador da equação dívida/PIB estacionado, para não falar a queda da arrecadação). Ao projetar uma taxa de inflação menor (cerca de 5,6% em 2016) e uma taxa de crescimento superior a zero (cerca de 1,5% em 2016), podemos avaliar que o quadro fiscal tende a melhorar substancialmente comparativamente ao “pico” do último trimestre do ano passado.

O risco real que corremos é o das agências retirarem o “rating” de grau de investimento do país antes das melhoras projetadas. Ainda que a possibilidade seja baixa, é melhor pensar no “pior”.

Apesar de apresentar um déficit primário (arrecadação – gastos) em maio, as possibilidades são mais para a melhora do lado fiscal do que para sua piora, apesar do pessimismo expresso na macromedia.

 

 

(1)    Ackerlof, G., Schiller, R. “O Espírito Animal, como a psicologia humana impulsiona a economia e sua importância para o capitalismo global”, Elsevier, 2013

(2)    É dessa forma que consigo obter resultados muito satisfatórios em relação à média de mercado no que diz respeito às projeções para preços, taxa de crescimento, taxa Selic ou, até mesmo, para a alocação de ações na carteira recomendada. Deixo de lado as “emoções políticas” ou as paixões altamente ideológicas e procuro me ater aos eventos objetivamente, ainda que isso seja praticamente utópico. Esse tema é tratado, por exemplo, pelo economista inglês em Meek, R. “Economia e Ideologia – O Desenvolvimento do Pensamento Econômico” , Zahar, 1971. No embalo das emoções, analistas deixaram de prever o PIB zero do ano passado ou demoraram a sair de uma estimativa de crescimento para 2015 para uma de contração. O que “travou” a visão de mercado para 2014 foi a ideia de que a forte expansão dos gastos governamentais e do crédito fariam o PIB (e os preços) andarem forte. Para 2015 deixaram de considerar os efeitos dos impulsos fiscais contracionistas. Ambas visões resultaram mais de posições políticas e ideológicas do que da análise cuidadosa acerca dos sinais que a economia já emitia desde o primeiro trimestre de 2013.

(3)    Para chegar a esse número parti de um  PIB de R$ 5,5 trilhões em 2014, inflação de 9,4% e queda do PIB de 2,2 em 2015.

 

(4)    É possível que os efeitos positivos se tornem negativos se a inflação for elevada e percebida como permanentemente elevada. Isso porque os agentes reagem à inflação reagindo juros mais elevados o que pode anular os ganhos com a seignioriage.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com